A CORRIDA GLOBAL POR SUPRIMENTOS ESTRATÉGICOS

Glaucia

A crescente demanda por minerais críticos, impulsionada pelas múltiplas exigências da transição energética — como eletrificação, armazenamento de energia, fontes renováveis, microeletrônica e infraestrutura digital — elevou esses recursos a uma posição estratégica e urgente nas esferas geopolítica, industrial e climática, especialmente neste ano de 2025.

Tecnologias como veículos elétricos, baterias de lítio, turbinas eólicas offshore, painéis solares, cabos de transmissão, data centers e semicondutores são consumidoras intensivas dessas substâncias, sobretudo de cobre, níquel, manganês, lítio, grafite e terras raras, entre outros minerais. Além da transição energética, outros setores estratégicos ampliam ainda mais a pressão sobre a demanda global:

  • Defesa: uso crescente de minerais críticos na eletrônica avançada, em sistemas de guiamento e em ligas especiais;
  • Tecnologia digital: data centers podem consumir 1–2% do cobre global até 2030;
  • IA e semicondutores: expansão acelerada do uso de silício metálico, gálio, germânio e paládio.

A mineração consolida-se, assim, como a espinha dorsal material de uma sociedade cada vez mais eletrificada, digital e descarbonizada. A transição energética deixou definitivamente de ser apenas uma agenda ambiental para se afirmar como um eixo central da geopolítica contemporânea, no qual os minerais críticos deixaram de operar como simples insumos industriais e passaram a atuar como instrumentos diretos de poder e de política externa.

Nesse complexo quebra-cabeça geopolítico, as peças tornam-se progressivamente mais nítidas e bem definidas, à medida que se observam as etapas do ciclo de vida do projeto mineral contemporâneo, conforme ilustrado na Figura 1.

figura 1
Figura 1: Etapas do ciclo de vida do projeto mineral

O nó em torno dos minerais críticos apertou de forma definitiva: à medida que se evidencia uma corrida global por autonomia mineral — com mais de 90% dos minerais essenciais passando pela China em algum ponto da cadeia de valor. União Europeia, Estados Unidos e G7 responderam com políticas assertivas, que reconhecem esses minerais como “a base energética e digital das economias do futuro”.

Assim, a aceleração deixou de ser uma boa prática operacional e tornou-se uma estratégia necessária e urgente, com uma assimetria estrutural clara: o Sul Global concentra a extração, a China monopoliza grande parte do processamento e as economias industrializadas capturam a riqueza tecnológica no Downstream. Nesse contexto, países como o Brasil — dotados de uma forte base geológica — enfrentam o desafio estratégico de superar a condição de exportadores primários para se posicionarem de forma mais soberana nos elos de maior valor da cadeia.

Nesse novo tabuleiro mundial, acelerar projetos minerais não é uma escolha administrativa, mas uma exigência estratégica para defender cadeias produtivas, preservar a autonomia tecnológica e evitar que a dependência energética seja apenas substituída por uma dependência mineral ainda mais vulnerável.

A demanda avança em ritmo sem precedentes, expandindo-se muito mais rapidamente do que a indústria mineral é capaz de ampliar sua oferta. As descobertas de grandes depósitos de classe mundial tornaram-se raras, mais profundas, com teores mais baixos, em contextos mais complexos e menos econômicos, em áreas remotas ou ambientalmente sensíveis. Apenas para atender às necessidades da transição para a energia limpa, a produção global desses minerais deveria ser quadruplicada ao longo da próxima década. As projeções da International Energy Agency (IEA) e da Energy Transitions Commission (ETC) indicam que o mundo precisará de 200 a 250 novas minas até 2030 para atender à demanda — um ritmo impossível nos modelos atuais.

Precisamos, enquanto sociedade globalizada, de muito mais minerais em muito menos tempo — justamente quando o TIME-TO-MINE atinge os seus níveis mais elevados da história. Dados da S&P Global Market Intelligence mostram que o tempo médio entre a descoberta e a produção aumentou de 6,4 anos (1990–1999) para 17,8 anos (2020–2024). Enquanto a agenda climática impõe horizontes de 2030–2040, a indústria mineral responde em ciclos de 15–20 anos — um desalinhamento estrutural que transforma metas de curto prazo em promessas operacionalmente inviáveis. Cada ano de atraso no licenciamento, um dos principais fatores de atrasos sistêmicos, representa perda de mercado, de capital, de previsibilidade e de relevância geoeconômica.

Se levarmos 18 anos para colocar uma mina em operação, então a transição energética depende menos de descobrir novos depósitos e mais de desenvolver, com confiança e credibilidade, os que já existem em novos formatos, inclusive os descartados pelas “Majors”.

Para que o mundo avance rumo à descarbonização com segurança e estabilidade, será necessário transformar profundamente a forma como desenvolvemos projetos. A solução não está apenas em mais dados coletados, mais recursos ou mais tecnologia. Está em atuar de forma verdadeiramente integrada nos pilares de governança, dados e colaboração, criando uma ponte entre técnicos, gestores, investidores, comunidades e reguladores: um projeto de Nação.

Os maiores atrasos em projetos minerais raramente têm origem exclusivamente em desafios geológicos, de engenharia ou de metalurgia. Eles surgem, sobretudo, de fatores não técnicos:

  • governança frágil;
  • processos desarticulados;
  • dados pouco confiáveis, inconsistentes e incompletos;
  • perda relevante de informações entre fases e atividades;
  • comunicação reativa com stakeholders;
  • baixa integração entre as dimensões técnica, ambiental e social;
  • estudos refeitos por decisões tomadas sobre premissas não confirmadas (inclusive em fases avançadas de viabilidade final).

Esse conjunto de fragilidades cria um ciclo contínuo de retrabalho e aumento dos riscos do projeto mineral, o que fragiliza a credibilidade de todo o processo — comprometendo prazos, qualidade e exequibilidade.

A transição energética exige velocidade — e velocidade só é sustentável quando suportada por uma aceleração responsável, capaz de demonstrar, de forma transparente, os riscos e incertezas das múltiplas esferas envolvidas.

Temática iniciada na última edição da revista e que será aprofundada nas subsequentes, o conceito de TIME-TO-MINE deixa de ser apenas uma métrica operacional — o intervalo entre a descoberta e a entrada em produção — e passa a representar um indicador composto de risco regulatório, governança, dados e confiança institucional.  Trata-se, assim, de uma ferramenta da nova ordem geopolítica mineral, na qual o atraso na aprovação e na implantação de projetos não gera apenas ineficiência econômica, mas também expõe países inteiros à dependência estratégica, à vulnerabilidade industrial e à instabilidade energética.

Em um cenário em que minerais críticos se tornaram instrumentos diretos de política externa, acelerar projetos com rigor técnico, integração efetiva entre as dimensões ambientais, sociais e financeiras e previsibilidade regulatória não é uma concessão ao mercado — é uma condição para a soberania industrial e para a viabilidade real do fornecimento de suprimentos para a transição energética.

A mineração brasileira do futuro será tão bem-sucedida quanto for confiável, transparente, orientada por dados de qualidade e sustentada por uma governança capaz de gerar credibilidade interna e internacional. Não se trata mais de discutir se o país deve acelerar, mas como fazê-lo sem comprometer sua credibilidade, sua soberania e seu futuro energético.

1 Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.