(Com a colaboração de Breno Augusto dos Santos, que primeiramente nos contou essa história)
Em maio de 1966, aos 29 anos, o geólogo Paschoal Giardullo, formado pela primeira turma do curso de Geologia da Universidade de São Paulo (USP), ingressou na Sandspar Minérios. A empresa negociava feldspatos vindos de Governador Valadares e minerais de lítio do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, entre outras substâncias. Os minerais de lítio, eram enviados a São Paulo, principalmente lepidolita, destinada à Ferro Enamel, e ambligonita para a Orquima, que fabricava carbonato de lítio.

A Sandspar instalou uma base em Itinga, entre Itaobim e Araçuaí. Giardullo conta que, naquele tempo, o Vale do Jequitinhonha já convivia com sérios problemas, como a doença de Chagas, endêmica em toda a região. A travessia do rio Jequitinhonha de um lado para o outro de Itinga era feita em balsas precárias, a luz elétrica vinha de uma pequena hidrelétrica, não havia água encanada nem telefone, apenas o telégrafo dos Correios. A economia local dependia praticamente da mineração, incluindo garimpos que produziam águas-marinhas e turmalinas verdes e rosas.

Na época, a Philips, empresa norte-americana, fabricava bulbos para TVs preto e branco em Mauá (SP), utilizando petalita, um mineral de lítio desconhecido no Brasil, depois substituído pelo espodumênio fornecido pela Sandspar. O material era aprovado a depender de seu teor de lítio e ferro e entregue na forma bruta para a Proberil, em Resende (RJ), responsável por sua moagem e transporte para Mauá.

Os minerais de lítio eram controlados pela CNEM, que também autorizava sua exportação, fiscalizada então pelo Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), hoje Agência Nacional de Mineração (ANM). O produto deveria ser embalado em sacos de ráfia, devidamente identificados, costurados e lacrados, um a um, por um fiscal do DNPM. A Sandspar, que possuía uma autorização para exportar 5.500 t de minerais de lítio até 31 de dezembro de 1967, deu início a uma pesquisa sistemática no Vale do Jequitinhonha, coordenada por Giardullo.

O negócio, no entanto, estava com seus dias contados. As novas TVs em cores usavam bulbos que já não precisavam de lítio, o que levou à retração da demanda pelo minério. Somente após quase 20 anos, em 1991, surgiria a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), com operações em jazidas de espodumênio situadas em Araçuaí, Itinga e Divisa Alegre, no mesmo Vale do Jequitinhonha. Ninguém falava, então, de transição energética e descarbonização.

