MINERAIS CRÍTICOS: O VALOR QUE JÁ É GERADO NO BRASIL

MINERAIS CRÍTICOS: O VALOR QUE JÁ É GERADO NO BRASIL

Em painéis da Exposibram 2026, em Belo Horizonte, executivos da Brazilian Nickel sustentaram que a discussão sobre agregação de valor tende a subestimar o que já é feito no país, e que aproveitar o momento geopolítico dos minerais críticos depende de políticas públicas capazes de criar um ambiente favorável ao investimento

A disputa global por minerais críticos entrou com força na agenda brasileira nos últimos anos e, com ela, voltou a circular uma ideia: a de que o país embarca material bruto e deixa o valor agregado do outro lado da fronteira. A formulação funciona como alerta, mas descreve de maneira incompleta o que acontece em boa parte da cadeia. Entre a lavra e o navio existem etapas de transformação que raramente aparecem na conversa.

A distância percorrida entre o material que sai da mina e o produto final da mineração varia de acordo com o minério, mas é, via de regra, extensa. O níquel laterítico que é processado no Piauí pela Brazilian Nickel, por exemplo, sai do solo com concentração natural em torno de 1% do metal. O MHP (Precipitado de Hidróxido Misto) obtido a partir dele chega a cerca de 48% de níquel e 2% de cobalto — um produto de grau bateria, com especificação industrial, destinado a refinarias dos Estados Unidos e da Europa. A empresa já produziu e comercializou MHP a partir da planta-piloto do Projeto Piauí Níquel, etapa que validou o processo antes da escala comercial. Entre o minério com 1% de níquel e o produto final com 48% não há simples embarque a granel: há transformação química e tecnologia.

A discussão ganhou espaço por uma razão de conjuntura. A eletrificação da base energética e a reorganização das cadeias globais de suprimento transformaram os minerais críticos em tema de segurança econômica. Nesse cenário, os países capazes de combinar reservas, tecnologia e capital ganharam relevância estratégica. As decisões de investimento que definirão o mapa da próxima década estão sendo tomadas agora. E é isso que torna a discussão brasileira urgente.

Foi esse o pano de fundo das duas participações da Brazilian Nickel na Exposibram 2026, realizada em Belo Horizonte (MG) entre 24 e 27 de agosto, representada pelo CFO André Simão e pela diretora de Assuntos Corporativos, Luciana Gutmann.

Onde termina a mineração

No painel promovido pela KPMG em parceria com a Brazil Canada Chamber of Commerce (BCCC), dedicado aos diferenciais competitivos do país em minerais críticos e aos caminhos para financiar projetos do setor, Simão partiu do reconhecimento dessa agenda para tratar da sua viabilidade. Avançar na cadeia não é uma chave que se liga: cada elo adicional, do beneficiamento ao produto final, é um projeto próprio, com capital, prazo e risco próprios. E projetos dessa natureza são avaliados em um mercado global de investimento, no qual o Brasil disputa recursos com outras jurisdições produtoras.

“Concordo com o diagnóstico: o Brasil pode e deve avançar na cadeia. Mas quem viabiliza esse avanço, na prática, é o capital — e o capital compara jurisdições. O investidor olha prazo de licenciamento, carga tributária, custo de energia e disponibilidade de crédito de longo prazo antes de decidir onde a planta será construída. Construir essa base é o que torna o potencial geológico brasileiro financiável”, afirmou André Simão.

Uma tecnologia consolidada, inédita para o níquel

No Workshop Minerais Críticos e Estratégicos na Prática, promovido pelo IBRAM para jornalistas, Luciana Gutmann levou o argumento para o terreno da tecnologia. A lixiviação em pilha é uma rota madura, empregada há décadas para outros metais. Para o níquel, será aplicada pela primeira vez em escala comercial, a partir de desenvolvimento e testes realizados em território brasileiro. O ganho não é apenas industrial: frente às rotas convencionais de processamento de laterita, a tecnologia reduz de forma expressiva a pegada de carbono.

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Luciana Gutmann, Diretora de Assuntos Corporativos da Brazilian Nickel. Foto: Janaina Massote

“A lixiviação em pilha não é uma tecnologia nova: ela é usada há décadas para outros metais. O nosso diferencial é aplicá-la ao níquel em escala comercial por meio de uma rota de processamento desenvolvida e testada no Brasil. Além de viabilizar o aproveitamento de jazidas que antes enfrentavam limitações técnicas ou econômica, essa rota reduz significativamente a pegada de carbono em relação às alternativas convencionais. É um caso em que o país não está apenas fornecendo o recurso, mas também a solução técnica para o transformar”, explicou Luciana Gutmann.

Quem entrega cada elo

O ponto que atravessou as duas discussões não é que o Brasil tenha resolvido a questão. É que a pergunta relevante não é se a mineração deve entregar toda a cadeia, mas quem tem condições de desenvolver cada elo seguinte, com que instrumento e em que prazo.

Nenhum dos atores fecha essa conta sozinho. A mineração aporta capital de risco, capacidade de operação e a engenharia de processo para transformar o minério em um produto industrial. Projetos de longa maturação, com retorno em uma década ou mais, exigem financiamento compatível com esse horizonte — algo que o crédito comercial, sozinho, dificilmente oferece e que amplia o papel dos bancos de desenvolvimento e do mercado de capitais. A pesquisa aplicada, em universidades e institutos de ciência e tecnologia e nas próprias mineradoras, é o que reduz o risco técnico antes que ele se converta em risco financeiro. E a decisão sobre onde se instala uma refinaria ou uma planta de precursores responde a custo de energia, carga tributária e previsibilidade regulatória, variáveis que passam necessariamente pela política pública.

A lixiviação em pilha aplicada ao níquel indica o que essa combinação é capaz de produzir: uma rota desenvolvida e testada no país, que chegará à escala comercial como tecnologia nacional. Seguir esse caminho depende menos de convencimento sobre a vocação brasileira e mais de coordenação entre quem financia, quem pesquisa e quem opera. Enquanto a conversa permanecer ancorada na imagem do “minério bruto”, corre o risco de descrever um país que já mudou — e as decisões que importam já estão em curso.

Imagem em destaque: André Simão, CFO da Brazilian Nickel. Foto: Janaina Massote

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