UMA INTERLOCUTORA DA PLS NA CONSTRUÇÃO DO PROJETO COLINA

UMA INTERLOCUTORA DA PLS NA CONSTRUÇÃO DO PROJETO COLINA

Formada em Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero em São Paulo, cidade onde nasceu e mora, nos intervalos da vida em voos, principalmente para Salinas, norte de Minas Gerais, e para a capital do estado, Belo Horizonte, ela decidiu entrar para a mineração há cerca de três anos. Vinha de uma carreira de 18 anos muito bem-sucedida na Asea Brown Bovery (ABB), gigante das áreas de eletrificação e automação industrial. Foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na corporação, chegando ao cargo de diretora de Comunicação e Marketing da empresa para a América do Sul.

Embora a ABB tenha grandes clientes na área de mineração, a mudança de ares na vida da executiva representou uma guinada de 360 graus. Do escritório refrigerado na capital paulista para a “capital mundial da cachaça”, como é conhecida Salinas, município situado no norte de Minas Gerais, de clima semiárido, com temperaturas elevadas, pouco mais de 40 mil habitantes, produção agropecuária e cujo nome foi derivado da antiga extração de salgema, em meados do século XVII.

E é lá que Marisa Cesar, diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da australiana PLS (ex-Pilbara Minerals), vem construindo o projeto de lítio Colina, junto a órgãos regulamentadores e ambientais de governo, entidades do setor mineral e, principalmente, comunidades locais e originárias, como a do quilombo Olaria Bagres. Em paralelo, junto a outras produtoras de minerais críticos, arquitetou a estruturação de uma associação específica para esse segmento, a AMC. Ao longo do tempo tornou-se, ainda, uma interlocutora respeitada junto ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) e voz ativa nas discussões da nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em elaboração pelo Congresso Nacional e sob relatoria do deputado federal Arnaldo Jardim.

É desses temas, além do projeto Colina, que Marisa fala nesta entrevista exclusiva à In the Mine. Com um viés humanista e uma percepção transversal, que cruza e transcende o eixo principal de seu trabalho em uma mineradora. Sempre buscando um olhar diversificado que, além da capacitação, estudo e atenção, recomenda a jovens formandos de sua área, sem deixar de lembrá-los que a ambição também é um requisito para o crescimento profissional. Ou seja, acreditar na possibilidade de evoluir para alcançar um objetivo maior.

ITM: Para situar nossos leitores, eu gostaria que a senhora nos falasse sobre o projeto Colina, da Pilbara Minerals, fazendo um histórico desde seu início.

Marisa: O projeto Colina nasceu em 2019 e teve sua exploração mineral iniciada pelos geólogos Pedro Fonseca e Rodrigo Menezes. Em 2020 tivemos a pandemia de Covid-19 e, em 2021, começam a ser ampliados o quantitativo de recursos. A Latin Resources, proprietária do projeto à época, através de sua subsidiária brasileira Belo Lithium, decidiu agregar novos investidores ao projeto. No entanto, diferente de outras junior companies que estruturaram off-takes ou receberam recursos de fundos financeiros, ela foi adquirida pela Pilbara Minerals, conforme anúncio divulgado em 14 de agosto de 2024, por cerca de US$ 370 milhões. Foi quando a Pilbara decidiu alterar seu nome, derivado da região onde opera sua mina, na Austrália, já que passaria a operar também na América do Sul, para PLS Group, aproveitando parte do ticker ou da sigla PLS, que identifica a empresa na bolsa daquele país. É o mesmo conceito posteriormente aplicado na mudança do nome do projeto de Salinas, cidade próxima à jazida, em Minas Gerais, para Colina. A aquisição foi concluída em fevereiro de 2025. Quase todos os funcionários da Belo Lithium foram mantidos, com ajustes mínimos em termos de filosofia organizacional já que os valores e a cultura das duas empresas eram praticamente os mesmos.

ITM: Nessa época, o projeto já estava licenciado?

