A eletrificação de equipamentos móveis vem se consolidando como uma das principais estratégias para reduzir emissões de carbono, aumentar a eficiência energética e melhorar as condições operacionais na mineração subterrânea. Na AngloGold Ashanti Brasil, essa transformação já está em curso na Mina Cuiabá (MG), onde a empresa desenvolve um programa estruturado para substituir gradualmente equipamentos movidos a diesel por veículos elétricos a bateria (Battery Electric Vehicles – BEV), alinhando produtividade, segurança operacional e metas globais de descarbonização.
Segundo Matheus Chaves Faria Carvalho, especialista sênior em Energia e Descarbonização da mineradora, essa jornada foi iniciada em 2024 com a incorporação da carregadeira elétrica Epiroc Scooptram ST14 SG, utilizada em fase de testes até julho de 2025. Em 2026, o programa avançou com a entrada em operação da primeira autobetoneira 100% elétrica do Brasil, a Normet Utimec MF 500 Transmixer SD, ampliando a eletrificação das atividades subterrâneas.
A iniciativa integra um plano corporativo de longo prazo para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e acelerar a transição para uma mineração de baixo carbono. A expectativa da empresa é que somente a eletrificação da frota subterrânea da Mina Cuiabá represente uma redução de aproximadamente 13% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) da unidade até 2030.

Payback
Embora os equipamentos elétricos ainda apresentem custo de aquisição superior aos dos modelos convencionais, a análise econômica da AngloGold Ashanti demonstra que a viabilidade do investimento está associada principalmente aos ganhos sistêmicos proporcionados pela operação subterrânea. Para Carvalho, a economia de combustível, isoladamente, não justifica o investimento. O principal retorno financeiro decorre da redução da demanda energética dos sistemas de ventilação e refrigeração das galerias. Como os equipamentos elétricos não produzem gases de combustão e dissipam significativamente menos calor, diminui a necessidade de renovação de ar e climatização, reduzindo um dos maiores componentes do consumo energético em minas subterrâneas.
A estratégia da empresa prioriza exclusivamente equipamentos originalmente desenvolvidos como veículos elétricos a bateria, descartando adaptações de modelos a diesel. A autonomia operacional varia conforme a aplicação e o ciclo de trabalho. Nos testes realizados com a carregadeira elétrica, o equipamento operou entre quatro e cinco horas contínuas, utilizando carregamento rápido ou substituição do conjunto de baterias para minimizar paradas. Já a autobetoneira utiliza recarga estática, tecnologia que também será adotada em novos equipamentos previstos para avaliação.
Segundo o especialista, a experiência operacional demonstra que a produtividade da frota elétrica pode atingir níveis equivalentes aos dos equipamentos convencionais, desde que o planejamento operacional seja compatível com os ciclos de carregamento.
Ganhos
A eletrificação integra uma estratégia mais ampla de descarbonização. No caso das operações brasileiras da AngloGold Ashanti, já foi registrada uma redução de 63% das emissões totais de GEE em relação ao ano de 2021. Com os projetos de expansão previstos para os próximos anos, a expectativa é encerrar a década elevando o patamar dessa redução a aproximadamente 45%, desempenho superior à meta intermediária global da companhia, que prevê redução de 30% das emissões até 2030.
Os ganhos operacionais também são expressivos. Os motores elétricos fornecem torque máximo desde o início da operação, favorecendo deslocamentos, rampas e tempos de ciclo. Além disso, a empresa registrou redução aproximada de 3°C na temperatura das frentes de lavra em comparação aos equipamentos movidos a diesel. “A eliminação dos gases de combustão e de materiais particulados e a significativa redução dos níveis de ruído modificam substancialmente o microclima subterrâneo da mina, proporcionando melhores condições de trabalho, maior conforto aos operadores e ganhos em segurança e produtividade”, avalia Carvalho.
Outro marco da estratégia energética foi alcançado em 2022, quando todas as operações brasileiras passaram a consumir exclusivamente energia elétrica proveniente de fontes renováveis certificadas, praticamente eliminando as emissões indiretas relacionadas ao consumo de eletricidade (Escopo 2). Nesse contexto, a substituição do diesel na frota subterrânea tornou-se uma das principais frentes para redução das emissões diretas (Escopo 1).

Parceria
A adoção da eletromobilidade exige uma transformação que vai além da substituição dos equipamentos. A adequação da infraestrutura elétrica subterrânea, a implantação de estações de recarga, a modernização das oficinas e a capacitação das equipes figuram entre os principais desafios para a consolidação dessa tecnologia.
Os impactos também alcançam a cadeia de suprimentos. Dependendo do fabricante, praticamente todo o estoque de componentes pode ser alterado. Em contrapartida, diz Carvalho, alguns fornecedores já disponibilizam equipamentos elétricos que compartilham grande parte dos componentes mecânicos com as versões convencionais, reduzindo a complexidade logística e facilitando a manutenção.
Durante a fase de consolidação tecnológica, a AngloGold Ashanti mantém suporte permanente dos fabricantes em suas operações. Essa parceria acelera diagnósticos, amplia a confiabilidade dos sistemas elétricos e contribui para elevar a disponibilidade física dos equipamentos, uma vez que os veículos elétricos apresentam menor complexidade mecânica em relação aos modelos movidos a diesel.
Na opinião de Carvalho, a eletrificação representa uma tendência irreversível para a mineração subterrânea. Entretanto, a velocidade dessa transição dependerá das características de cada operação, da evolução tecnológica dos equipamentos de grande porte e da redução dos custos de implantação da infraestrutura. “O avanço das políticas de precificação de carbono e o fortalecimento das exigências regulatórias deverão atuar como importantes catalisadores desse processo, acelerando a adoção da eletromobilidade na mineração brasileira”, conclui o executivo.
