Em 2024, a Galvani lançou a pedra fundamental das obras de início do projeto Irecê para a exploração do minério fosfático primário. Sediada na cidade baiana homônima, a unidade tem previsão de produzir anualmente 350 mt de concentrado fosfático a partir de 2026, destinadas ao CILEM, complexo industrial da produtora de fertilizantes sediado no município de Luís Eduardo Magalhães (BA). Além disso, a empresa também produzirá 600 mtpa de calcário agrícola que será vendido para o mercado do MATOPIBA, região que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Mas a história de Irecê começa bem antes. Mais exatamente em 1997, quando a Galvani desenvolveu um processo a seco para o beneficiamento do minério fosfático intemperizado do depósito, também conhecido como minério secundário. A operação da Unidade de Mineração de Irecê (UMI) teve início em 1998 e foi encerrada em maio de 2007. Durante esse período, foram produzidas cerca de 150 mtpa de concentrado fosfático e, adicionalmente, cerca de 13 mtpa de fosfato natural comercializadas, então, sob o nome Fosbahia.
Atualmente, segundo Laurence Galvani, diretor de Inovação e Engenharia da Galvani, o projeto encontra-se em fase avançada implantação, com a conclusão das obras de terraplanagem. Em junho chegou ao Brasil, via porto do Pecém, no Ceará, o forno calcinador. O início das operações está previsto para o primeiro semestre de 2026, quando obtida a Licença de Operação (LO). O investimento é da ordem de R$ 600 milhões, com mobilização estimada de 600 postos de trabalho durante a fase de obras, entre colaboradores próprios e contratados, e de cerca de 300 empregos diretos, priorizando contratações locais, na etapa operacional.
Retomada
Na primeira fase de Irecê, a operação com minério secundário também gerou uma pilha de rejeitos com teor médio de 18% de fósforo. Entre 2004 e 2006, foram realizados estudos visando o reaproveitamento desse material, que resultaram no desenvolvimento de uma rota de flotação específica, cuja implantação ocorreu em 2007. Esse processo de beneficiamento entrou em operação em 2008 e permaneceu ativo até 2013.
“Essa nova operação reforça a vocação mineral da região de Irecê e estabelece uma conexão direta com o histórico da Galvani na área, ao mesmo tempo em que incorpora avanços tecnológicos relevantes”, explica o diretor. Além do retorno do processo de concentração a seco — tecnologia já utilizada na fase inicial da operação anterior —, está sendo introduzida uma etapa inovadora de calcinação do minério, permitindo o aproveitamento integral do recurso mineral e eliminando a necessidade de barragens de rejeitos.
A Licença Prévia (LP) do projeto foi emitida em 2021. Três anos depois, em 2024, foi obtida a Licença de Instalação (LI). Os processos são titulados a FOSNOR – Fosfatados Norte e Nordeste, subsidiária da Galvani que atua nos estados da Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Lavra
A lavra na nova mina deverá ser feita em cinco bancadas a céu aberto, cada uma com 10 m de altura, espaçadas nas cotas 790 até 750 m a partir da superfície em direção à subsuperfície, alcançando profundidade máxima de 50 m. As bermas terão comprimento de 5 m e inclinação de talude de 75°. As operações são as usuais: remoção de capeamento, preparação das bancadas e da pilha de rejeitos, e desmonte de estéril e minério por explosivos.
O minério lavrado segue para um pátio de homogeneização, onde é depositado em pilhas. Por ser proveniente de diferentes frentes de lavra, o material passa por uma blendagem para atender às metas de volume a ser processado e de qualidade, em termos de teor contido.
A frota de 17 equipamentos móveis é composta de escavadeiras, uma delas com rompedor hidráulico, pá-carregadeira e caminhões basculantes. Para apoio serão empregados uma motoniveladora, um caminhão comboio, um caminhão-pipa e duas caminhonetes (veja Tabela 1).
Tabela 1 – Equipamentos de Lavra, Carregamento e Transporte
| Equipamento | Atividade | Quantidade |
| Escavadeira 40 t | Escavação (capeamento) e carga de minério e estéril | 2 |
| Escavadeira c/rompedor hidráulico 30 t | Demolição, escavação primária de rocha e quebra de rochas | 1 |
| Pá-carregadeira 3 m3 | Carregamento de minério | 1 |
| Motoniveladora | Nivelamento de estradas e vias de acesso | 1 |
| Caminhão 35 t | Transporte do minério | 8 |
| Caminhão Comboio | Abastecimento e lubrificação de máquinas | 1 |
| Caminhão-pipa 20 m3 | Aspersão de água e umectação de vias | 1 |
| Caminhonete | Transporte de pessoal e apoio | 2 |
Fonte: Estudo de Médio Impacto/Fosnor/2020

