Contam os Macuxi que, antigamente, o local onde hoje existe o Monte Roraima (Foto 1) era um terreno baixo e alagadiço, cheio de igapós e farto em caça e pesca. Um dia, entre as plantas que dominavam a paisagem, teria surgido uma bananeira que encantou os indígenas por seus belos e saborosos frutos. O pajé, no entanto, a declararam sagrada proibindo que se comesse seus frutos, o que, diziam, atrairia terríveis infortúnios para seu povo.

Outra lenda diz, ainda, que o único autorizado a comê-los era Macunaíma (Makunaimî, em língua Macuxi), divindade que teria nascido do encontro entre o sol e a lua e era considerado herói da floresta. Mas, desobedecendo seu líder espiritual, alguém decepou um dos cachos da bananeira. A ousadia humana desencadeou a ira divina fazendo com que a terra se movesse e trovões rugissem no céu, prenunciando um monumental dilúvio. Sob as águas, uma formação rochosa começou a elevar-se do chão, dando origem ao Monte Roraima, desde então considerado sagrado pelos indígenas. Os Macuxis a chamam de “Casa de Macunaíma”, enquanto para os Pemón, povo indígena que habita a região da Gran Sabana, na Venezuela, ela é nada menos que a “Casa dos Deuses”.
O Monte Roraima foi descoberto em 1595 por Sir Walter Raleigh, um explorador britânico que viajava pela Guiana em busca da mítica cidade de El Dorado. No entanto, somente em 1884, o botânico Everard Im Thurn alcançou seu topo pelo lado venezuelano. Foi o relato de Thurn que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever a obra “O Mundo Perdido”. Por sua vez, a lenda Macuxi foi revisitada pelo brasileiro Mário de Andrade no clássico “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”.

O Ponto Triplo (Foto 2), um marco piramidal branco delimita a tríplice fronteira – Guiana (10% de sua área), o Brasil (5%) e a Venezuela (85%) – onde está situado o monte, com altitude de 2.734 m e feição morfológica em forma de mesa, chamada tepuy em Macuxi. Suas escarpas verticais atingem mais de 500 m de altura e são compostas por uma sucessão de arenitos arcoseanos finos a muito finos, quartzo arenitos médios a grossos, arenitos conglomeráticos e conglomerados na Formação Matauí, unidade sedimentar de topo do Supergrupo Roraima. O platô (Foto 3) abriga um ecossistema único com muitas espécies de flora e fauna, incluindo plantas carnívoras, orquídeas e espécies de rãs endêmicas.

Outras atrações do platô são o Lago Gladys (Foto 4) que, segundo os indígenas, abriga um portal para outra dimensão e o “Elefante” (Foto 5), formação rochosa esculpida pela erosão e pelo vento, que se assemelha à silhueta do animal que a nomeia. Destaca-se ainda, no cume, “El Fosso” (Foto 6), espécie de cava que concentra acumula água límpida e própria para banho.



Na porção brasileira, o Monte Roraima integra o Parque Nacional Monte Roraima, criado em 1989, com preservação assegurada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. A região é, em grande parte, recoberta por vegetação de savana estépica, entrecortada por rios e cachoeiras, destacando-se os rios Cotingo, Canã, Uailã e Maú. Parte da bacia do rio Cotingo foi objeto de garimpos de ouro e diamante, atividade extinta a partir da demarcação e homologação da Terra Indígena Raposa – Serra do Sol, pelo governo federal, em 2005.
