A Serra Verde Mineração (SVM) opera em Minaçu, no estado de Goiás, onde desenvolveu a primeira operação de elementos terras raras (ETRs) do Brasil, no depósito de argila iônica Pela Ema. O empreendimento entrou em produção comercial em 2024 e atualmente encontra-se em processo de otimização de suas instalações. A empresa produz um Carbonato Misto de Terras Raras de alta pureza (MREC), produto intermediário que contém os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — essenciais para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho utilizados em setores como o automotivo, de energia renovável, aeroespacial, de robótica e defesa. Em meados de abril, foi anunciada sua aquisição pela USA Rare Earth, produtora de óxidos, ligas e imãs permanentes.
Segundo Ricardo Grossi, presidente e diretor de Operações (COO) da Serra Verde, a opção pela produção do MREC já é um reconhecimento, pela empresa, da importância estratégica de desenvolver cadeias de valor de terras raras mais integradas. “À medida que as cadeias globais de suprimento se diversificam, nosso foco está em construir uma operação resiliente e competitiva, sustentável no longo prazo. Ao investirmos e fortalecermos nossas operações, consolidamos ainda mais nossa posição de liderança no apoio ao desenvolvimento de cadeias de suprimento de terras raras diversas, seguras, responsáveis e confiáveis”, justifica o executivo.

Evitando comentar discussões específicas sobre possíveis projetos futuros ou captação de financiamentos, Grossi lembra que o investidor fundador da Serra Verde, a Denham Capital, juntamente com o Energy Minerals Group e a Vision Blue Resources, desempenhou um papel crucial no apoio à operação ao longo dos últimos 15 anos. “Mais recentemente, garantimos um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), destinado à otimização de nossa operação. Esses recursos nos permitirão ampliar nossa capacidade instalada, estabelecer uma estrutura de custos sustentadamente mais baixa e melhorar a qualidade de nosso produto”, explica o presidente.
No Brasil, a proposta da empresa foi uma das classificadas na chamada pública BNDES-FINEP (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-Financiadora de Estudos e Projetos), que selecionou planos de negócio para investimentos na transformação de minerais estratégicos para a transição energética e descarbonização. A próxima etapa é a de apresentação de garantias para a obtenção do financiamento.

Em termos de demanda, Grossi avalia de forma mais ampla que os mercados de terras raras estão em evolução, com esforços crescentes para estabelecer mecanismos de precificação mais transparentes e diversificados fora da Ásia. Para ele, à medida que surgem novos centros de oferta e demanda, espera-se que a formação de preços continue se desenvolvendo junto com o mercado. A Serra Verde, diz ele, por ser líder na indústria global de terras raras, como única produtora em larga escala de terras raras pesadas (ETRPs) fora da Ásia, possui uma demanda significativa e crescente por seu produto nos mercados internacionais.
Estrutura
Segundo Grossi, o depósito de argila iônica da Serra Verde é raso e macio, o que permite uma operação de mineração a céu aberto mais simples, sem a necessidade de técnicas intensivas normalmente empregadas em depósitos de rocha dura. Após a extração, o minério passa por várias etapas de processamento até ser transformado em MREC. Com a atual otimização das operações, a meta é produzir 6,5 mtpa de TREO até o fim de 2027. Paralelamente, diz o presidente, está sendo avaliado uma potencial expansão, que poderá dobrar a produção até o final da década.
Na lavra, as camadas superficiais de solo são removidas com o emprego de escavadeiras e tratores e transportadas por caminhões basculantes. Separado o estéril, o minério (solo laterítico + saprolito) é peneirado na própria frente de lavra. O oversize é disposto próximo à cava, para futura recomposição da área lavrada, enquanto o undersize, material fino que contém mais de 98% dos ETRs recuperáveis, é bombeado, na forma de polpa, para a área de concentração.
No beneficiamento, visando a oferta de um “produto verde” e a sustentabilidade da operação, a lixiviação em pilha foi substituída pela lixiviação iônica, mediante contato do minério com uma solução de baixa acidez (solução salina sem uso de ácidos) e precipitação do produto final. Todo o processo se dá em circuito fechado. Não há barragens de rejeitos e toda a água de processo é reciclada. O rejeito sólido (minério fino umedecido) passa por um processo de lavagem para a retirada de eventuais resíduos de solução salina, e por secagem ao sol, sendo utilizado na recomposição das áreas lavradas. Também a água de lavagem é reutilizada.

Histórico
Com base em entrevistas e matérias publicadas na revista In the Mine, levantamos que a SVM, então Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), surgiu de um projeto iniciado pela Mining Ventures Brasil, controlada pela Denham Capital Management LP, empresa internacional especializada no desenvolvimento de projetos de exploração de recursos naturais, com participação minoritária da Arsago Mining Capital (BVI), grupo suíço com foco em empreendimentos no Brasil. O depósito mineral da SVM, provavelmente, o maior de terras raras em argilas iônicas do Hemisfério Ocidental, fica entre os municípios de Minaçu (a maior parte), Trombas e Montividiu do Norte, no norte de Goiás (GO), próximo à divisa com o Tocantins.
À época, a empresa obteve 74 alvarás de pesquisa mineral, cobrindo 69,2 mil hectares. As sondagens foram iniciadas em 2012, com foco inicial na porção sul do depósito, denominada “alvo Pela Ema”, englobando cerca de 13 mil hectares. Foram realizados cerca de 58 mil m de sondagens, que definiram recursos de mais de 900 Mt de minério de terras raras em argila iônica, com teor médio de 0,12% (certificados segundo a norma canadense NI43.101). Posteriormente, foram confirmadas mais 400 Mt, com os mesmos critérios de pesquisa e teores médio e de corte.
Hospedado em argila iônica, o minério tem vantagens ambientais e econômicas. Do ponto de vista ambiental, ele se destaca pela ausência de rejeitos ou resíduos radioativos, característicos dos minérios monazíticos tradicionais mais comumente encontrados no Brasil. Do ponto de vista econômico, como disse Grossi, permite o emprego de processos de lavra e concentração de menor custo, além do baixo impacto ambiental.
O depósito possui uma morfologia de baixa profundidade e estratiforme. A baixa profundidade e a granulometria do minério simplificam os processos de extração e beneficiamento, enquanto a distribuição percentual entre terras raras leves e pesadas permite a obtenção de um produto Premium, com elevado conteúdo de terras raras pesadas e críticas, as mais valorizadas pelo mercado, em razão de sua escassez e demanda crescente.
