A SEGURANÇA NA MINERAÇÃO É UMA JORNADA DE EVOLUÇÃO CONTÍNUA

A SEGURANÇA NA MINERAÇÃO É UMA JORNADA DE EVOLUÇÃO CONTÍNUA

 Por Flávio Alves*

A segurança sempre ocupou papel central na mineração. Em uma indústria caracterizada por operações complexas, ambientes desafiadores e ativos de grande porte é fundamental, para proteger vidas, preservar ativos e garantir a continuidade operacional. Não é, portanto, apenas obrigação legal ou regulatória.

A mineração vem avançando significativamente na redução de acidentes, na gestão de riscos e na incorporação de tecnologias que aumentam a segurança. O setor evoluiu globalmente para uma abordagem preventiva e, mais recentemente, preditiva, baseada em dados, automação e monitoramento em tempo real.

Ainda há desafios, mas o balanço é positivo. A mineração moderna é consideravelmente mais segura do que há 20 ou 30 anos, resultado de investimentos contínuos em cultura, processos, tecnologia e governança.

 Elemento da excelência operacional

As empresas líderes já não tratam segurança como disciplina isolada, mas integrada à estratégia operacional, à gestão de riscos e às metas de desempenho. Mineradoras globais associadas ao International Council on Mining and Metals (ICMM) reportam melhorias nos indicadores de lesões registráveis nos últimos anos. O próprio ICMM destaca a gestão de controles críticos e o fortalecimento da cultura de segurança como pilares para eliminar fatalidades e eventos catastróficos.

No Brasil, empresas vêm evoluindo seus sistemas de gestão e ampliando investimentos em monitoramento geotécnico, automação, centros de operação remota, manutenção preditiva e prevenção de acidentes. A segurança deixou de ser vista como custo e passou a ser reconhecida como habilitadora da criação de valor sustentável.

Cinco grandes domínios de risco

Uma visão moderna de segurança na mineração deve abordar de forma integrada cinco dimensões críticas. A primeira são as pessoas, pois a maioria dos acidentes tem algum componente humano. As organizações mais maduras investem em desenvolvimento de competências, treinamentos imersivos, simulações, gestão de fadiga, saúde mental e bem-estar, liderança em segurança e fortalecimento da cultura de “Stop Work Authority”, que permite a qualquer colaborador interromper uma atividade considerada insegura. Segurança não depende apenas de procedimentos, mas da construção de uma cultura em que cada pessoa é responsável pela segurança de todos.

A segunda dimensão envolve os processos operacionais. Acidentes graves geralmente resultam de sucessivas falhas de controle. Por isso, ganha força a adoção da gestão de controles críticos (Critical Control Management), análise de barreiras, investigação estruturada de incidentes, gestão integrada de riscos e indicadores preventivos (leading indicators). O foco migra dos indicadores de consequência para os de prevenção, buscando identificar riscos antes que se transformem em acidentes.

O terceiro ponto são sistemas e tecnologia. A transformação digital está criando uma nova fronteira para a segurança operacional. Entre as iniciativas de maior impacto estão caminhões autônomos, perfuratrizes automatizadas, operações remotas, IA (Inteligência Artificial) para identificação de desvios, visão computacional, wearables, gêmeos digitais e manutenção preditiva baseada em IA. Além dos ganhos de produtividade, essas tecnologias reduzem a exposição humana a atividades de alto risco. Por experiência em projetos de mineração, vejo que a combinação de digitalização, confiabilidade de ativos e inteligência operacional permite reduzir intervenções manuais, antecipar falhas e aumentar a segurança. Monitoramento avançado, manutenção baseada em condição e análise preditiva geram benefícios simultâneos em segurança, disponibilidade e performance operacional.

O quarto ponto são os eventos externos. Mudanças climáticas, eventos meteorológicos extremos, instabilidade geotécnica e riscos ambientais ganharam destaque nas estratégias de segurança. Empresas líderes incorporam cenários climáticos à avaliação de risco, ampliando a capacidade de resposta a chuvas intensas, eventos hidrológicos, estabilidade de barragens, movimentos de massa, interrupções logísticas e eventos cibernéticos. A segurança operacional está cada vez mais conectada à resiliência do negócio.

Por fim, legislação, governança e conformidade. No Brasil, normas relacionadas à mineração, barragens, meio ambiente e saúde ocupacional elevaram os requisitos de governança e gestão de riscos. A conformidade tornou-se um mecanismo de proteção do valor corporativo. As organizações mais avançadas combinam compliance, governança e gestão integrada de riscos para garantir decisões mais robustas e operações mais seguras.

O que a mineração pode aprender com outras indústrias?

A mineração ainda pode capturar aprendizados de setores altamente regulados e intensivos em ativos. A aviação comercial construiu uma das culturas de segurança mais maduras do mundo com base em relato transparente de incidentes, aprendizado contínuo, treinamento recorrente e processos padronizados. Já as indústrias química, petroquímica e de óleo e gás desenvolveram disciplinas avançadas de segurança de processo, focadas na prevenção de eventos de grande magnitude.

A tendência é que a mineração incorpore cada vez mais conceitos como process safety, gestão de ativos críticos, operações autônomas, Just Culture, resiliência organizacional e monitoramento contínuo baseado em dados. Estamos entrando em uma nova era. O desafio não é apenas reduzir acidentes, mas criar operações inteligentes, resilientes e capazes de antecipar riscos. IA, analytics avançado, gêmeos digitais, monitoramento remoto e automação estão transformando as decisões de segurança. Ao mesmo tempo, cresce a importância dos aspectos humanos, da liderança e da cultura organizacional.

Organizações capazes de combinar tecnologia de ponta, disciplina operacional e uma forte cultura de cuidado estarão mais preparadas para alcançar aquilo que a indústria busca há décadas: zero fatalidades e operações verdadeiramente seguras.

A mineração percorreu uma trajetória notável na segurança. Os avanços em gestão, tecnologia, governança e cultura demonstram que é possível operar de forma cada vez mais segura, sustentável e eficiente. O caminho, entretanto, não termina aqui. A segurança deve permanecer como prioridade estratégica, integrada às decisões do negócio.

Mais do que evitar acidentes, segurança significa preservar vidas, fortalecer a confiança da sociedade, proteger ativos e garantir a sustentabilidade de longo prazo. As empresas que liderarem essa agenda construirão operações não apenas mais seguras, mas também mais resilientes, produtivas e competitivas.

*Flávio Alves é Líder de Mineração, Metais e Recursos Naturais na Accenture Brasil
Foto do Autor: Accenture Brasil/Divulgação

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