ÁGUA TRATADA MOVE MINA NA REGIÃO DO SERIDÓ

ÁGUA TRATADA MOVE MINA NA REGIÃO DO SERIDÓ

Projetar uma mina de ouro para operar em uma das regiões mais secas do país sem captar água de rios, açudes ou aquíferos para o beneficiamento mineral representa um dos maiores desafios da engenharia hídrica aplicada à mineração. Essa foi a premissa adotada pela Aura Borborema, em Currais Novos (RN), onde toda a operação foi concebida para funcionar com água de reuso proveniente do tratamento de efluentes sanitários e do aproveitamento das águas pluviais, reduzindo a pressão sobre os recursos naturais do semiárido. Segundo Frederico Silva, diretor de Operações da Aura Borborema, o sistema opera em circuito fechado, priorizando a recirculação integral da água e eliminando o descarte de efluentes no meio ambiente.

Operações da Aura Borborema
ETE trata 1680 m³/dia de esgoto bruto para reuso no beneficiamento

A solução foi viabilizada por uma parceria entre a mineradora, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) e a Prefeitura de Currais Novos. Diariamente, cerca de 1.680 m³ de esgoto bruto — aproximadamente 65% do volume gerado pelo município — são captados na Estação Elevatória Caça e Pesca e transportados por uma adutora de 27 km até a unidade minerária.

Na Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) construída pela Aura, o material passa por sucessivas etapas de tratamento, incluindo processos físico-químicos, flotação, filtragem e dessalinização por osmose reversa. Após atingir os parâmetros exigidos para o processo hidrometalúrgico, a água abastece integralmente a planta de beneficiamento do ouro. O modelo permitiu que Borborema alcançasse um indicador raro na mineração: 100% da água utilizada no processo produtivo provém de fontes de reuso, sem qualquer necessidade de captação em mananciais naturais.

A ETE registra eficiência de 82,9% na remoção da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), enquanto o volume de efluentes descartados no meio ambiente é zero. Além dos ganhos ambientais, a solução elimina a competição pelo uso da água potável com as comunidades locais e transforma um passivo sanitário urbano em insumo estratégico para a produção mineral, fortalecendo também a infraestrutura de saneamento de Currais Novos.

Foto 3: Espessador industrial separa sólidos de líquidos na ETE
Tanque com água de reuso já tratada e sistema de bombeamento

Monitoramento

Operar integralmente com água de reuso exige um sistema de controle permanente e altamente rastreável de todas as etapas do circuito. De acordo com Silva, estudos hidrogeológicos acompanham o comportamento das águas superficiais e subterrâneas no entorno da mina, permitindo avaliar tendências, atender às condicionantes ambientais e garantir segurança operacional ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento.

O controle também abrange o desempenho da ETE, cuja operação é monitorada continuamente para assegurar que a água atenda aos requisitos do beneficiamento mineral. Toda a água que entra em contato com o minério permanece confinada nas estruturas operacionais, passa por análises físico-químicas e retorna ao circuito produtivo.

Soluções

A estratégia hídrica da Aura integra diferentes tecnologias destinadas a maximizar a recuperação da água e reduzir perdas ao longo do processo produtivo. Um dos principais diferenciais é a adoção do sistema de rejeitos filtrados e disposição a seco. Após o beneficiamento, a água contida nos rejeitos é recuperada por filtragem e retorna imediatamente ao circuito industrial, enquanto o material sólido é disposto em pilhas, eliminando a necessidade de barragens convencionais com lâmina d’água e reduzindo significativamente os riscos associados ao armazenamento de rejeitos.

Outro destaque é a própria Estação de Tratamento de Efluentes, equipada com reatores anaeróbios, sistemas de floculação, flotação por ar dissolvido, filtros de carvão ativado e membranas de osmose reversa. Essa combinação garante elevada eficiência na remoção de contaminantes e produz água compatível com os elevados padrões exigidos pelo processo de extração de ouro.

As soluções incluem ainda coberturas flutuantes instaladas em reservatórios e diques para reduzir perdas por evaporação, aspecto especialmente relevante nas condições climáticas do semiárido. Somam-se a isso o reaproveitamento de água proveniente de sistemas de climatização, a utilização de dispositivos automáticos para redução do consumo e a modernização dos sistemas de umectação de vias, todos abastecidos com água de reuso.

Na avaliação do diretor de Operações, o conjunto dessas tecnologias transforma Borborema em um dos projetos mais avançados do setor em eficiência hídrica aplicada à mineração, demonstrando que é possível combinar elevada produtividade com baixo consumo de recursos naturais.

Expansão

A inovação hídrica faz parte de um projeto mais amplo de modernização da unidade. Com a perspectiva de incorporação de novas reservas minerais após a realocação da BR-226, a Aura iniciou estudos para ampliar a capacidade de processamento da planta de 2 Mtpa para até 4 Mtpa. Essa expansão, explica Silva, será acompanhada por novos investimentos em eficiência hídrica, engenharia de processos e digitalização da operação. Entre as iniciativas em avaliação estão melhorias tecnológicas no circuito de água, cuja conclusão dos estudos está prevista para 2026.

A estratégia também contempla a criação de um hub de inteligência artificial para apoiar análises preditivas, identificação de padrões operacionais e tomada de decisão em tempo real. Paralelamente, a companhia avança na automação dos processos industriais, integração remota das operações e modernização dos sistemas de moagem, reforçando o conceito de mina altamente digital.

Outra frente priorizada envolve a eficiência energética, com automação do consumo, otimização dos equipamentos e redução de desperdícios, fortalecendo a competitividade da operação em um ambiente de elevada restrição hídrica.

O compromisso ambiental também ultrapassa os limites da planta industrial. Na Fazenda Jesus Maria, área de 513 ha mantida pela companhia, está em andamento um amplo programa de recuperação da Caatinga. A meta para 2026 é plantar mais de 105 mil mudas de espécies nativas, contribuindo para combater a desertificação, proteger o solo, conservar nascentes e fortalecer o equilíbrio hídrico regional.

Para Silva, a experiência desenvolvida em Borborema demonstra que a mineração pode atuar como agente de inovação ambiental ao integrar engenharia, saneamento, digitalização e sustentabilidade em um único modelo operacional. “Ao transformar efluentes sanitários em insumo produtivo e operar sem captar água de mananciais naturais para o beneficiamento mineral, estabelecemos um novo paradigma para empreendimentos minerários instalados em regiões de elevada vulnerabilidade hídrica, conciliando eficiência operacional, segurança ambiental e benefícios permanentes para o território onde atuamos”, conclui o diretor.

Foto em destaque: Espessador industrial separa sólidos de líquidos na ETE
Fotos: Aura/Divulgação

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