Depois de compreender por que o desenvolvimento de novos projetos minerais se tornou mais lento (edição ITM 117) e por que acelerar se tornou uma exigência estratégica da transição energética (edição ITM 118), surge uma pergunta inevitável: onde, de fato, os projetos perdem tempo?
A resposta raramente está na geologia, na engenharia ou na metalurgia. Na maior parte dos casos, os atrasos decorrem de fatores menos visíveis: dados incompletos, incorretos, não rastreáveis ou inconsistentes, retrabalho recorrente, decisões tomadas com base em premissas não validadas e perda de informações ao longo do fluxo de trabalho.
O resultado é um processo recorrente de incerteza, revisões sucessivas e perda de confiança — elementos que ampliam os riscos técnicos, elevam os custos e postergam a entrada em operação de ativos que já poderiam estar produzindo.
Na perspectiva da Aceleração Responsável (Noppé et al., 2025), a redução dos prazos não deve ocorrer à custa do aumento de riscos, mas sim por meio do fortalecimento de estruturas de governança, da melhoria na forma como os dados são utilizados, reportados e validados, e da maior transparência no processo decisório, reconhecendo que muitos atrasos decorrem justamente de falhas internas de processos, governança corporativa e gestão da informação, e não apenas de fatores regulatórios ou externos.
Complementarmente, a abordagem de GeoData Quality Management (GDQM), proposta por Cuchierato (2022), reforça que a aceleração sustentável dos projetos depende diretamente da qualidade dos dados utilizados, garantindo a rastreabilidade, a consistência, a integridade e a confiabilidade das informações.
Compreender essa trajetória de forma integrada é fundamental para entender por que tantos projetos não conseguem avançar conforme o planejado. Embora atrasos sejam frequentemente atribuídos apenas a fatores regulatórios ou ambientais, a experiência prática mostra que suas causas variam amplamente conforme a etapa do projeto, o contexto geopolítico, a commodity envolvida, as estratégias corporativas adotadas e as condições socioambientais locais.
Cuchierato et al. (2025) divulgaram um infográfico atualizado (Figura 01) que apresenta uma visão abrangente e estruturada da jornada de um ativo mineral, destacando as fases de seu ciclo de vida, os entregáveis técnicos essenciais à conformidade regulatória, as atividades críticas associadas a cada etapa e os principais fatores de ESG que influenciam diretamente a percepção de risco e a valorização do projeto, além de evidenciar os momentos críticos de decisão e o equilíbrio entre desafios e atratividade ao longo do tempo.
Utilizando a Curva de Lassonde como referência, observa-se que a percepção de valor dos investidores varia principalmente durante a exploração, quando predominam incertezas geológicas e técnicas e o risco percebido limita a valoração do projeto. A descoberta de recursos pode gerar fases especulativas, normalmente seguidas por ajustes de expectativa à medida que os estudos evoluem.
Com o progresso da exploração e o aumento da confiança nas estimativas — passando de Recursos Inferidos, Indicados e Medidos para Reservas Prováveis e Provadas (Guia CBRR, 2024) —, somados à consolidação dos estudos técnicos, do licenciamento e do financiamento, os riscos diminuem e o projeto avança para a construção e a operação. Nessas etapas, a geração de caixa e o retorno do investimento se tornam tangíveis, elevando significativamente o valor do ativo.
1º ESTÁGIO – Pesquisa Mineral Pioneira e Avançada
Fase inicial do ciclo de vida do projeto mineral, voltada à identificação de áreas com potencial mineral e à redução progressiva das incertezas geológicas. Nessa etapa, são realizadas diversas atividades para integrar as informações disponíveis em escala regional e realizar levantamentos de campo, com foco em compreender aspectos geológicos, geoquímicos e geofísicos, visando identificar anomalias e definir alvos exploratórios prioritários. As atividades incluem mapeamento geológico regional, aquisição e interpretação de dados geofísicos e geoquímicos, análises de sensoriamento remoto e compilação de dados históricos, seguidas de campanhas de amostragem de solo, de sedimentos e de rochas.
