Jericoacoara, destino de destaque mundial, abriga um patrimônio geológico singular protegido sob o status de Parque Nacional. Situado no litoral oeste do Ceará, nos municípios de Cruz, Jijoca de Jericoacoara e Camocim, o território foi criado em 2002 por meio da recategorização da antiga Área de Proteção Ambiental (APA), instituída em 1984 como barreira estratégica contra a especulação imobiliária decorrente do turismo.
A identidade do lugar conecta fauna e história. No século XVII, o topônimo Jericoacoara derivou do Tupi “yurucuá” (tartaruga) e “quara” (toca/refúgio), traduzido como “A Toca da Tartaruga”. Outra versão popular, guardada por pescadores, indica que a silhueta do Morro do Serrote, vista do mar, assemelha-se a um “jacaré quarando ao sol”.

O parque se destaca como um impressionante laboratório geotectônico, tendo como protagonista o Morro do Serrote (Foto 1). Com 98 m de altitude, esse maciço é o ponto mais elevado do litoral norte brasileiro desde a Guiana Francesa. Sua proeminência topográfica ocorre pela alta competência de suas rochas frente ao intemperismo, pertencentes à Formação São Joaquim.
A evolução litoestratigráfica iniciou-se há 850 milhões de anos em um ambiente de bacia marinha receptora de aportes flúvio-deltaicos. A subsidência e o soterramento desses sedimentos geraram espessas sequências de arenito (rocha sedimentar). Entre 850 e 650 milhões de anos atrás, durante a orogênese que consolidou o supercontinente Gondwana, a colisão de massas continentais gerou tensões compressivas e altas temperaturas na crosta. Esse dinamismo promoveu o metamorfismo regional, recristalizando os grãos de quartzo e convertendo o arenito em quartzito, uma rocha metamórfica de extrema tenacidade.

A magnitude desses esforços tectônicos está registrada nos quartzitos dobrados e retorcidos (Foto 2) do Serrote. As camadas originalmente horizontais foram submetidas a intensas deformações plásticas, assemelhando-se a folhas de papel amassadas, exibindo dobras complexas e foliações nítidas. Posteriormente, o rifteamento que separou as placas Sul-Americana e Africana causou um alívio de pressão hidrostática, gerando uma densa rede de falhas e fraturas tensionais com direção preferencial nordeste-sudoeste. Fluidos hidrotermais profundos, ricos em ferro, ascenderam por essas descontinuidades estruturais, cimentando brechas de falha e cataclasitos que hoje recortam o costão rochoso.

A esculturação da paisagem atual ocorreu no Quaternário, há 120 mil anos, quando o nível do mar esteve seis metros acima do atual. O hidrodinamismo marinho aproveitou as fraturas e os planos de clivagem dos quartzitos dobrados para erodir o sopé do morro, gerando feições de abrasão costeira. Esse desgaste cavou as grutas e tocas rasas desprovidas de ornamentos clássicos — como a Caverna Duas Bocas (Foto 3) —, avançando para arcos marinhos como a Pedra Furada (Foto 4) e pilares residuais como a Pedra do Frade (Foto 5).


Finalmente, o vento atua como o principal agente contemporâneo de transporte e sedimentação, movendo as dunas (Foto 6) que caracterizam a região. Alimentadas pelas areias quartzosas retrabalhadas pelo mar e conduzidas pelos ventos alísios constantes, essas dunas avançam sobre a topografia do parque, gerando um contraste marcante em relação ao relevo abrupto dos quartzitos e consolidando o dinâmico cenário geológico de Jericoacoara.