Beneficiamento
Em relação à configuração anterior, o design atual do projeto teve alterações. Uma delas é a de ser uma planta totalmente livre da geração de rejeitos, utilizando processos de britagem e calcinação, além de etapas auxiliares. Outra é que a produção estará focada em concentrado fosfático e corretivos agrícolas. A rota tecnológica adotada implicará na construção de uma nova unidade industrial, de forma que, da antiga estrutura, somente as instalações administrativas serão reaproveitadas.
O emprego da tecnologia de calcinação para beneficiamento de minério primário, que possui características diferentes do minério secundário anteriormente explorado, é inédito no Brasil, diz Galvani. “O processo começou a ser desenvolvido em 2006, mas só se mostrou viável a partir de 2019, com a aplicação da calcinação, aproveitando o alto teor de calcário do minério. A versão final da rota foi concluída em outubro de 2024”, conta o executivo.

O fluxograma integral do processo comporta as etapas de britagem, classificação, moagem, calcinação, resfriamento, hidratação, atrição, separação por hidrociclones, espessamento para o overflow (cal hidratada) e filtragem e secagem rotativa para o underflow (concentrado fosfático ou apatita). Especificamente na calcinação, a queima do material ocorre em um gaseificador de coque moído, a uma temperatura de 900°C. É nessa fase que se dá a descarbonatação do minério, com a conversão dos carbonatos de cálcio e magnésio em óxidos de cálcio e magnésio.
A cal hidratada, que seria usualmente descartada, será transformada novamente em carbonato e comercializada como um corretivo agrícola diferenciado, com alto teor de magnésio. A produção estimada desse subproduto é de 600 mtpa.

Contrapartidas
Um dos ganhos ambientais de Irecê, destaca Galvani, é que a calcinação da rocha fosfática permite a separação eficiente de cálcio e magnésio com baixo consumo e recirculação total de água, em relação ao processo convencional de beneficiamento, garantindo o aproveitamento integral do minério, a ausência de efluentes e rejeitos industriais e a eliminação de barragem de rejeitos. “A implantação do sistema de recirculação total da água, além de minimizar o consumo de água nova no processo, irá contribuir para a preservação dos recursos hídricos locais”, justifica o diretor.
Ainda no campo ambiental, a Galvani realiza, desde 2009, em conformidade com as diretrizes do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (INEMA), o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), visando a recuperação ecológica de áreas impactadas pela operação anterior, por meio da seleção de espécies nativas da caatinga, somando 13,74 ha recuperados atualmente. A empresa também mantém uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) no município, com 24,56 ha -, equivalente a 17 campos de futebol – de vegetação nativa e, ainda, um banco de sementes com mais de 50 espécies da caatinga e um viveiro na unidade capaz de produzir até 50 mil mudas/ano.
Um dos impactos positivos da nova unidade será o de viabilizar ganhos socioeconômicos relevantes para a cidade de Irecê, com incremento estimado de R$ 31 milhões/ano na massa salarial local. Além disso, durante a implantação do projeto está sendo priorizada a contratação de mão de obra e fornecedores locais.
Por seu histórico anterior, a Galvani também mantém forte presença social na região por meio de parcerias e projetos voltados para educação, cultura e esporte. No estado da Bahia, a empresa já investiu, entre 2023 e 2024, cerca de R$ 5 milhões em projetos sociais. Em Irecê já patrocinou diversos projetos, como o Ponto da Moda, para qualificação em corte e costura e geração de renda; Raízes, com foco no fortalecimento da identidade e cultura negra; e Arte nas Escolas, com aulas gratuitas de música e teatro para alunos do ensino fundamental. Em 2025 foi a patrocinadora oficial do São João de Irecê, reforçando seu apoio à cultura local.
Recentemente, também inaugurou uma unidade do Instituto Lina Galvani, instituição da qual é mantenedora e que atua de forma integrada com as comunidades, investindo na formação e no fortalecimento de lideranças, articulando parcerias e apoiando projetos e iniciativas locais, a fim de promover o desenvolvimento comunitário e a inclusão produtiva.
Imagem em destaque: Localização do projeto, com ADA e área urbana, rodovias e acessos
Fotos: Crédito: Galvani/Divulgação