Marisa: Nós recebemos a Licença Ambiental Concomitante 2 (LAC 2), que engloba a Licença Prévia (LP) e a Licença de Instalação (LI), para a primeira fase do projeto quase na mesma época, em 28 de fevereiro de 2025, após somente 13 meses de análise do processo, um prazo recorde em licenciamentos não só em Minas Gerais como no Brasil. Isso porque, como definido pelo governador do estado, Romeu Zema, os projetos relacionados a minerais críticos têm tramitação prioritária. Mas não só. Buscamos, ainda enquanto Latin Resources e depois como PLS, antecipar todos os estudos que poderiam ser demandados pelos órgãos ambientais. Incluindo a interface com as comunidades locais, por exemplo, com a comunidade quilombola Olaria Bagres, onde realizamos a consulta prévia livre e informada dos moradores, explicando o projeto com absoluta transparência. Assim, obtivemos um ganho muito significativo de tempo.

ITM: E qual é a fase atual do projeto?

Marisa: Após o licenciamento, iniciamos uma etapa de olhar para a engenharia que havia sido desenhada para o projeto e avaliar se ela realmente fazia sentido, sob a ótica e considerando a expertise da PLS na produção de lítio. Os ajustes desse desenho estão sendo finalizados e devem ser concluídos até meados de março de 2026. Além desses ajustes, temos intervenções que precisam ser realizadas na localidade e que antecedem a implantação do empreendimento. É o caso, por exemplo, da ampliação e melhorias em uma estrada vicinal que liga a área próxima à mina à rodovia Salinas/Pedra Azul (BR-251), necessárias tanto para a etapa de construção da mina quanto, posteriormente, para o escoamento de sua produção; da construção de uma adutora para o fornecimento de água; e da instalação de uma linha de transmissão de energia elétrica, que está sendo desenvolvida em conjunto com a CEMIG (companhia energética de Minas Gerais). Em paralelo, continuamos com os trabalhos de sondagem, buscando aumentar o quantitativo de nossos recursos minerais. Inclusive, participamos da chamada pública do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) com uma solução tecnológica de transformação mineral, que acabou sendo uma das 56 propostas selecionadas entre as mais de cem concorrentes.

ITM: Vocês receberão um financiamento para instalar uma planta de beneficiamento de lítio no Brasil?

Marisa: Nós já temos uma linha de crédito robusta fora do país. Para haver a captação de recursos do BNDES há algumas questões a serem analisadas. Entre elas, a taxa de juros que é muito mais elevada no Brasil, em comparação a outros países. O que importa é que nosso modelo foi validado. Na Austrália, a PLS está iniciando a operação de um planta piloto mid-stream, que utiliza uma tecnologia inédita de calcinação elétrica para transformar o concentrado de espodumênio em um produto de maior valor agregado. Claro que tanto eu, quanto Leandro Gobbo (vice-presidente da PLS no Brasil) e Pedro Fonseca, diretor de exploração, sendo brasileiros, temos expectativas de trazer essa cadeia de transformação mineral para o projeto Colina. Obviamente, estamos realizando interlocuções junto a instâncias públicas de governo para definir condições mais competitivas para instalar uma planta de refino intermediária, como é a da PLS na Austrália.

ITM: Em sua opinião, quais são os principais fatores que podem facilitar e, por outro lado, dificultar a obtenção do licenciamento de um projeto mineral?

Marisa: Primeiramente, acredito que a obtenção do licenciamento passa por uma comunicação transparente. Em segundo lugar, comunicar somente o que realmente será possível realizar. Em terceiro lugar, não utilizar artifícios e fazer muito marketing do projeto. Esses pontos podem impactar muito no relacionamento com os stakeholders, sejam o governo local, do estado ou federal, sejam ONGs (Organizações Não Governamentais), fornecedores potenciais, comunidades locais e os próprios moradores da cidade, que não são das comunidades. A empresa pode até conseguir a Licença Social de Operação, mas ela não será consistente nem duradoura.

ITM:  E quanto aos complicadores?

