Diz a lenda que, no século XVIII, um ermitão curandeiro teria escolhido por moradia uma pedra de formato peculiar existente em um lajedo, a cerca de 25 km do centro da cidade de Cabaceiras, na região do Cariri Paraibano. O local virou destino de habitantes locais que atribuíam poderes milagrosos ao homem e, por esses dons, passaram a chamá-lo de Pai Mateus, denominação hoje estendida a todo o lajedo. Bem antes dele, há cerca de 12 mil anos, índios Cariris teriam vivido na região, desenhando pinturas rupestres gravadas em várias pedras e ainda hoje visíveis.
Deixando a lenda para falar de Geologia, o Lajedo de Pai Mateus é um relevo granítico que forma uma laje aplainada, com aproximadamente 1,5 km² de área, por onde se espalham cerca de cem grandes blocos rochosos arredondadas que chegam a pesar toneladas e cujas dimensões podem atingir até 7 metros de altura – os chamados bolders ou mares de bolas (Imagem 1). É uma das três únicas formações desse tipo no mundo – as outras duas ficam na Austrália e em Nairobi.
Os blocos possuem formas diversas como a de lajedos – superfícies graníticas planas e rebaixadas –, matacões – fragmentos rochosos de dimensão métrica –, e bolas de granito e tors – afloramentos rochosos que se erguem abruptamente em meio a uma superfície mais plana. Outro tipo de feição ali presente são as cavidades basais que se formam nos grandes blocos de granito, chamadas de tafone (tafoni no plural.), com formatos côncavos que se expandem de forma ascendente da base do bloco granítico até consumir seu interior. Essa expansão amplia-se ao ponto de romper a lateral do bloco, gerando assim um acesso à sua parte interna. No interior do bloco rochoso, a expansão da cavidade ocorre pela progressiva descamação das superfícies internas acompanhada por desintegração granular. É em um desses tafoni que Pai Mateus teria morado (Imagem 2). Um tafone também famoso é a Pedra do Capacete (Imagem 3).
Outra feição de menor porte que ocorre na área são as caneluras, sulcos verticais rasos produzidos por erosão química (dissolução). Quando ocorrem em profusão, são denominados karrens, sendo caracterizados por canais bem marcados, dispostos paralelamente do topo à base do bloco granítico (Imagem 4). As superfícies dos blocos são recobertas por líquens que, durante o dia, aparentam cores de tons cinza ou alaranjado, tornando-se vermelhas ao pôr do sol e azuis ao anoitecer (Imagens 5 e 6).
O lajedo integra o projeto Geoparque do Cariri Paraibano, em estágio avançado de desenvolvimento por pesquisadores da UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e do SGB (Serviço Geológico do Brasil), juntamente com as comunidades locais. Sua criação oficial dependerá da chancela da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Que Pai Mateus envie boas energias para essa causa!





