Em ramp up desde dezembro de 2024 e com produção comercial prevista para o final de 2025, a mina Boa Sorte, sediada em Itagimirim, Bahia, teve protocolado, em fevereiro passado, o pedido de Licença Prévia (LP) concomitante à Licença de Instalação (LI), para expandir a produção atual de 5,5 mtpa para 20 mtpa. O empreendimento iniciado pela Columbia Exploração Mineral, subsidiária da Graphcoa (Graphite Company of the Americas) é, desde novembro de 2022, uma joint venture entre a empresa e o fundo de investimentos Appian Capital Advisory, que opera a Atlantic Nickel, produtora de níquel, também na Bahia. Além da mina Boa Sorte, a Graphcoa possui vários direitos minerários em áreas com ocorrência de grafite não só na Bahia como no nordeste de Minas Gerais.
O projeto teve investimento de R$ 400 milhões e já comercializa concentrado de grafite para a América do Norte. O produto, com teores de até 98% de grafite, visa atender a fabricantes de ânodos para baterias de íon-lítio destinadas a veículos elétricos e também setores tradicionais, como os de refratários, siderurgia e agronegócio. Para isso, a Graphcoa desenvolveu três linhas de produtos: a Graphcoa Flakes®, a Graphcoa Fines Flakes® e a Powders.
Operação
A mina Boa Sorte ocupa uma área de 20 ha e tem sua lavra autorizada por Guia de Utilização (GU) emitida pela Agência Nacional de Mineração (ANM), o que limita a capacidade máxima de beneficiamento de sua usina a 5,5 mtpa de concentrado de grafita. Segundo o PCA (Plano de Controle Ambiental) apresentado em 2020 pela Columbia como parte do processo de licenciamento ambiental municipal simplificado, os recursos medidos e indicados do depósito eram de 21,7 Mt ROM de grafita, com teor médio de 2,86%, dos quais 80% (17,3 Mt) são de reservas lavráveis. A lavra é realizada em bancadas a céu aberto com produção total de 14,7 Mt de minério – 85% da reserva lavrável (veja escala de produção para os 3 primeiros anos na Tabela 1).
Tabela 1 – Programação da escala de produção da Mina Boa Sorte
| Ano
|
Minério
(kt) |
Estéril
(kt) |
REM
t/t |
Teor
% |
Produto
(kt) |
| 1 | 129,7 | 80,9 | 0,62 | 4,34 | 5,5 |
| 2 | 126,7 | 126,9 | 1,00 | 4,32 | 5,4 |
| 3 | 125,5 | 129,2 | 1,03 | 4,73 | 5,8 |
| Total | 381,9 | 337,0 | 0,88 | 4,46 | 16,7 |
Fonte: PCA/Columbia Exploração Mineral/2020
A UTM (Unidade de Tratamento de Minério) da mina é composta por instalações de britagem, classificação, moagem, flotação, filtragem (espessador desaguador e filtro prensa) e secagem, com recirculação da água empregada no processo. A tecnologia de filtragem elimina a necessidade de barragem de rejeitos.
Expansão
O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) publicado no Diário Oficial do Município de Itagimirim (BA), em 10/02/2025, trata da ampliação do projeto Grafite na mina Boa Sorte, abrangendo a ampliação de área de cava; a implantação e ampliação de Pilhas de Estéril e Rejeito (PDERs); a construção de uma estrada de rodagem e a implantação de Planta de Beneficiamento -Planta Full Scale (veja Tabela 2). A expansão permitirá uma produção de 20 mtpa por mais 20 anos contados do início da operação.
O projeto encontra-se em área contígua às instalações da primeira fase, em propriedades da Graphcoa e de terceiros e tem estimativa de capital para investimentos iniciais em ativos e processos, comissionamento e pré-operação de pouco mais de US$ 1 milhão. Para a implementação total, incluindo a construção da PDER e fechamento da lavra, além da aquisição de equipamentos para a planta e do fundo de contingência, o investimento estimado chega a US$ 20,6 milhões. Os custos operacionais previstos são de US$ 2,3 por tonelada minerada e de US$ 211,9 por tonelada de concentrado processado. Com uma taxa de desconto de 10%, o projeto apresenta um Valor Presente Líquido (VPR) de US$ 70,8 milhões, uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 45,3% e um Tempo de Retorno (ROI) de 2,2 anos, indicando a viabilidade financeira do empreendimento.
Tabela 2: Estruturas de operações unitárias principais e auxiliares e acessos
| Estrutura | Área (ha) |
| Acessos | 9,24 |
| Lavra | 17,74 |
| Buffer de segurança | 211,43 |
| Canteiro de obras | 2,67 |
| PDER | 87,73 |
| Planta de beneficiamento | 4,49 |
| Platô industrial | 6,41 |
| Fase inicial da cava e área de lavra final* | 3,60 |
| Acesso e área de lavra (final) | 0,36 |
| Planta e área de lavra (final) | 0,11 |
| Total | 343,78 |
*Sobreposição entre a estrutura e a área de lavra (final)
Fonte: Graphcoa/2024.
Entre cinco alternativas apresentadas, a PDER 6 foi identificada como a mais viável por combinar alta capacidade volumétrica com menor impacto ambiental e social (localizada longe de comunidades, mas a 4 km da cava da mina). A estrutura terá a seguinte configuração: ADA (Área Diretamente Afetada) de 47,46 ha, capacidade de 18,70 Mm3 e altura máxima total de 150 m. As pilhas de estéril, composto por solo e fragmentos de rocha, serão compactadas de forma estável para permitir a execução do programa de recomposição das áreas mineradas.
Implantação
A fase de implantação consistirá das etapas de supressão da vegetação para a instalação das estruturas previstas, com realocação de fauna e flora; terraplanagem (223.250 m3 de movimentação de terra) e obras civis; e montagem eletromecânica para a instalação de equipamentos e estruturas metálicas, chapas de desgaste e sistemas elétricos. O canteiro de obras ocupará uma área de 20 mil m² para alocação administrativa, armazenamento de materiais, manejo de resíduos e acomodação de trabalhadores.

