Em fevereiro de 2025, a Companhia Brasileira de Alumínio – CBA recebeu da FEAM – Federação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais – uma declaração de recuperação de área minerada com conservação ambiental. O título foi o sexto emitido pelo órgão para mineradoras em 2024 e o primeiro da CBA. No mês seguinte, março, a empresa anunciou o desenvolvimento de uma nova técnica de restauração florestal em áreas degradadas pela atividade mineral, resultado de uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A declaração da FEAM refere-se a um projeto de conservação ambiental com foco em agropecuária e restauração, onde o processo de reabilitação das áreas mineradas permite tanto o retorno da atividade agrícola, devolvendo-lhes sua atividade original, quanto da mata nativa em parte de seu espaço, conservando a biodiversidade local.
Para o gerente de Mineração das Unidades da Zona da Mata mineira – Miraí e Itamarati de Minas – da CBA, Christian Fonseca de Andrade, “esse é um exemplo claro de que a mineração pode e deve caminhar lado a lado com a atividade rural e o meio ambiente, alinhando atividades econômicas com a conservação ambiental”.

Já o diretor de Gestão de Barragens e Recuperação de Áreas de Mineração e Indústria da FEAM, Roberto Gomes, afirma que “o diferencial do processo de fechamento de mina desenvolvido pela CBA é a execução quase que concomitante à lavra, associada a uma proposta de uso futuro alinhada à aptidão local e dos superficiários”. As áreas certificadas pelo órgão foram utilizadas para a extração de bauxita e localizam-se no município de Itamarati de Minas, na Zona da Mata mineira.
Metodologia
Para a restauração florestal, tanto em áreas mineradas quanto em terrenos de compensação ambiental, a técnica desenvolvida pela UFV combina o uso de sementes com tecnossolo. Sua criação se deu a partir de um estudo conduzido na Casa de Vegetação do Laboratório de Restauração Florestal (LARF), localizada no viveiro de pesquisa da UFV, onde foram testadas bolas de sementes de quatro espécies arbóreas de importância ecológica, nativas da Mata Atlântica, com diferentes receitas de tecnossolo. Basicamente, o tecnossolo consiste no material extraído na atividade de lavra da mineradora, que passa por um processo para separação dos grãos de bauxita da argila. Essa argila recebe adubação mineral e orgânica e as sementes, formando as chamadas bolas de semente.

O formato de bolas protege as sementes contra condições adversas, como a predação por animais, e possibilita maior diversidade de espécies secundárias, resultantes de um processo natural de regeneração da vegetação, para as áreas em restauração. Além disso, podem ser lançadas em áreas de difícil acesso, onde o plantio é tecnicamente complexo.

“Em locais onde há competição de mudas com gramíneas exóticas, que são espécies de plantas invasoras, como a braquiária, é possível combinar o plantio das mudas com as bolas de sementes, permitindo que seja plantado um número menor de espécies de recobrimento, que efetivamente sombreiam e enfraquecem as gramíneas. Na sequência, as bolas de semente podem ser aplicadas diretamente no solo para promover o enriquecimento em espécies, resultando em uma floresta ainda mais diversificada”, explica o professor Sebastião Venâncio Martins, coordenador do LARF/UFV.
Resultados
Em Descoberto, o plantio de mudas nativas tem favorecido a restauração da área minerada, por meio da cobertura e proteção do solo, criando um ambiente mais adequado para o estabelecimento de espécies nativas. Essa avaliação foi realizada pelo LARF, da UFV, através da utilização de bioindicadores. Entre eles, a regeneração natural de serrapilheira – camada superficial de matéria orgânica que se acumula no solo de florestas –, com produção de 6.772 kg/ha/ano, o banco de sementes do solo, a composição de espécies de plantas, biomassa, estoque de carbono e monitoramento de fauna.
O estudo do banco de sementes do solo registrou o surgimento de 2.489 plântulas (nova planta originada da semente após germinação), pertencentes a 69 espécies vegetais. Além disso, as avaliações de regeneração natural encontraram 705 indivíduos regenerantes, pertencentes a 80 espécies. “Esses resultados indicam que as espécies plantadas estão contribuindo para a recuperação do solo, através da troca contínua de nutrientes, e para o restabelecimento dos processos ecológicos na área”, afirma Martins.
Segundo o professor, a maioria dessas espécies também apresenta a chamada “síndrome de dispersão zoocórica”, ou seja, são atrativas à fauna, conforme monitoramento visando o levantamento de aves nas áreas de estudo, utilizando o método de busca intensiva, através da observação das espécies seja por visualização direta ou reconhecimento do canto. Esse trabalho identificou 53 espécies, inclusive de aves dispersoras de sementes, o que é outro indicador de uma restauração vegetal bem-sucedida.
“Essas espécies podem estar facilitando a chegada de sementes provenientes de outros locais, o que auxilia nos processos de sucessão e restauração. Além disso, a presença de aves com diferentes hábitos alimentares indica que a área apresenta ampla oferta de alimentos e contribui para o restabelecimento das relações funcionais entre fauna e flora”, explica Martins. Segundo ele, destaca-se também a presença de espécies que se alimentam de néctar e desempenham um papel essencial na polinização de diversas espécies vegetais.

Através de câmeras trap também foi registrada a existência de mamíferos e répteis, entre eles coelho silvestre, cachorro-do-mato, irara, jaguatirica, paca e quati. “A presença de uma fauna diversificada sinaliza que a área foi restaurada com sucesso e está cumprindo um papel ecológico importante na conservação de espécies da fauna e da flora, na recuperação e proteção do solo e na promoção da conectividade com fragmentos florestais da paisagem”, avalia Martins.
O trabalho com a UFV vem sendo desenvolvido pela CBA há 16 anos através de três linhas de pesquisa: reabilitação ambiental de solos, restauração florestal e conservação hídrica (hidrologia florestal). Com apoio da universidade, os fragmentos florestais ao redor das unidades de preservação da mineradora na região da Zona Mata mineira estão sendo ampliados para a formação de corredores ecológicos. A expectativa é que as propriedades criem um maciço ambiental e um local de reprodução da fauna local, agindo como um berçário para as espécies seguirem seu fluxo natural. O processo é realizado através da técnica de plantio de mudas altas de espécies atrativas à fauna, o que favorece a conexão das unidades de preservação a outros remanescentes florestais na região.
Nas áreas mineradas, a reabilitação ambiental tem início com a reconformação topográfica – reposição da curvatura natural do relevo e retorno do solo rico, que é reservado e armazenado durante a extração da bauxita. Seguem-se o preparo do solo, com adubação orgânica e mineral, e o plantio de culturas agrícolas, florestais ou espécies nativas, utilizando técnicas desenvolvidas junto à UFV.
Foto em destaque: Área minerada que recebeu a declaração da FEAM
Fotos:CBA/Divulgação
