Em um cenário onde a Caatinga e o Cerrado se abraçam, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) celebra uma marca histórica em sua Unidade de Concentração de Urânio (URA), no sudoeste baiano: a produção de mais de 1,6 milhão de mudas nativas. Ao longo de 28 anos, o que começou como uma necessidade operacional evoluiu para um dos projetos de conservação mais robustos da região, provando que a atividade mineral e a regeneração ambiental podem caminhar lado a lado.
Entre as plantas arbóreas, arbustivas e herbáceas nativas-regionais, a INB Caetité já catalogou 600 espécies e produziu mudas de mais de 270 espécies. “O nosso viveiro é referência em riqueza de espécies de mudas, pois estamos nos esforçando em reproduzir o máximo da diversidade ecológica encontrada na região”, afirmou Josilene Rocha, coordenadora de Meio Ambiente da unidade.

Das 1.674.153 mudas produzidas entre 1997 e 2025, 823.724 foram plantadas em áreas em recuperação na propriedade da INB Caetité, contabilizando 152 hectares, que correspondem a 214 campos de futebol nas dimensões oficiais. O restante foi destinado a doações para a comunidade, apoiando ações coletivas e individuais de plantio e contribuindo para a restauração da vegetação nativa da região. Além de Caetité, os municípios vizinhos (Lagoa Real, Guanambi, Caculé, Igaporã, Livramento e Palmas de Monte Alto) receberam as mudas produzidas pela INB. “Quando iniciamos a doação de mudas, a população rejeitava as plantas nativas, hoje existe disputa por elas, o que reflete uma mudança de comportamento pela valorização da flora local”, destaca Paulo Sérgio Bomfim, técnico em agropecuária da INB que acompanha esse trabalho desde seus primórdios.
A produção de mudas é uma das ações do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), que faz parte do licenciamento ambiental conduzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Um acervo de biodiversidade
Atuar em um território de alta biodiversidade, mas com pouca literatura técnica/científica, exigiu que a equipe ambiental da INB assumisse o papel de pesquisadora. No início, as lacunas de conhecimento sobre a flora regional eram imensas. “Se hoje ainda existem desafios, quando começamos o cenário era muito mais complexo”, relembra Paulo Sérgio.
O esforço contínuo transformou a unidade de Caetité em um verdadeiro centro de inteligência ambiental. Hoje, a estrutura conta com uma sementeca e uma carpoteca (que são acervos que catalogam a diversidade de sementes e frutos locais). Há também um herbário, composto pelo registro físico de exsicatas que documentam a evolução da flora no território. Juntas essas estruturas catalogam 600 espécies da flora nativa-regional, entre as plantas arbóreas, arbustivas e herbáceas.
Essa expertise já rendeu frutos científicos notáveis, como a identificação da Vanilla colombina — orquídea registrada pela primeira vez no Brasil graças à parceria com o pesquisador Luciano Bem Bianchetti, da Embrapa.
Ciência aplicada: superando o desafio do semiárido
Desde o início das atividades, a decisão estratégica da INB foi clara: utilizar exclusivamente espécies nativas para a recuperação das áreas. Para isso, a empresa desenvolveu um ciclo completo de produção que se inicia com o mapeamento de árvores matrizes onde serão coletados os frutos com as sementes utilizadas na produção das mudas. “Atualmente temos 1.244 árvores matrizes georreferenciadas nos municípios de Caetité, Guanambi, Igaporã, Lagoa Real, Livramento de Nossa Senhora, Matina, Paramirim e Rio de Contas, se estendendo por um raio de aproximadamente 80 quilômetros”, afirma o biólogo Adriano Pires, destacando o cuidado da equipe em assegurar a variabilidade genética das espécies, ou seja, que as mudas não sejam todas descendentes das mesmas árvores.
Na próxima etapa acontece o beneficiamento das sementes, que é o preparo delas para o plantio, considerando estratégias para a quebra da dormência (técnicas para maximizar a germinação). “De alguns frutos retiramos a polpa, de outras cortamos uma pontinha da semente ou lixamos uma extremidade… Enfim, seja com a pesquisa em estudos já realizados ou em experimentos no próprio horto florestal, ao longo dos anos temos consolidado o conhecimento para o melhor aproveitamento de cada semente”, relata Paulo Sérgio.
Outro aspecto fundamental desse trabalho é a chamada rustificação das mudas, etapa em que as plantas são preparadas para enfrentar as condições adversas do semiárido, como altas temperaturas, escassez hídrica e solos mais pobres. “Produzir mudas para esta região exige conhecimento específico e adaptação constante”, explica o engenheiro agrônomo Carlos Henrique Almeida, responsável pelo PRAD.

Pionerismo da INB Caetité
O PRAD da INB é pioneiro em utilizar espécies nativas regionais da caatinga na recuperação de taludes. Carlos Henrique lembra que a INB utiliza as herbáceas (plantas com caules flexíveis e verdes, com pouca ou nenhuma parte lenhosa) desde o início do PRAD 1997. “Começamos com a Bromélia Macambira e gramíneas nativas (Aristida sp). A partir de 2014, diversificamos e hoje utilizamos mais de 12 espécies de herbáceas, como a Rhaphiodon echinus – Betonca; a Gomphrena vaga – Pustumeira; a Amphilophium paniculatum – Boca-de-cobra; a Pyrostegia venusta – Cipó-são-joão; a Distimake sp – Jitiranas; a Canavalia sp – Feijão-de-porco; e o Macropsychanthus grandiflorus – Mucunã”, exemplifica.
A escolha por essas espécies foi por serem nativas-regionais adaptadas às condições climáticas e ao solo da região, que influenciam o crescimento, distribuição e desenvolvimento dos seres vivos, especialmente plantas e microrganismos. Além disso, são espécies bastante rústicas e possuem ramos e raízes que possibilitam cobertura de superfícies inclinadas de solo ou rocha, naturais (encostas) ou artificiais (cortes e aterros), conhecidas como taludes.
Legado: um ecossistema em foco
Para a INB, o cuidado com o meio ambiente vai muito além de plantar árvores. Trata-se de reconstruir ecossistemas que estão em condições ambientais diferentes e que demandam ações distintas. “Quando plantamos com objetivo de estabilizar o solo e/ou talude, aumentar o teor de nutrientes e proporcionar as condições para que o solo se recupere, dizemos que estamos fazendo a ‘recuperação’ da área”, explica Josilene, exemplificando com o plantio de herbáceas nos taludes e para o controle de erosão.
Depois do solo recuperado e já com alguma cobertura vegetal, é iniciada a restauração do ambiente, com o plantio de grande diversidade de mudas arbóreas, que são as mudas de pau ferro, jatobá, ipês, barriguda, coco licuri, por exemplo. Nesse estágio são inseridas bromélias, cactos e orquídeas, criando um ambiente equilibrado que favorece o retorno da fauna e a manutenção dos recursos hídricos. O biólogo Adriano Pires conta que já são percebidas mudanças na fauna. “Animais que há tempos não eram encontrados na região, voltaram a ser avistados, como o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla)”, exemplifica o biólogo.
Esses são sinais de que o trabalho realizado pela INB em Caetité está seguindo o caminho certo. Ao se aproximar das três décadas de existência, o Horto Florestal da INB demonstra que a responsabilidade ambiental não é apenas um processo acessório, mas um legado de ciência e sustentabilidade que se ramifica por todo o território baiano.