As medidas de controle ambiental envolvem a gestão de resíduos sólidos, com sua classificação e destinação, o controle de emissões atmosféricas, ruídos, vibrações e sedimentos e a instalação de fossas sépticas para o tramento de efluentes sanitários.
O pico de mão de obra deve ocorrer, a depender da emissão das licenças ambientais, entre outubro de 2025 e março de 2026, com até 576
trabalhadores mobilizados e redução gradual do efetivo até junho de 2027, data prevista para a conclusão do projeto, quando será iniciado seu comissionamento e ramp up.
Operação
A lavra, realizada por escavadeiras hidráulicas, carregadeiras e caminhões, se dará de forma progressiva, com maior intensidade em materiais superficiais durante a fase inicial, evoluindo para o uso de técnicas de perfuração e desmonte em camadas mais profundas. A planta de beneficiamento contará com sistema de recuperação de até 90% de água e de tratamento de rejeitos e foi projetada para gerar concentrados com diferentes teores de carbono, visando atender aos mercados interno (20-40% da produção e externo (60-80% da produção), totalizando 425 mtpa.

A gestão integrada de resíduos sólidos será baseada nos princípios de redução, reutilização e reciclagem e toda a operação será continuamente monitorada com o uso de piezômetros, inclinômetros e extensômetros, permitindo ações preventivas e corretivas em tempo real. Está prevista a criação de 160 postos de trabalho diretos, com capacitação e oportunidades para profissionais locais.

A recuperação das áreas mineradas e dos depósitos de estéril será realizada simultaneamente ao processo de lavra, visando concluir sua reabilitação ambiental durante a vida útil da mina. As principais ações previstas para a fase de fechamento incluem a consolidação das medidas ambientais, com conformação da topografia, drenagem pluvial, cobertura com solo fértil, revegetação e controle da erosão; a retirada das instalações de beneficiamento de minério; o isolamento das áreas em recuperação e sua manutenção periódica; a prevenção de incêndios, com a manutenção de aceiros para controlar a propagação de fogo; e o monitoramento ambiental, com a avaliação das medidas de recuperação por um mínimo de 5 anos após o fechamento.
