“Quando surgem desafios relacionados a prazo, produtividade ou restrições operacionais, as equipes são orientadas a reavaliar o planejamento, revisar os controles e buscar soluções que preservem os padrões de segurança estabelecidos, em vez de flexibilizar requisitos críticos”, afirma Tamiris Vrunski, gerente de Segurança e Gestão de Risco da Anglo American. Segundo ela, a diretriz visa cumprir um objetivo inegociável: sustentar a meta de zero acidente em todas as frentes operacionais da companhia. Sua efetividade prática é assegurada por meio de uma governança que integra liderança ativa, controle de fatores humanos, tecnologia, conformidade e gestão climática.

Para que a segurança se torne um valor internalizado, a gestão atua de forma próxima às equipes operacionais, complementando as interações diárias em campo com Diálogos Diários de Segurança (DDS) e verificações de controles críticos. O papel das lideranças, diz a gerente, é consolidar a segurança psicológica dos funcionários, dando-lhes liberdade para reportar desvios, expor dificuldades e exercer o direito de recusa diante de riscos iminentes.
Há também estratégias focadas no combate ao estresse, excesso de confiança e fadiga nos turnos de trabalho. Os operadores contam com acompanhamento médico e suporte do sistema ADAS (Advanced Driver Assistance Systems), que detecta cansaço ou distração nas cabines dos equipamentos através de câmeras e sensores de alta precisão. Adicionalmente, são promovidas campanhas de conscientização e Interações de Segurança semanais, que identificam aspectos organizacionais capazes de impactar o desempenho operacional antes que ocorra um incidente.

Esses padrões são estendidos aos trabalhadores terceirizados, por meio de auditorias, workshops e do acompanhamento mensal da Performance de Segurança das Contratadas. Indicadores com conformidade inferior a 90% requerem a implementação de planos de ação robustos para corrigir fragilidades. Em contrapartida, as melhores práticas são reconhecidas no Comitê de Segurança pelo prêmio Capacete de Ouro. Para conter o turnover e reter o conhecimento em funções críticas, a mineradora criou a Academia de Segurança de Alta Performance (ASAP), que nivela as competências técnicas e comportamentais e unifica a abordagem sobre riscos entre empregados próprios e prestadores de serviço.
Escudo digital
A transformação digital desempenha papel decisivo no isolamento e na retirada de trabalhadores das áreas de maior risco da mina. Laender Chagas, gerente interino de Gestão da Informação – TI da Anglo American, aponta que a automação avança com projetos como os de perfuratrizes autônomas e tratores teleoperados, controlados a partir do Centro de Operações Remotas (COR). A tecnologia afasta profissionais da exposição a poeira, vibrações, instabilidade de terrenos e colisões com maquinários. Nas atividades que demandam presença humana, sistemas de telemetria em tempo real, monitoramento de pneus (MEMS) e sistemas anti-colisão (CAS) elevam a proteção.
A detecção preditiva de falhas estruturais também foi potencializada pela engenharia de dados. Nas estruturas geotécnicas, radares de talude, piezômetros e estações robóticas alimentam continuamente o SHMS (Slope/Structural Health Monitoring System). Chagas detalha que, sempre que um indicador se desvia dos padrões projetados, alertas automáticos acionam o Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG), que opera 24 horas por dia. No transporte de polpa, a segurança do mineroduto é vigiada pelo sistema OptaSense, que usa cabos de fibra óptica para identificar vibrações anômalas ou interferência externa ao longo do traçado.
Essa infraestrutura exige defesas robustas contra indisponibilidades e ameaças cibernéticas. O gerente de TI revela que a proteção adota múltiplas camadas no ambiente industrial, utilizando plataformas como Claroty para visibilidade de ativos, CrowdStrike para segurança de servidores e estações, e Qualys para a gestão de vulnerabilidades. Caso ocorra queda de softwares essenciais, procedimentos operacionais estabelecem o uso de controles manuais, monitoramentos alternativos ou a interrupção temporária das atividades. Estudos de Análise de Impacto nos Negócios (BIA) e planos de Disaster Recovery (DRP) cobrem todos os sistemas prioritários.
Escopo preventivo
O refino constante dos processos apoia-se em uma cultura que valoriza o aprendizado gerado pelos desvios cotidianos. Sempre que uma falha operacional ou um “quase acidente” (near miss) é registrado, é aberta uma investigação estruturada para mapear as causas básicas do evento. As lições são compartilhadas globalmente por meio do processo de Learn From Incidents (LFI). Esse fluxo, diz Tamiris Vrunski, garante que os aprendizados sejam incorporados aos treinamentos e manuais técnicos, evitando recorrências. Toda alteração planejada no layout da mina ou nos métodos de trabalho passa por análises prévias de impacto para mitigar riscos antes da execução.

O rigor técnico estende-se ao gerenciamento de riscos geotécnicos e climáticos. Daniel Raposo, gerente de Geotecnia e Hidrogeologia da Anglo American, explica que contra os impactos das mudanças climáticas, a operação desenvolve seus Planos Diretores de Drenagem e Preparação para o Período Chuvoso com o apoio de consultorias especializadas. O executivo destaca a aplicação de ferramentas de hidrologia estatística e modelagem matemática de balanço hídrico, garantindo baixos níveis de risco e margens de segurança hidráulica mesmo sob índices históricos de chuva. Adicionalmente, Raposo esclarece que a empresa aplica as legislações nacionais e o padrão global GISTM (Global Industry Standard on Tailings Management) fomentado pelo ICMM (International Council on Mining and Metals), adotando a filosofia ALARP (As Low As Reasonably Practicable). Como a mineradora não opera barragens alteadas a montante, não há processos de descaracterização. Diques, pilhas de estéril e cavas contam com vistorias periódicas de Engenheiros de Registro (EoR) e suporte independente qualificado (IQS).

or fim, a proteção alcança a população do entorno. De acordo com Gustavo Gomes, gerente executivo de Manutenção Industrial da Anglo American, a companhia adota estratégias para garantir a segurança das comunidades vizinhas, seguindo a metodologia e frequência definidas pelas resoluções vigentes da ANM (Agência Nacional de Mineração) e regulamentações estaduais.
No contexto do Plano de Ação de Emergência de Barragem de Mineração (PAEBM), Gomes salienta que as ações visam promover a cultura de prevenção por meio de atividades educativas em escolas locais, seminários orientativos e testes periódicos dos sistemas de sirenes. Os simulados práticos de evacuação são planejados em parceria com as Defesas Civis municipais para avaliar rotas de fuga, pontos de encontro e tempos de resposta. Internamente, treinamentos semestrais, exercícios de fluxo de notificação e cenários hipotéticos preparam o quadro técnico para agir com agilidade absoluta.
