POR QUE NÃO ACELERAR UM PROJETO DESDE O DIA 0+1?

POR QUE NÃO ACELERAR UM PROJETO DESDE O DIA 0+1?

Glaucia

Figura 1 (acima): Pesquisa mineral (pioneira e avançada – fase inicial do ciclo de vida do projeto de mineração
Fonte: Cuchierato, Pisani, Noppé (2025)
Download disponível em  https://www.geoansata.com.br/infoprodutos

Depois de compreender os conceitos por trás do TIME-TO-MINE (“Time Intelligence for Mining Excellence”), explicados na edição 117, entender por que é crucial acelerar os projetos minerais para atender à crescente e urgente demanda da transição energética (ITM 118), perceber por que o desenvolvimento de novos projetos minerais se tornou mais lento e identificar onde, de fato, o tempo se perde ao longo do ciclo de vida (ITM 119), surge uma nova pergunta:

Por que não acelerar um projeto desde o dia 0+1?

A pesquisa mineral ocupa uma posição estrutural no desenvolvimento de projetos, embora ainda seja frequentemente tratada como uma fase exploratória de incerteza inevitável. Na prática, é nesse estágio que se estabelece a qualidade da informação que sustentará todas as decisões subsequentes e, consequentemente, a velocidade real de avanço do projeto. Projetos não são acelerados no momento da decisão, mas sim na forma como a informação é construída, validada e integrada desde o início.

No estágio de pesquisa mineral, o tempo de desenvolvimento não é determinado apenas pela duração das atividades técnicas, mas também pela forma como essas atividades são estruturadas, integradas e validadas ao longo do projeto. Embora a linha do tempo típica indique um intervalo de três a seis anos, a variabilidade real desse período é significativamente influenciada por fatores internos ao processo, e não apenas pela complexidade geológica ou por condicionantes externos.

O primeiro vetor crítico de atraso está na geração e na consolidação dos dados de exploração. Campanhas são frequentemente conduzidas de forma incremental, com diferentes objetivos, equipes e critérios ao longo do tempo. Isso resulta em conjuntos de dados heterogêneos, com níveis distintos de qualidade e compatibilidade, o que exige retrabalho na integração posterior. Nesse contexto, o tempo não se perde na coleta em si, mas na necessidade de reinterpretar, padronizar e, muitas vezes, repetir etapas para garantir a consistência mínima, evidenciando lacunas em programas estruturados de garantia e controle de qualidade (QAQC) aplicados à amostragem, à preparação e à análise química.

O segundo ponto estrutural está na evolução do conhecimento geológico sem validação proporcional. A progressão de resultados de exploração para recursos inferidos, indicados e medidos sugere um aumento contínuo de confiança. No entanto, essa evolução nem sempre é acompanhada por processos formais de validação das premissas. Modelos conceituais são refinados ao longo do tempo, mas frequentemente incorporam hipóteses não testadas que, mais adiante, exigem campanhas adicionais de confirmação. As premissas iniciais acabam por ser incorporadas como base para decisões futuras, mesmo quando ainda carregam incertezas relevantes. O atraso, nesse caso, não decorre da falta de informação, mas da necessidade de revalidar informações já utilizadas, o que gera ciclos viciosos que comprometem a previsibilidade do projeto.

Um terceiro fator relevante é a desconexão entre as atividades técnicas e os requisitos futuros do projeto. Durante a pesquisa mineral, decisões são tomadas com foco predominantemente geológico, enquanto os aspectos geometalúrgicos, ambientais, sociais e regulatórios evoluem de forma paralela ou tardia. Isso gera desalinhamentos que se manifestam na transição para a definição de recursos e de estudos conceituais, exigindo ajustes que poderiam ter sido antecipados. A consequência direta é a extensão do ciclo por meio de campanhas adicionais e revisões de escopo, o que aumenta simultaneamente o custo, o risco e a complexidade operacional.

