Considerado um dos mais importantes sítios espeleológicos e geomorfológicos do Brasil, o conjunto de cavernas do vale do rio Peruaçu, nas cidades de Januária e Itacarambi (MG), foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) em março de 1988, como Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Em 13 de julho de 2025 foi oficializado como Patrimônio Mundial pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O nome Peruaçu, dado pela tribo indígena Xacriabá, que vive na área, significa fenda ou buraco (Peru) muito grande (Açu).
O parque está inserido no Planalto Cárstico do São Francisco, a altitudes entre 500 e 700 m, e apresenta afloramentos de rocha calcária, que ficam expostos entre a vegetação formada por ecossistemas da Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga (Foto 1, acima). Nesse ambiente de grande geodiversidade, a dissolução da rocha carbonática (dolomitos e calcários) e os processos de abatimento criaram vales cegos, escarpamentos na forma de cânions, torres calcárias, depressões fechadas (dolinas e uvalas) e diversas microformas (karren) esculpidas sobre a rocha solúvel. Inúmeros abrigos e entradas das cavernas apresentam registros de ocupação humana datados em até 12 mil anos B.P.*, inicialmente por grupos caçadores-coletores e mais recentemente por agricultores.

Entre as cavernas percorridas pelo rio Peruaçu tem-se as grutas do Brejal, Cascudos, Troncos e Janelão. O Arco do André (Foto 2) também integra essa rota, mas com o rio tornando-se subterrâneo em função do soterramento do piso pelos abatimentos. Predominam, nesse conjunto, amplas galerias, como as da gruta do Janelão, com 4.740 m de projeção horizontal e alturas e larguras que podem atingir mais de 100 m.

Já as cavernas secas desconectadas do aquífero cárstico estão posicionadas, principalmente, nos paredões recuados do cânion principal ou em vales secundários, acima do nível de base atual do rio Peruaçu, e resultaram de fragmentos abandonados de galerias tributárias da rota de drenagem subterrânea preferencial. São elas: Desenhos, Rezar (Foto 3), Caboclo, Bonita, e Índios, entre outras. Há também as que estão nos paredões laterais do cânion, como as lapas do Carlúcio, Bichos, Fóssil etc.

Destacam-se, ainda, as gigantescas estalactites e estalagmites do Janelão, além das “pérolas de caverna”. Ao fundo dessa gruta, na dolina dos Macacos, encontra-se a “Perna da Bailarina”, maior estalactite do mundo, com cerca de 28 m de comprimento (Foto 4).

Na gruta Bonita ocorrem helictites, “cascatas” e “canudos de refresco” e represas de travertinos e colunas podem ser vistas nas grutas do Carlúcio, Índios e Desenhos. O acúmulo de detritos também formou outros espeleotemas gigantes (Foto 5), suportados por uma matriz argilosa local cimentada por calcita. Registra-se, ainda, nos paredões calcários, grande número de inscrições rupestres em excelente estado de preservação (Foto 6).

*Before Present (Antes do Presente) ou antes de 1950 d.C.
Fotos: Lucas Ninno/Instituto Ekos – Foto 4: Ataliba Coelho/IGC-USP
Fonte do texto: Artigo “Cavernas do Vale do Rio Peruaçu (Januária e Itacarambi), MG – Obra-prima de carste brasileiro”, de autoria de Luís B.Piló e Ezio Rubbioli, que integra a coletânea “Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil”, organizada pela Comissão de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP) e publicada, em 2002, pelo DNPM, atual ANM (Agência Nacional de Mineração), e CPRM, atual SGB (Serviço Geológico do Brasil), com edição de Carlos Schobbenhaus, Diogenes de Almeida Campos, Emanuel Teixeira de Queiroz, Manfredo Winge e Mylène Luíza Cunha Berbert-Born
