Nos últimos anos, a Maersk, tradicional gigante do setor marítimo, consolidou uma virada estratégica essencial em seu modelo de negócios regional. A companhia, presente em mais de 130 países, deixou de ser apenas uma transportadora de contêineres para se posicionar de forma definitiva como uma integradora logística de ponta a ponta. Essa evolução redesenha o escoamento de minerais no Brasil e na América Latina. Sob a liderança operacional de Roberto Fernaine, diretor para a América Latina e Caribe, a empresa direcionou sua expertise para atender a setores complexos. O foco principal tem sido a mineração, um segmento que demanda máxima precisão, segurança total e rastreabilidade rigorosa de ponta a ponta.

Em vez de competir no mercado tradicional e volátil de navios graneleiros (dry bulk), voltados para grandes volumes de baixo valor agregado como o minério de ferro, a Maersk identificou uma lacuna logística valiosa no transporte de minerais processados e metais críticos. Ao unir logística terrestre (inland), transporte intermodal, cabotagem, armazenagem e gestão portuária por meio da APM Terminals, a companhia oferece uma interface operacional única. Além de reduzir drasticamente a dependência de múltiplos fornecedores, essa estrutura possibilita um controle absoluto sobre os riscos operacionais, garantindo maior estabilidade no fluxo internacional dos produtos.
Malha intermodal
Para capturar e consolidar o mercado de minerais de maior valor agregado, a Maersk desenhou uma robusta malha intermodal nacional de transporte de cargas, conectando o interior do país aos principais corredores logísticos de exportação marítima. A operação combina de forma sinérgica o transporte rodoviário de curta e longa distância, ferrovias de grande capacidade e a cabotagem ao longo da costa. Essa integração permite captar o fluxo mineral de polos produtores localizados no Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste brasileiro, direcionando-os aos portos para atender aos grandes mercados consumidores da Ásia, Europa e América do Norte. O modelo elimina os gargalos históricos de armazenagem intermediária e confere às mineradoras uma flexibilidade inédita para ajustar os volumes conforme as oscilações da demanda internacional.
Além da eficiência geográfica, a modalidade de transporte conteinerizado oferece vantagens qualitativas frente ao tradicional modelo a granel. A estufagem em contêineres confere total proteção e integridade física à carga, reduzindo a zero os índices de contaminação cruzada, desperdício ou perdas por intempéries climáticas. A operação conta com rastreabilidade detalhada, que garante o monitoramento de cada lote em tempo real. Essa previsibilidade operacional otimiza o fluxo de caixa das mineradoras, que não precisam mais imobilizar capital em estoques gigantescos nos portos aguardando navios graneleiros. O contêiner funciona como uma unidade modular de entrega rápida, viabilizando o atendimento fracionado e customizado a clientes especializados que compram produtos de alta pureza.

Minérios e máquinas
Na América Latina e no Brasil, a demanda pelos serviços de transporte conteinerizado da Maersk, explica Fernaine, é liderada por minerais críticos e estratégicos. Entre eles, concentrados de cobre, níquel, lítio, nióbio, bauxita processada, alumina e fertilizantes minerais ensacados. Como são produtos de alto valor agregado por tonelada e com especificidades químicas delicadas, o modelo conteinerizado surge como solução ideal. “Acreditamos que essa demanda provocará uma mudança estrutural duradoura no mercado logístico global, elevando a participação dos contêineres no setor mineral nos próximos anos”, avalia o executivo.
A operação exige cuidados técnicos meticulosos na preparação e estufagem dos contêineres. Cada mineral possui características físicas únicas, como densidade elevada ou sensibilidade à umidade, o que implica na definição de critérios rigorosos de distribuição de peso e fixação interna para assegurar a estabilidade do veículo e do navio.
Em paralelo ao transporte de minérios, a divisão Maersk Project Logistics gerencia operações complexas de carga geral e especial (break bulk), focada no transporte multimodal de maquinário pesado para minas e plantas de beneficiamento, como britadores, moinhos, transformadores e escavadeiras de grande porte, entre outros. Essa movimentação envolve desde estudos detalhados de viabilidade de rotas e impactos ambientais até o gerenciamento complexo de içamentos e engenharia de tráfego, em conjunto com fabricantes, locadores e prestadores de serviços de elevação de cargas.

Investimentos
A eficiência da engrenagem logística integrada da Maersk culmina nas operações portuárias, onde os investimentos realizados através da APM Terminals desempenham papel crucial. A infraestrutura moderna e a produtividade nos terminais são imperativos para sustentar o ritmo de crescimento das exportações latino-americanas de minerais processados. No Brasil, os recursos visam a superação de gargalos históricos e a sustentabilidade das operações de comércio exterior. Um dos maiores marcos dessa estratégia é o desenvolvimento do novo terminal portuário em Suape, Pernambuco. O projeto foi integralmente concebido para ser o primeiro terminal totalmente eletrificado da operadora no território brasileiro, combinando alta performance operacional com metas ambiciosas de descarbonização, de forma a conectar as ferrovias e rodovias da região a uma estrutura portuária verde e altamente digitalizada.
Simultaneamente, no Porto de Santos, em São Paulo, a empresa tem feito aportes constantes para otimizar o fluxo de importação e exportação de cargas de alta densidade que abastecem a cadeia mineral e a indústria pesada nacional. Para Fernaine, diante da volatilidade dos fretes marítimos globais, a estratégia de diversificação de serviços e modais terrestres confere resiliência à companhia e aos seus clientes. “Enquanto as oscilações do mercado de graneis afetam diretamente os operadores tradicionais de minério de ferro, a Maersk mitiga riscos ao focar na agregação de valor tecnológico e na eficiência logística porta a porta, tornando-se uma parceira fundamental para o desenvolvimento e a competitividade global da mineração brasileira”, conclui o diretor.
