COMO ANDA O DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL CONTÍNUO DOS PQS?

Glaucia

Qualified Person | Competent Person (inglês), Persona Competente (espanhol), Компетентного Лица (russo), Yetkin Kişinin (turco), Mahusay na tao (filipino), Orang yang kompeten (indonésio), 资格人士 (Chinês), Profissional Qualificado (português).

Independentemente do idioma, o Profissional Qualificado (PQ) é definido, nos diversos padrões internacionais de declaração de recursos e reservas minerais, de forma bastante similar:

  • Profissional da indústria mineral, registrado ou membro de uma Organização Profissional Reconhecida (OPR), que possui processos disciplinares aplicáveis, incluindo poderes para suspender ou expulsar membros;
  • Ter de 5 a 10 anos de experiência profissional e de 5 a 7 anos de experiência relevante no estilo de mineralização e tipo de depósito em consideração, dependendo do país de registro;
  • Em alguns países, exige-se, adicionalmente, pelo menos 3 anos em Posição de Responsabilidade.

No Brasil, a OPR responsável é a Comissão Brasileira de Recursos e Reservas (CBRR), que, na data de fechamento deste artigo, contava com 197 profissionais registrados, distribuídos nas seguintes áreas de competência:

  • Exploração mineral;
  • Estimativa de recursos minerais;
  • Estimativa de reservas minerais;
  • Operações de mineração;
  • Processamento mineral;
  • Geotecnia;
  • Meio ambiente e sustentabilidade;
  • Avaliação econômico-financeira de ativos minerais;
  • Regulação minerária do Brasil.

Além dos profissionais registrados na CBRR, estima-se que existam mais 200 a 250 profissionais atuando no Brasil, registrados em OPRs internacionais.

Principais responsabilidades

Entre as funções de um PQ, destacam-se:

  • Conduzir trabalhos que fazem parte de uma Declaração Pública, seguindo a padronização dos códigos e as boas práticas recomendadas;
  • Preparar a documentação detalhada das Informações de Exploração, Recursos Minerais e Reservas Minerais que fundamentam uma Declaração Pública;
  • Emitir e assinar a Declaração Pública, com consentimento por escrito, incluindo comentário explicativo sobre as premissas relevantes;
  • Garantir que o trabalho não tenha sido indevidamente influenciado pela organização ou por qualquer parte interessada;
  • Assegurar a documentação adequada de todas as premissas e a divulgação completa de aspectos materiais para leitores informados;
  • Visitar a propriedade objeto da Declaração Pública, assim como instalações de amostragem, laboratórios analíticos e laboratórios de testes metalúrgicos, com a frequência necessária para entender os riscos e oportunidades envolvidos;
  • Ter segurança de que pode demonstrar competência perante seus pares no bem mineral, tipo de depósito e contexto em questão;
  • Comprovar a experiência relevante exigida;
  • Prestar serviços especializados e oferecer julgamentos técnicos confiáveis;
  • Assumir a responsabilidade pela qualidade técnica dos dados utilizados nos relatórios de exploração, estimativa de recursos e reservas, e estudos de viabilidade;
  • Avaliar criticamente a qualidade dos dados geológicos, exigindo mudanças, se necessário, para garantir a qualidade dos dados e dos processos.

Código de competência

Em diversos países – como Austrália, Canadá e Estados Unidos – recomenda-se que o PQ esteja sempre em um Programa de Desenvolvimento Profissional Contínuo (Continuing Professional Development – CPD), com um número mínimo de horas anuais dedicadas. Esse desenvolvimento é um critério para renovação de registros em algumas OPRs, que reavaliam seus membros a cada cinco anos. Além disso, garante que o profissional esteja constantemente atualizado em sua especialidade.

Em 2013, a geóloga sul-africana residente na Austrália Jacque Coombes defendeu seu doutorado na Edith Cowan University, abordando os fundamentos da competência profissional que embasaram a atualização do Código JORC de 2012, do qual ela foi membro ativo. Coombes descreve o PQ como:

“Um profissional da indústria de mineração que tem uma capacidade madura de raciocinar em todo o Código JORC, que pode fornecer uma análise fundamentada dos riscos em um projeto e é capaz de comunicar os riscos materiais (sem exclusão) para seus pares, gestão, conselho de administração e investidores.” (COOMBES, 2013).

A partir de entrevistas com especialistas e questionários sobre experiência, expertise e commodities, ela construiu uma metodologia baseada em raciocínio estatístico para avaliar a competência real do profissional. Como resultado, elaborou o Modelo de Desenvolvimento de Competências, destacando que:

 “Acima de tudo, o PQ deve compreender o ambiente e os processos que regem o sistema JORC. Em seguida, deve ter experiência e exposição suficientes para integrar completamente em suas práticas de trabalho os requisitos do Código JORC, incluindo a Table 1. É necessária a exposição a uma combinação de experiências profissionais e de local de trabalho que ofereçam amplitude e profundidade em compreensão e competência.” (COOMBES, 2013).

Em 2025, Coombes publicou o livro Cracking The Competency Code: A Blueprint for Excellence in Mineral Reporting Competency, atualizando as habilidades essenciais do PQ (Figura 1).

Figura1-Geologia
Figura 1: Estrutura de competência de profissionais qualificados

Além da organização da estrutura de competência, o livro oferece um guia inovador e prático para profissionais que buscam aprimorar sua competência, com base nesse modelo de quatro pilares fundamentais — conhecimento técnico, experiência prática, habilidades de comunicação e ética profissional — que sustentam a capacidade madura de raciocínio exigida.

Coombes também discute o papel do autoconhecimento, do aprendizado contínuo e das interações com pares para fortalecer o julgamento crítico e a credibilidade nos processos de declaração de recursos e reservas minerais, através da prática do desenvolvimento em diferentes códigos e jurisdições, com foco na ética profissional; apoio às organizações para a construção de sistemas que garantam a excelência técnica sustentável e promovam equipes competentes e resilientes; e fortalecimento das habilidades dos profissionais para elaborar declarações públicas robustas e confiáveis de Resultados de Exploração, Recursos Minerais e Reservas Minerais, alinhados a diversos códigos e requisitos de listagens internacionais.

Na Austrália, o Chartered Professional Program do AusIMM exige atividades regulares para o desenvolvimento de competências, incluindo:

  • Educação formal;
  • Minicursos internos e externos;
  • Aprendizado em conferências técnicas;
  • Publicações técnicas;
  • Aprimoramento de habilidades no trabalho;
  • Leituras privadas;
  • Mentoria estruturada;
  • Serviço à indústria;
  • Revisão por pares;
  • Outras atividades relevantes.

A Realidade Brasileira

No Brasil, a CBRR criou, em 2023, o Comitê de Desenvolvimento Profissional Contínuo (DPC), que, em breve, deve apresentar um plano de trabalho voltado à capacitação dos profissionais brasileiros.

A realidade atual e futura exige que os profissionais qualificados mantenham a competência viva e em constante evolução. O DPC não é um requisito formal, mas uma necessidade urgente em um ambiente técnico cada vez mais complexo.

Recomenda-se que todos os profissionais busquem constantemente a ampliação de suas competências, por meio de estudos, experiências práticas, treinamentos atualizados e interação com pares, de forma a trilhar uma jornada de crescimento e de aprimoramento profissional, contribuindo para fortalecer ainda mais a base técnica, de forma a impulsionar a verdadeira sustentabilidade para a sociedade global, com transparência e demonstração de credibilidade das declarações de recursos e reservas minerais.

 1Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia

 

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