
As “donzelas penteadas” ou “com chapéus”, assim chamadas por sua aparência que lembra figuras humanas femininas esguias com um penteado alto ou usando um chapéu, soube-se há pouco tempo, mais exatamente em 2022, habitam uma vasta área entre 5 e 5,5 hectares, não na França, mas em Campos Belos, no nordeste de Goiás, que fica próxima à divisa com o Tocantins e a Bahia. A partir da divulgação pública das imagens, a região passou a ser conhecida como “Vale de Marte”.

A formação geológica rara no Brasil, que atende também pelo nome de “Chaminé de Fada”, foi apresentada em fotos por uma moradora local à geóloga e pesquisadora do Laboratório de Geologia em Áreas Turísticas da UFG (Universidade Federal de Goiás), Joana Paula Sanchez, que organizou uma equipe de pesquisadores para um estudo de campo (Fotos 1 a 3).

Segundo Joana, a ocorrência desse tipo de formação é resultado de uma erosão diferencial causada pela presença de diferentes tipos de rochas que se desgastam em ritmos distintos. A fazenda onde as chaminés de fada estão é de propriedade de Domingos Ferreira da Silva, que acompanhou a pesquisadora na visita (Foto 4).

No caso do Vale de Marte havia, antigamente, um rio local que, durante as épocas de cheia ou tempestades, carregava grandes rochas vindas das montanhas ao redor. Com o tempo, o rio foi escavando a base dos conglomerados, moldando as estruturas que podem chegar entre três e quatro m de altura, explicou a pesquisadora. A rocha formada no alto da torre, semelhante a um penteado ou chaminé, ocorre porque a rocha inferior é mais macia que a camada superior, que atua como uma espécie de “tampa” protegendo o topo do tótem. “Diferentemente de outras chaminés de fada conhecidas, geralmente formadas por rochas vulcânicas sobre tufos, as dessa região têm origem sedimentar. Elas se formaram em um antigo leito de rio que secou, e, graças à atual desertificação, permanecem preservadas, já que não há mais fluxo de água suficiente para erodi-las”, afirma Joana.
Ao longo do tempo, uma rocha mais dura acabava depositada sobre outra mais frágil, que erode facilmente. A ação da chuva e do vento retira os sedimentos que se acumularam em torno das rochas mais consistentes, mantendo a parte que fica sob cada bloco, que funciona como um chapéu de proteção. “Temos a impressão de que as torres se ergueram, mas foi o entorno delas que cedeu”, conclui a geóloga.
A Serra Geral de Goiás é parte de um extenso paredão que corta o centro do Brasil de norte a sul, dividindo os estados do Maranhão, Tocantins e Bahia. Segundo Joana, a formação dessa região aconteceu em uma das movimentações tectônicas mais antigas que temos no país, a Sanfranciscana, há mais de 400 milhões de anos. O movimento das placas, ainda na época em que os continentes estavam juntos, causou uma depressão, uma bacia, onde o arenito, que é sedimentar, se depositou. O grande diferencial dessa formação em Goiás é sua grande extensão.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que visitou a área em setembro de 2025, abriu um processo para transformá-la em uma unidade de conservação. Discute-se a abertura de visitas guiadas ao local a partir de abril deste ano (2026).

As chaminés de fada mais conhecidas estão na Capadócia, na Turquia (Foto 5), Alpes franceses, desertos de Utah (EUA) e em pequenas áreas do Canadá, Itália e Taiwan. Essa denominação deriva de lendas do folclore europeu, que contavam de seres mágicos que habitariam o interior das torres.