Marisa: Um complicador, sem dúvida, são os movimentos contrários à mineração, que não reconhecem a importância da atividade. Nesse caso, é preciso elevar o nível de conhecimento das pessoas, em especial no que se refere às mudanças climáticas e à necessidade de uma transição energética justa, o que depende diretamente dos minerais críticos. A questão das barragens de rejeito é outro problema, porque a opinião pública, no geral, não tem muita clareza do que é uma barragem, uma pilha de estéril ou uma pilha de rejeitos a seco. Além disso, a Agência Nacional de Mineração (ANM) está sem recursos para acompanhar as operações e projetos no dia a dia. Precisamos de vistorias frequentes, independente de ser uma empresa de pequeno, médio ou grande porte, inclusive para ter uma certa previsibilidade e detectar, a tempo, falhas estruturais que poderiam ser facilmente corrigidas. Também temos os gargalos dos processos de licenciamento ambiental, que não têm nem regulação nem uma autoridade decisória únicas. É preciso articular com um número exaustivo de pessoas em órgãos diversos apenas para se obter uma Licença Prévia. Essa situação de instabilidade e insegurança jurídica também gera desconfiança nos investidores.

ITM: Esse longo percurso também acaba comprometendo o cronograma do projeto, certo?

Marisa: Exato. Quando a empresa precisa ter o máximo de previsibilidade para realizar seu planejamento. Então, ela deve ter uma equipe que entenda muito de licenciamento, do ponto de vista técnico, e que saiba quem está do outro lado da mesa, falando pelo governo, além dos órgãos intervenientes que podem interferir no processo. Recentemente, devido à Operação Rejeito (fraudes em licenciamentos ambientais), em Minas Gerais, os técnicos ficaram muito relutantes em assinar os processos porque podem ser futuramente responsabilizados por um eventual impacto do projeto. Assim, as empresas ficam presas a uma situação que vai se arrastando, gerando novamente um clima de insegurança jurídica e fugindo ao fluxo habitual do processo.

ITM: Ainda nesse tema, mas falando especificamente da PLS, como tem evoluído o relacionamento de sua área junto a órgãos institucionais e governamentais?

Marisa: Modéstia à parte, temos um ótimo relacionamento na localidade e uma ótima aceitação pelo governo local, da parte do prefeito Joaquim Neres Xavier Dias (Kinca Dias), assim como do governador Romeu Zema e também no âmbito federal. Obviamente, quando preciso ter as três esferas de governo juntas, uso o cerimonial, começando com o nível hierárquico superior, como o Ministério Federal, seguindo para o governo estadual e depois para o município. Essa forma de tratamento pode fazer muita diferença se não for observada e melindrar o relacionamento. Além disso, temos realizado ações que contribuem muito para essa interação. Por exemplo, o processo de escuta com as secretarias municipais de Educação e Saúde, com a Polícia Militar, Guarda Municipal, o Corpo de Bombeiros etc., para entender os desafios de cada área e saber como podemos contribuir para melhorar a localidade. Até porque, nossa operação vai atrair pessoas de cidades vizinhas, como Araçuaí e Fruta de Leite, impactando na infraestrutura da cidade.

ITM: Quais têm sido essas contribuições?

Marisa: Fizemos a doação de um terreno para implantação de um aterro sanitário e estamos concluindo uma doação de R$ 600 mil em equipamentos hospitalares para o hospital municipal. Também estamos investindo na reforma de 31 poços artesianos em comunidades que nem são as nossas, para melhorar a produção agrícola local. Em 2021, quando houve uma grande enchente na cidade, doamos R$ 500 mil para restaurar um muro de gabião que havia sido danificado, na orla do rio Salinas, de forma a prevenir futuros alagamentos. Contribuímos também com a avaliação do solo do aeroporto visando expandir sua capacidade, um investimento já aprovado pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) após várias articulações das quais participamos, em conjunto com outros órgãos. Sempre, dentro de nossas possibilidades, visto que ainda não estamos em operação e não geramos lucro, mas com a perspectiva de trazer um cenário melhor para a localidade e para as pessoas que lá residem e não somente pensando em nosso projeto.