Com o avanço dos trabalhos, são conduzidos levantamentos geológicos e geofísicos em maior detalhe, escavações superficiais, trincheiras e os primeiros furos de sondagem exploratória, o que permite o refinamento dos modelos conceituais de gênese e de controles da mineralização.
O objetivo principal dessa fase é transformar anomalias regionais em alvos exploratórios consistentes, estabelecer evidências iniciais de mineralização e selecionar áreas com potencial para avançar para a fase de definição de recursos.
Quanto ao importante fator modificador ESG (Environmental, Social and Governance), as ações ainda são iniciais, mas já são decisivas para viabilizar o avanço do projeto e responder à pergunta crucial de Harris e Steele-Schober (2025): “Uma futura mina pode ser construída aqui?”
Ambiental
Nesta fase, o reconhecimento ambiental inicial passa a integrar o próprio processo de seleção e priorização de alvos exploratórios. Restrições ambientais e territoriais, como áreas sensíveis do ponto de vista ecológico, cultural ou legal, devem ser consideradas desde o início para avaliar não apenas o potencial geológico, mas também a viabilidade futura do empreendimento.
As campanhas de campo são planejadas para minimizar intervenções e evitar áreas de maior sensibilidade, o que contribui para reduzir riscos e restrições nas etapas seguintes do projeto.
Social
A incorporação precoce de aspectos sociais permite orientar decisões exploratórias com base em riscos que podem afetar o desenvolvimento futuro do ativo. Nessa etapa, inicia-se o relacionamento com comunidades locais, proprietários de terras e demais partes interessadas, com o objetivo de esclarecer os objetivos das atividades e compreender o contexto socioeconômico local.
Esse diálogo inicial contribui para antecipar conflitos potenciais, identificar restrições de acesso e estabelecer canais de comunicação que favoreçam a continuidade das atividades nas fases posteriores.
Governança
Sob a ótica da governança, a fase envolve não apenas a obtenção das permissões necessárias à pesquisa e ao acesso às áreas, mas também a incorporação de condicionantes legais e regulatórios à própria avaliação de prospectividade. É fundamental compreender as restrições jurídicas, as limitações de uso do solo e as complexidades do licenciamento para classificar áreas e alvos, considerando riscos futuros ao desenvolvimento do projeto. Paralelamente, iniciam-se a organização e o controle dos dados técnicos e operacionais, assegurando a rastreabilidade e a transparência das informações que sustentarão decisões técnicas e estratégicas nas etapas seguintes.
Imagem em destaque: Figura 01: Ciclo de Vida do Projeto de Mineração – Fonte: Geoansata/Divulgação
Na próxima edição, discutiremos o que é possível fazer para acelerar essa fase. Até lá.
O link para fazer download do ciclo de vida é https://www.geoansata.com.br/infoprodutos
1 Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia.
Referências:
CBRR – Comitê Brasileiro de Recursos e Reservas (2024). Guia CBRR para Declaração de Recursos e Reservas Minerais. Brasil (www.cbrr.org.br)
Cuchierato, G. (2022), A importância da qualidade da informação no processo de declaração de recursos minerais. 293 f. (Tese de Doutoramento em Engenharia de Minas). Departamento de Engenharia de Minas e do Petróleo da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.
Cuchierato, G.; Pisani, J.R.T.; Noppé, M. (2025) Ciclo de vida do projeto mineral. Infoproduto, bilingue. GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia (https://www.geoansata.com.br/infoprodutos)
Harris, E., & Steele-Schober, T. (2025). Integration of sustainability into exploration decision-making. SRK News, Issue 71 – Mineral Exploration Issue. SRK Consulting (www.srk.com/en/srk-news/mineral-exploration-issue-71)
Noppé, M., Savinova, K. and Evans, T., (2025). Responsible acceleration: Preliminary perspectives on the challenges and opportunities for improving mine project development time frames. CRIRSCO Colloquium, Perth, 5 September 2025.

