GDQM: VALIDAÇÃO DO ACERVO DE DADOS HISTÓRICOS

GDQM: VALIDAÇÃO DO ACERVO DE DADOS HISTÓRICOS

Glaucia

(Série de artigos técnicos sobre a importância da qualidade da informação utilizada na declaração de recursos e reservas minerais, iniciada na edição ITM 103, sobre os componentes do GeoData Quality Management, metodologia de avaliação da qualidade de dados geológicos)

A primeira parte aplicável da metodologia GDQM (GeoData Quality Management) definida por Cuchierato (2022), concentra-se na validação do acervo de dados históricos da empresa de mineração, de forma a demonstrar credibilidade conforme as recomendações das práticas internacionais padronizadas para declaração de recursos e reservas minerais.

Conforme imagem acima, essa etapa de validação subdivide-se em:

  1. Verificação da fonte dos dados

Em geral, novos projetos de exploração mineral apresentam a vantagem de terem a documentação das fontes dos dados preservadas desde o princípio, o que pode não ter ocorrido com projetos e minas existentes há mais tempo, que também podem ter tido, ao longo dos anos e por diversas vezes, alternância de proprietários e titulares dos direitos minerários.

Dessa forma, é importante avaliar e descrever como os dados foram organizados desde o início dos trabalhos na área, com busca ativa pelos registros em papel, de mapas, logs e laudos originais. Arquivamentos podem já ter sido realizados pelos profissionais da empresa, quando da implementação de um sistema de banco de dados geocientíficos. Esses e outros esforços anteriores podem ser aproveitados, desde que haja registros desse processo. Importante destacar se foi efetuado algum método de validação da inserção, como dupla digitação dos dados históricos quando existentes apenas em papel.

Diversas empresas passaram por processos de eliminação de papel ao longo das últimas décadas e pode ocorrer de apenas existirem dados em planilhas e outros arquivos digitais. Nesse caso, deve-se verificar metadados e vínculos de criação, se existem os arquivos originais dos equipamentos de levantamento topográfico e dos laboratórios analíticos, dentre outros geradores de dados, antes da alimentação para um sistema integrado, de forma a possibilitar a realização de testes comparativos para garantia da correta importação.

Uma vez identificada a origem dos dados, deve ser entendido o detalhamento das campanhas de sondagem e amostragem realizadas em todas as fases da empresa, com a geração de um inventário das empresas executoras, evolução da resolução e precisão dos equipamentos de medição de desvio da trajetória e de posicionamento topográfico, métodos analíticos e seus

limites de detecção, precisão e exatidão de cada laboratório utilizado, procedimentos operacionais adotados ao longo do tempo, profissionais participantes, papéis e responsabilidades dos profissionais envolvidos e, principalmente, indicação de tudo o que não tenha sido possível identificar.

  1. Avaliação e Gestão da Materialidade

Entendida neste ponto da concepção da metodologia como a prova de vida dos depósitos minerais, a materialidade deve ser gerenciada com alta prioridade pelas companhias de mineração. Esse processo organizacional é de vital importância, pois arquiva os materiais que comprovam a existência dos recursos minerais declarados, que são frequentemente passíveis de auditoria.

Engloba a gestão do espaço nos galpões, depósitos e centros de armazenamento de todos os materiais físicos:

  • caixas de testemunho de sondagem diamantada;
  • rejeitos (material remanescente que retorna dos laboratórios de preparação);
  • lotes analisados (em sachês); e
  • ferramentas de controle de qualidade padrões, brancos, checks internos (em sachês).

Dentre as principais tarefas e atividades que ocorrem estão:

  • Gerenciamento da utilização dos materiais auditáveis (em estudos geometalúrgicos e QAQC);
  • Arquivamento e gerenciamento da disponibilidade do espaço, com programas pré-definidos de descarte periódico;
  • Recebimento de materiais analisados, checagem da integridade dos lotes, catalogação; e
  • Gerenciamento dos controles de qualidade (pré-preparação de brancos, estoque dos materiais certificados de referência, reenvio de lotes internos, envio de lotes para laboratórios externos e árbitros).

 Interação de sistema de gerenciamento de dados geocientíficos

O investimento para obtenção dos dados durante as atividades de sondagem e amostragem é uma das porções mais onerosas de um programa de exploração e parte significativa do orçamento da operação. Os dados coletados nessa fase são determinantes cruciais para o sucesso do projeto. Gerenciar tudo isso sem um sistema especialista e dedicado pode ser complexo, demorado e propenso a erros, além de adicionar um grande risco às decisões tomadas com as informações armazenadas.

A metodologia aqui proposta requer que os dados das sondagens e amostragens estejam estruturados em um software comercial de sistema de gerenciamento de dados geológicos ou em um banco de dados estruturado e relacional desenvolvido pela empresa, uma vez que planilhas não são a correta ferramenta para fazer análises avançadas e responsivas, tampouco para armazenar apropriadamente grandes volumes de dados.

O sistema de gerenciamento deve atender às demandas de segurança, confiabilidade e rastreabilidade, conforme as melhores práticas recomendadas, com tabelas identificadas por registros indexados por uma chave primária (ID do furo de sondagem: HOLE_NUMBER) e chaves estrangeiras que definam as demais relações entre tabelas e assegurem a integridade dos dados.

Recomenda-se que o sistema atenda com inteligência, padrão e eficiência a:

  • controle efetivo de permissões de acesso, através de perfis de usuários com restrições por área, atividades, funções e responsabilidades;
  • entrada (input) de dados no banco feito pela interface do programa, com máxima restrição ao uso de digitação por meio de importações eletrônicas dos dados de equipamentos periféricos, sem manipulação de arquivos;
  • integração com equipamentos de coletas de dados (topografia, desvios, susceptibilidade magnética, qualidade da rocha, densidade);
  • ferramentas de validação na entrada de dados, com estabelecimento de regras de validação consistentes, durante a importação e inserção de dados;
  • gestão automática durante a criação do despacho de lotes de amostras para os laboratórios, com inserção sistemática, aleatória ou programada de controles de qualidade;
  • integração com outros sistemas de dados (ex: Laboratory Information Management System – LIMS), com ferramentas de aceitação e rejeição de resultados, vinculada a ações de uma tabela lógica de falhas e arquivamento dos laudos e certificados;
  • categorização do status dos furos, lotes e amostras (aprovado, rejeitado, certificado, autorizado) pelos(as) Profissionais Qualificados(as), com identificação de confiança dos dados (flag);
  • disponibilização (Saída – output) de dados para os usuários de modelagem geológica pela interface ou via linguagem SQL; e
  • parâmetros de segurança documentados e visibilizados, com medidas tomadas para garantir que dados não foram corrompidos ou manipulados ao longo do tempo; rastreabilidade com registro e logs de edição e versões; backup programado de sistemas locais e centrais; e acesso para auditoria.

Na próxima edição serão detalhadas as demais etapas da validação do acervo (Análise exploratória de dados, Aplicação de testes de consistência, Atribuição de confiança e Identificação de áreas críticas).

Referências:

CUCHIERATO, G. (2022), A importância da qualidade da informação no processo de declaração de recursos minerais. 293 f. (Tese de Doutoramento em Engenharia de Minas). Departamento de Engenharia de Minas e do Petróleo da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.

Glaucia Cuchierato é Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia

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