ITM: Além desses investimentos em infraestrutura, há ações também na área social?

Marisa: Sim. Investimos mais de R$ 500 mil para instalar a nova sede da Guarda Mirim, um projeto que capacita adolescentes para seu primeiro emprego. As vagas eram apenas nas secretarias da Prefeitura, mas já mostramos interesse em contratar esses jovens, porque acreditamos ser uma forma de tirá-los de uma situação de vulnerabilidade. Também construímos uma creche, que será operada pela Secretaria de Educação da cidade, revitalizamos uma fábrica de farinha que vai gerar cerca de 300 empregos e realizamos melhorias em associações locais, como a ampliação da sede e doação de instrumentos musicais para o resgate da tradição cultural da comunidade quilombola Olaria Bagres. Também concluímos em setembro de 2025, a instalação de três torres de rede móvel 4G, abrindo o sinal de Internet para todas as comunidades locais.

ITM: Em termos de sustentabilidade ambiental, quais configurações serão adotadas no Projeto Colina?

Marisa: Dois pontos fundamentais são o reuso de água e o uso de fontes sustentáveis de energia. O reuso de água já é adotado nos trabalhos de sondagem porque empregamos sondas modulares. Quanto à energia, a PLS instalou um parque solar gigantesco em sua mina na Austrália para reduzir o consumo de fontes termelétricas. No Brasil temos tanto a matriz de geração hidrelétrica quanto a solar. Inicialmente usaremos a fonte hidrelétrica, mas também planejamos uma usina solar no futuro, que poderá contribuir com o abastecimento da mina. Já estamos também avaliando a aquisição de veículos híbridos para substituir aos poucos nossas pick-ups a diesel. Para o transporte do minério, uma possibilidade, no longo prazo, é utilizar a Ferrovia Bahia-Minas, que liga as cidades de Caravelas, na Bahia, a Araçuaí, vizinha de Salinas, paralisada há 60 anos e cuja reativação pela concessionária MTC (Multimodal Caravelas) já foi autorizada pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Então poderemos substituir os caminhões rodoviários a diesel, o que será um grande marco para a descarbonização de nossa operação.

ITM: E quanto às outras emissões, em especial pela frota de lavra e transporte interno da mina?

Marisa: Nossa meta, nesse caso, é repetir aqui a mesma trajetória da PLS na Austrália, que já reduziu as emissões de escopo 2 (consumo de energia comprada) e planeja reduzir as de escopo 3 (cadeia de valor – fornecedores, transporte, uso de produtos etc.), que é a mais difícil de efetivar, até 2030. Mas além da preocupação ambiental, também queremos fazer uma transição justa do ponto de vista social, através da capacitação profissional e geração de empregos. Nesse sentido teremos tanto cursos específicos, como o de técnico de mineração, quanto o de soldador, por exemplo, que servem a outros setores produtivos, inclusive para as destilarias de cachaça, importante atividade econômica local que, inclusive, deu a Salinas uma infraestrutura muito mais desenvolvida em comparação às cidades vizinhas.

ITM: Perfeito. Voltando à operação, só para esclarecer, o projeto inclui barragem de rejeitos?

Marisa: Não. Os rejeitos serão filtrados e empilhados a seco, podendo ser reaproveitados como insumo em obras de pavimentação pela prefeitura local ou para produção de cerâmica, por exemplo. Haverá uma pilha para os rejeitos e outra para o estéril.

ITM: A semelhança da lavra de lítio em rocha dura com a operação australiana da PLS deve influenciar na adoção de soluções semelhantes no projeto?

Marisa: Sim, essa semelhança é um enorme facilitador porque a PLS já tem expertise na lavra de espodumênio. Então, a possibilidade de se cometer erros é muito menor. Mesmo no processo de beneficiamento. O redesenho da engenharia da planta, como já lhe falei, é baseado no histórico da mina australiana.