Adicionalmente, a ausência de rastreabilidade nas decisões técnicas compromete a continuidade do projeto. À medida que diferentes equipes participam ao longo do tempo — especialmente em contextos de empresas juniores — torna-se difícil reconstruir o raciocínio por trás de decisões anteriores, incluindo critérios de amostragem, parâmetros de modelagem e interpretações geológicas. Essa perda de contexto gera ineficiência, pois obriga a revisões completas, em vez da evolução incremental do conhecimento, reduzindo a confiabilidade e a transparência do processo decisório.

Esse conjunto de fatores evidencia uma distinção fundamental entre dois conceitos frequentemente tratados como equivalentes: acelerar e reduzir tempo. Reduzir tempo, no sentido operacional, implica executar atividades mais rapidamente ou suprimir etapas, o que tende a aumentar o risco técnico e comprometer a qualidade das decisões. Acelerar, por outro lado, significa aumentar a eficiência do processo decisório, reduzindo incertezas de forma antecipada e evitando retrabalho, de forma responsável e sustentável. Em termos práticos, projetos acelerados não são aqueles que fazem menos, e sim aqueles que precisam refazer menos.

Nesse estágio do ciclo de vida, a aceleração efetiva depende da capacidade de estruturar os dados desde a origem, garantir sua consistência ao longo das campanhas, integrar diferentes disciplinas desde as fases iniciais e estabelecer mecanismos claros de validação e rastreabilidade. Ao fazer isso, o projeto reduz a necessidade de ciclos iterativos de confirmação e reinterpretação, encurtando o caminho até a definição de recursos com maior confiabilidade e melhorando a qualidade das decisões ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento.

Portanto, o principal gargalo da pesquisa mineral não está na duração das atividades técnicas, mas na forma como a informação é construída e utilizada ao longo do processo. A diferença entre projetos que avançam de forma previsível e aqueles que entram em ciclos recorrentes de atraso está menos relacionada à geologia do depósito e mais à qualidade estrutural do processo que sustenta a evolução do conhecimento.

Se o atraso dos projetos decorre da incerteza acumulada, a aceleração não pode ser tratada como compressão de etapas, mas sim como redução sistemática dessas incertezas desde o início. Nesse sentido, a governança técnica — especialmente aplicada aos dados — deixa de ser um elemento de suporte e passa a atuar como um mecanismo estruturante de desempenho.

Nesse contexto, a redução efetiva do tempo de desenvolvimento depende também da incorporação antecipada de variáveis críticas que tradicionalmente entram tardiamente no processo, como o engajamento estruturado com comunidades e povos originários, a consideração integrada de aspectos ambientais desde a definição dos alvos exploratórios e o uso intensivo de dados e tecnologias para prever riscos e reduzir incertezas ao longo do ciclo. A aceleração, portanto, não decorre da simplificação do processo, mas da sua qualificação técnica, social e ambiental desde o princípio.

A aceleração responsável, portanto, não ocorre quando se tenta ganhar tempo no final do processo, mas sim quando se evita perder tempo ao longo dele. Se os atrasos nascem da incerteza, a velocidade nasce da qualidade da informação. A questão que se impõe não é apenas como acelerar projetos, mas também como estruturar a base de dados que sustenta suas decisões. É essa mudança de perspectiva que permite transformar dados técnicos em ativos confiáveis, reduzir riscos, aumentar previsibilidade e encurtar, de forma consistente, o caminho entre descoberta e produção. Porque, em projetos minerais, a velocidade não é definida à medida que o projeto avança. Ela é definida quando as primeiras decisões são tomadas.

É na passagem da pesquisa mineral para os estágios de pré-viabilidade, de viabilidade e de definição de reservas que a qualidade da informação deixa de ser uma premissa e passa a determinar, de forma definitiva, o destino do projeto. Nos vemos na próxima edição da revista.

 1 Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia

REFERÊNCIAS

Noppé, M., Savinova, K. and Evans, T., (2025). Responsible acceleration: Preliminary perspectives on the challenges and opportunities for improving mine project development time frames. CRIRSCO Colloquium, Perth, 5 September 2025.

WHINCUP, T.; KROON, J. Mission Critical: Building resilient mines for a modern society. Londres: ERM, 2025. Disponível em: https://www.erm.com/insights/mission-critical-resilient-mines-for-a-modern-society/ Acesso em: 7 out. 2025.

 

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