Os setores de engenharia e mineração, historicamente ocupados por homens, passam por uma transformação gradual, e o dia 23 de junho, Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, marca um momento de reflexão e celebração. Enquanto o Relatório de Indicadores 2025 do Women in Mining Brasil (WIM Brasil) aponta que a participação feminina na força de trabalho geral da mineração está em 22%, a Ausenco, empresa global de engenharia e consultoria focada em mineração, destaca-se com 32% de seu efetivo composto por mulheres no Brasil.
O avanço também é visível em posições de liderança: 25% dos cargos de gestão da empresa no Brasil são ocupados por profissionais femininas. O posto mais alto da Ausenco no país, a Vice-Presidência, é atualmente exercido por Mara Estanislau, a primeira mulher a assumir a posição, com mais de 35 anos de experiência no setor.
Esses números são fruto de uma estratégia de negócio que integra a diversidade de forma contínua. Entre as prioridades da Ausenco está o apoio às mulheres para criar uma cultura de empoderamento e destaque. Para isso, a empresa revisou políticas e práticas para garantir um ambiente inclusivo, além de identificar e investir em talentos femininos por meio de programas, treinamentos e recursos específicos, e possuir comitês regionais Women@Ausenco, que desenvolvem ações de empoderamento.
Histórias de sucesso e representatividade
Antes mesmo da implementação de medidas formais para garantir a equidade de gênero, a Ausenco já contava com profissionais que construíram trajetórias de destaque no setor. Um exemplo é Maikiela Prado. Gaúcha de Nova Bassano (RS), formada em Engenharia Civil em 2000 pela Universidade de Passo Fundo, ela construiu uma carreira sólida em mineração, infraestrutura e grandes projetos de capital, num setor predominantemente masculino.
Ainda na graduação, Maikiela atuou como copista, desenhista e projetista. Sua carreira ganhou impulso quando se mudou para São Paulo a convite de uma consultoria. Desde então, participou de projetos de relevância com grandes empresas do setor, como Vale, Alcoa, Votorantim Metais e ArcelorMittal.
Os desafios foram constantes, a começar pelas mudanças de endereço. Maikiela viveu em diversas cidades e estados – São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Pará e Bahia, além de uma experiência internacional no México, em 2008, onde a engenheira atuou por quase um ano como planejadora na implantação de uma planta de beneficiamento de minério de ferro. “Foi uma experiência diferenciada por estar em outro país, vivenciar outra cultura e um idioma que eu nunca havia estudado. Aprendi na marra”, recorda.
Em 2020, Maikiela alcançou mais um marco pioneiro: tornou-se a primeira mulher gerente em um grupo de 14 gestores na implantação do projeto Salobo, da Vale, no Pará. Após anos de dedicação a projetos remotos, a engenheira passou a buscar maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Depois de uma rápida passagem pela Suzano, chegou à Ausenco, onde atua há dez meses e lidera a área de Planejamento e Controle de Projetos Base Business, apoiando estudos e projetos de engenharia e contribuindo para o fortalecimento da governança e da previsibilidade dos empreendimentos.
Desafio contínuo e o papel da mulher na mineração
Mesmo com 26 anos de uma jornada exitosa, Maikiela acredita que existem desafios de igualdade de oportunidades e de reconhecimento feminino no setor. Ainda hoje, as mulheres precisam demonstrar sua competência de forma consistente para conquistar espaço. “Mudei-me muitas vezes de cidade e estado. E cada lugar ou projeto novo representava a necessidade de construir novas relações de confiança e demonstrar resultados em ambientes altamente desafiadores”, completa.
Além das exigências profissionais, muitas mulheres ainda enfrentam o desafio de equilibrar carreira, família e responsabilidades pessoais. “Ao longo da minha trajetória, aprendi que, para sustentar uma carreira de longo prazo, é fundamental ter uma rede de apoio e buscar equilíbrio entre as diferentes responsabilidades”, analisa.
Apesar dos desafios, Maikiela vê com esperança o futuro das mulheres no setor. Para ela, ainda há espaço para ampliar a participação feminina em posições de liderança e tomada de decisão. “A participação feminina é essencial para tornar a mineração mais humana, com maior diversidade de perspectivas e experiências”, afirma.
Silvana Hotes é outra história de sucesso. Formada há 23 anos em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Viçosa e com mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto, sua escolha profissional é a realização de um sonho não só seu, mas do pai projetista que queria um filho engenheiro. Desde pequena, já demonstrava a aptidão. “Lembro que, aos 4 anos, adorava brincar com aqueles bloquinhos pintados de tijolinhos”, conta.
Silvana começou a carreira trabalhando em projetos de usinas hidrelétricas e, com o decorrer dos anos, adicionou à sua bagagem diversos trabalhos em projetos industriais de mineração, sempre em consultorias. Está na Ausenco há 10 anos.
Atualmente, a engenheira é líder de projetos na parte de engenharia civil, estruturas em concreto e metálicas. Iniciou na carreira como calculista, descobrindo em pouco tempo a aptidão para a liderança, mas nunca deixou de lado a parte de dimensionamento. “Daqui a cinco anos me vejo fazendo a mesma coisa, porque gosto. A gente deve estar onde percebe que soma e constrói efetivamente algo”, afirma.
Um dos maiores desafios, na visão de Silvana é, atualmente, desenvolver projetos com prazos menores, com a mesma qualidade e, principalmente, dentro do custo. Mas quando entrega o trabalho, não há, na opinião de Silvana, recompensa maior. “A gente se orgulha muito quando vê a planta construída, operando e dando o retorno tão almejado pelo cliente”, afirma.
O valor da diversidade na engenharia
Como para qualquer mulher engenheira, o ambiente de trabalho predominantemente masculino sempre foi uma constante na vida de Silvana. Quando entrou na universidade, a turma tinha 60 homens e destes, apenas seis mulheres. Desse total, apenas quatro profissionais do sexo feminino se formaram no tempo mínimo. Se de muitos colegas homens recebia acolhimento, de outros percebia preconceito. “Não sei se é porque hoje sou líder, mas sinto que atualmente as coisas são mais veladas”, afirma. Apesar disso, Silvana segue porque tem a paixão pela engenharia e porque acredita que faz a diferença.