ITM: Mudando de assunto, a senhora é presidente do Conselho da Associação de Minerais Críticos (AMC), lançada em 25 de novembro de 2025. Por que criar uma entidade específica em lugar de recorrer ao IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração)?

Marisa: Quando surgiu a ideia da AMC, eu, Frederico Bedran Oliveira (advogado, geólogo e presidente da associação), Marcelo de Carvalho (diretor executivo da Meteoric Resources) e Ricardo Alves (diretor executivo da Graphcoa), nos reunimos com Raul Jungmann, uma pessoa muito querida, e Fernando Azevedo e Silva, à época diretor-presidente e vice-presidente do IBRAM. Jungmann teve uma ótima aceitação da AMC e, inclusive, entendeu que as duas entidades poderiam trabalhar em parceria. Esse alinhamento vem acontecendo desde então. O IBRAM tem um trabalho fantástico, mas atua com diferentes tipos de mineração. Já os minerais críticos se tornaram rapidamente muito importantes em termos geopolíticos, o que abriu uma janela de oportunidades para o Brasil, considerado um celeiro dessas substâncias. Nesse contexto só há duas possibilidades: ou aproveitamos essa janela ou ficamos atrás dos outros países. Por isso achamos necessário nos apropriarmos da interlocução sobre o tema, de forma a fazê-la conjuntamente e realmente impactar em sua discussão.

ITM: Vocês estão participando Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM)?

Marisa: Sim. Fomos convidados a participar do Grupo de Trabalho de Minerais Críticos, um dos quatro criados no CNPM, juntamente com a Meteoric Resources, de terras raras, a Graphcoa, de grafite, a Atlantic Níquel, de níquel, e a Vale Base Metals, de cobre. Ao falarem de sua realidade, essas empresas ganham visibilidade e conseguem trazer maior lucidez para a temática, atuando como interlocutores ativos. Ainda assim, quando Anderson Barreto Arruda (diretor de Transformação e Tecnologia Mineral do Ministério de Minas e Energia – MME) me disse para fazermos uma apresentação sobre minerais críticos, recomendei que esse papel caberia ao IBRAM, que tem uma contextualização mais abrangente sobre o assunto. Nós, a PLS e as outras empresas, podemos discutir mecanismos de licenciamento e financiamento internacionais, com exemplos reais, trabalhando no detalhamento dos minerais críticos. Para isso definimos três temáticas.

ITM: Quais são essas temáticas?

Marisa: A primeira é o licenciamento ambiental. Nós tivemos a aprovação do PL 2.159/21, que ainda precisa de um decreto que defina as normas para sua implementação. O que vai demandar a continuidade da articulação para que a lei realmente entre em vigor. Outra temática é a dos mecanismos de garantia, principalmente para as junior companies, que não têm uma planta em produção para oferecer como garantia de financiamento de forma a obter recursos do BNDES. Já nos bancos locais, o valor é ainda mais gritante que nos bancos internacionais por conta da taxa de juros. Por isso, estamos discutindo a possibilidade de criar um fundo garantidor, um processo que começamos há mais de um ano em conversas com o BNDES e com bancos internacionais. Independente de ser composto por recursos públicos ou privados. O que importa é viabilizar a implementação dos projetos. Se houver prejuízo, ele será compartilhado entre os participantes do fundo. Outra solução é poder investir parte da produção futura, declarando no imposto como investimento em tecnologia, viabilizando que se traga a cadeia de valor, a transformação mineral, para o Brasil.

ITM: E a terceira temática?

Marisa: É a previsibilidade e a segurança jurídica. Para isso, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos – PNMCE, que está sendo discutida no PL nº 2780/2024, é essencial. Não sou a favor da centralização das decisões em uma única instância. Mas, os organismos precisam ser independentes e ter credibilidade, sem a interferência de órgãos intervenientes. Toda licença ambiental possui condicionantes que as empresas devem cumprir em prazos pré-definidos. Essas condicionantes deveriam bastar para assegurar a operação.

ITM: Voltando a AMC, quantas empresas se associaram?

