Desenvolvido pela Lithium Ionic, o Projeto Bandeira está localizado entre os municípios de Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, dentro do Distrito Pegmatítico de Araçuaí, hoje uma das principais regiões produtoras de lítio do Brasil. Segundo Renato Costa, diretor de Engenharia da empresa, o projeto está em estágio avançado de desenvolvimento: “Já concluímos o estudo de viabilidade e agora estamos na fase de detalhamento de engenharia, otimização de processo e preparação para a implantação”, explica o executivo.

O principal produto será o concentrado de espodumênio com teor de 5,2% de óxido de lítio (Li2O), em conformidade com as especificações técnicas exigidas pelo mercado global de conversores químicos voltados à cadeia de baterias. A estratégia da Lithium Ionic, diz Costa, é desenvolver um projeto robusto, capaz de operar de forma consistente mesmo em cenários de maior volatilidade de preços. A mineradora afirma que buscará manter padrões elevados de sustentabilidade, com atenção especial à geração de oportunidades para as comunidades locais, à valorização das pessoas e à redução dos impactos ambientais ao longo de toda a vida útil do projeto.
Embora hoje o foco do projeto seja a produção de concentrado de espodumênio, Costa avalia que existe a possibilidade de avançar, no futuro, para etapas adicionais de processamento, com a implantação de uma planta química para produzir hidróxido e carbonato de lítio, produtos de maior valor agregado. “Esse tipo de iniciativa, no entanto, envolve desafios tecnológicos e investimentos significativamente maiores e, para se tornar viável, precisa ser apoiada por instrumentos de financiamento e incentivos que contribuam para o processo de verticalização”, considera o diretor.
No geral, continua Costa, essa estratégia de negócio faz sentido do ponto de vista de mercado, principalmente considerando o crescimento da demanda global por lítio, em especial pela cadeia de mobilidade elétrica que, no Brasil, já levou à instalação recente de três fábricas de veículos elétricos – BYD, GWM e Caoa -, além de novos investimentos anunciados.

“É um cenário de projeção otimista para o avanço na cadeia de valor do lítio no futuro. Além disso, o crescimento a taxas de dois dígitos desde 2018, com expectativa de continuidade pelos próximos 10 a 15 anos, sustenta uma demanda bastante robusta por concentrado de espodumênio”, justifica o diretor. Segundo ele, o produto com teor de cerca de 6% Li2O, referência CIF China, similar ao que será ofertado pela Lithium Ionic, está sendo negociado em torno de US$ 2.230/t. O interesse internacional por sua aquisição é comprovado pelos contratos estratégicos de offtake já firmados pela empresa com o Sichuan Yahua Industrial Group e a Grand Chen Resources, duas gigantes da cadeia global de baterias, que absorverão toda a produção dos primeiros cinco anos de operação da mineradora.
A Lithium Ionic possui, ainda, o depósito Outro Lado, também em Araçuaí e Itinga, localizado a 5 km de distância do Projeto Bandeira, e o Projeto Baixa Grande, em Salinas, ambos em fase de prospecção e sondagem.
Escopo
Bandeira consistirá em uma mina subterrânea, com produção ROM de 1,3 Mtpa em base seca, a partir de uma cava inicial no primeiro ano da operação, alimentando uma planta de britagem e separação por meio denso (DMS), gerando 177 kt/ano, em média, de concentrado de espodumênio. Em fase de aprovação da LAC, licença prévia (LP) concomitante às de instalação (LI) e operação (LO) pelo órgão ambiental de Minas Gerais, a implantação deve ser iniciada em 2026 e concluída até 2028. O produto será exportado pelo porto de Ilhéus, no sul da Bahia.
Os trabalhos de exploração mineral da área foram iniciados pela MGLIT Empreendimentos, uma subsidiária integral da Lithium Ionic, em 2022, autorizados por sete alvarás de mineração obtidos junto à Agência Nacional de Mineração (ANM), em novembro de 2021, totalizando cerca de 1.300 hectares na região de Araçuaí e Itinga. No final de 2023 foi concluída uma avaliação econômica preliminar (PEA), com base em uma Declaração de Recursos Minerais elaborada pela SGS. Essa primeira estimativa foi atualizada em março de 2025 indicando Recursos Medidos e Indicados de 27,27 Mt com teor de 1,34% de Li₂O, ou 901 kt equivalentes de carbonato de lítio (LCE), além de recursos Inferidos de 18,55 Mt com teor de 1,34% de Li₂O, ou 615,4 kt de LCE.

A seleção do método de lavra levou em consideração fatores econômicos e geológicos, como venda, preço, custos, inclinação e orientação dos veios do minério, entre outras características. O acesso à mina subterrânea será feito por meio de duas rampas principais na base do corpo de minério, sendo que uma delas se dividirá em duas, alcançando as porções de lavra subterrânea em locais diferentes. Na fase inicial do projeto, durante cerca de 13 meses, será executada uma operação de lavra a céu aberto com o objetivo de complementar o fornecimento de minério ao beneficiamento, até que a mina subterrânea atinja sua capacidade máxima de produção.
O processo de otimização deve resultar em uma massa de minério bruto diluído de 1,10 Mt com 1,121% de Li₂O para a porção extraída pelo método de mineração a céu aberto; uma massa de 18,30 Mt com 1,13% de Li₂O para a porção extraída pelo método sublevel (com furos longos e de cima para baixo); e uma massa de 3,80 Mt com 0,96% de Li₂O para o minério proveniente das obras de desenvolvimento. A mina subterrânea contará com sistema de ventilação mecânica composto por ventiladores e exaustores. O fornecimento de ar limpo será obtido através das rampas, duas entradas de ar e quatro saídas de ar.
Beneficiamento
A planta de britagem será composta por um britador de mandíbulas primário, um britador cônico secundário e um britador terciário, gerando um material com granulometria inferior a 16 mm, que alimentará uma peneira de preparação para remoção de partículas com granulometria inferior a 0,6 mm. A fração entre -16 mm e 0,6 mm será concentrada em uma planta modular de separação por meio denso (DMS) de quatro estágios. A recuperação calculada de óxido de lítio é de 65,3%.
Cada circuito modular de DMS consistirá em telas de proteção, ciclones de meio denso, bobinas de desmagnetização, sistema de recuperação de ferrossilício e bombas. O material fino (−0,60 mm) será desidratado no espessador, cujos efluentes serão desaguados por um filtro de correia. Os finos filtrados serão tratados como rejeitos, mas armazenados para aplicações de concentração futuras, visto conterem pouco menos de 1% de Li2O. A disponibilidade para britagem será de 65%, enquanto a destinada aos circuitos DMS será de 85%. Os rejeitos do processo DMS e finos filtrados serão armazenados em uma pilha seca.
Serão implantadas duas estruturas de disposição de rejeitos e estéril. A primeira, denominada Depósito Norte, estará localizada ao norte da futura rampa de acesso à mina subterrânea, enquanto a segunda, denominada Depósito Sul, estará localizada ao sul das demais instalações do projeto. Elas serão projetadas para atender a toda a vida útil da mina, possuindo uma capacidade total de armazenamento de 19,4 Mm³. Cada estrutura consiste em um aterro de estéril que funciona simultaneamente como elemento de drenagem e contenção, de forma a assegurar sua estabilidade geotécnica e desempenho a longo prazo.