Marisa: Nascemos com nove empresas e já temos a confirmação de mais seis. Nossa expectativa é chegar ao final de março, após o PDAC (evento sobre exploração e desenvolvimento mineral realizado anualmente em Toronto, no Canadá), a cerca de 20 empresas e, até o final do ano, a um número entre 40 e 50 empresas. A associação está dividida por categoria. Além das mineradoras que produzem minerais críticos, temos por exemplo, entidades parceiras e fornecedores, cada uma com um peso diferenciado no sistema de votação. Todos são organismos que têm impacto em nosso setor. No caso das mineradoras seguimos a listagem atual dos minerais classificados como críticos atualmente.

ITM: Vocês têm contribuído também com a elaboração do PL 2780/2024?

Marisa: Sim. Já contribuímos com parte do conteúdo desse Projeto de Lei lá atrás, junto ao Zé Silva e, posteriormente com o Arnaldo Jardim (deputado federal e relator do projeto). Obviamente há pontos sobre os quais eu discordo e que poderiam ser melhorados. Por exemplo, o percentual que a empresa precisará investir em tecnologia. Continuamos conversando e trabalhando nisso. Mas este é um ano eleitoral e podem ocorrer mudanças de cadeiras, muitas vezes estratégicas. Nossa ideia é elaborar um documento sobre os minerais críticos para apresentar aos candidatos, tanto presidenciáveis quanto aos governos estaduais, em especial da Bahia, Goiás, Pará e Minas Gerais, que são os grandes produtores.

ITM: A AMC apoia a verticalização da cadeia produtiva de minerais críticos defendida pelo governo federal?

Marisa: Essa é uma questão que entra na temática do financiamento. Porque essa cadeia de transformação mineral depende de investimentos. Não se trata somente de deter a tecnologia para o beneficiamento do minério. Precisamos ter um fabricante que utilize esse insumo. Então, deve-se pensar em convidar essas empresas a instalar suas plantas no Brasil No comparativo com outros países, esse convite envolve, por exemplo, a concessão de benefícios fiscais ou de desoneração tributária. A Meteoric Resources vai receber US$ 50 milhões do governo da Austrália para seu projeto de terras raras no Brasil. Outros países têm uma janela de financiamento para que a primeira parcela seja paga após 10 anos da concessão do crédito. Além disso há o custo de operação, que é um para a exportação do minério cru e outro para a do beneficiado. Nesse segundo caso, a produção da mina deve ser suficiente para suportar o valor de instalação da planta de beneficiamento. Por isso precisamos de uma política nacional que nos permita ser competitivos perante outros países.

ITM: Em sua opinião, como é possível reverter a imagem negativa que a mineração tem para a sociedade em geral?

Marisa: Acho que essa reversão depende muito do exercício de cada empresa. No geral, a imagem não muda em razão apenas de trabalho social, da interlocução com a comunidade, de matéria em jornal ou de um evento. A empresa precisa fazer sua parte através de um esforço contínuo. Há empresas que trabalham de forma mais efetiva em todas as frentes, outras são mais focadas no aspecto social, outras nas relações com o governo. Para mim, o que funciona é tentar abraçar ao máximo todos os stakeholders, realizando reuniões e encontros, em especial com as pessoas que são contra a mineração. Não é fácil. Por isso falei antes da necessidade de uma comunicação transparente. É preciso informar que a mineração tem impacto negativo, mas que há programas para mitigar, tanto os obrigatórios quanto os adicionais. Não adianta falar só dos benefícios. No meu time, essa transparência é obrigatória. Porque é preciso estar disposto a ter a conversa difícil, não só a fácil.

ITM: Para finalizar, o que é, em sua opinião, uma mineração sustentável?

Marisa: Para mim é a mineração construída com base na convergência. Desde a área da governança, passando pelo conhecimento técnico, área ambiental, área de saúde e segurança e escuta ativa, envolvendo todos os stakeholders. Sendo que o primeiro stakeholder que eu tenho que cuidar é o meu funcionário. E, depois, obviamente, a comunidade no entorno, que será total e diretamente impactada, mesmo que você esteja a uma certa distância da operação. É preciso, volto a falar, escutar a comunidade e os stakeholders, para torná-los participantes ativos do seu projeto. Escutar e conversar, trazendo materialidade para essa relação. E também conversar e escutar internamente. Sou responsável pela área de Sustentabilidade, mas não faço nada sozinha. Preciso ouvir as outras áreas da empresa para ter uma perspectiva conjunta e não apenas a minha.

Marisa Cesar

Perfil

Nasceu em: 21/07/1967, em São Paulo (SP)

Mora em: São Paulo (SP), mas vivo em aviões. Só em 2025 foram 102 voos

Formação acadêmica: Relações Públicas pela Faculdade Cásper Líbero. Pós-graduação em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Especialização em Business Administration pela IMD de Lausanne. Curso de Formação para Conselheiros pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)

Trajetória profissional: Entre outras empresas, Natura Cosméticos, Grupo Accor e, a partir de 1998, Asea Brown Boveri (ABB), onde fiquei 18 anos, chegando a ser a primeira mulher a ser nomeada diretora corporativa, em 2011, respondendo pelas áreas de Comunicação e Marketing da América do Sul. Cinco anos antes, eu já era diretora do Instituto ABB, que tem um projeto social voltado a crianças em situação vulnerável. Ao sair, passei por um período difícil por ser over qualified e precisei me reinventar. Abri uma consultoria em governança, sustentabilidade e comunicação e, depois, assumi cargos em várias empresas, até decidir me aventurar na mineração, considerando a experiência na ABB, cuja maior cliente é a Vale. Através do Linkedin, contatei Chris Gale, fundador e CEO da Latin Resources, agora PLS, que me contratou há quase três anos, em 2023

Família: Divorciada e casada novamente há 17 anos, com dois filhos do primeiro casamento, a Tatyane e o Nicolas, além do Buzz, um Shih Tzu com 7 anos. Tínhamos o Bob também, com 18 anos, mas o perdemos no final de 2025

Time de futebol: Palmeiras

Hobby: Balé. Não faço hoje, mas era bailarina aos 13 anos e, aos 17, me tornei professora

Um mestre ou ídolo: Meu pai, Mário de Oliveira César. Tinha perfil militar era da Associação dos Diplomados pela Escola Superior de Guerra, e sempre investiu muito nos estudos dos filhos. Apesar de durão nunca me julgou quando decidi fazer Jornalismo e depois mudei para Relações Públicas, duas profissões de “bicho-grilo” (hippie), como se falava então. Sempre me apoiou, até porque o pai dele foi diretor do jornal Correio Paulistano. Ele, inclusive, pagou minha pós-graduação, quando eu já era casada. Muitas pessoas dizem que seus ídolos são figuras importantes. Eu acho que temos ídolos em nossa própria casa e, muitas vezes, não damos o devido valor a eles

Maior decepção até hoje: A saída de uma empresa de uma forma que todos consideraram injusta. Mas aprendi com isso e fiquei mais atenta e mais preparada

Maior realização: Ter sustentado os meus filhos. Quando me separei, recebi apenas 11 parcelas de pensão e meus filhos tinham 7 e 11 anos. Tanto que eles têm o maior orgulho de mim porque sabem todo o esforço que fiz por eles

Um projeto de vida: O projeto profissional é poder, cada vez mais, contribuir com o desenvolvimento das pessoas, na empresa e no âmbito externo, nas comunidades onde atuamos, cuja realidade é completamente diferente da nossa

Um “conselho” a jovens formandos na área de Comunicação Social: Pensando na minha própria jornada, acho que mesmo tendo uma formação específica, o profissional precisa buscar um olhar mais diversificado para outras áreas, ao mesmo tempo se capacitando e estudando para assumir desafios. Outro ponto é que somos nós quem fazemos nossa carreira, É preciso estar atento para as oportunidades e para os feedbacks que recebemos. E, por fim, saber que para crescer é preciso também ter ambição.

Fotos: PLS/Divulgação

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