ESTABILIDADE À VISTA, COM HORIZONTE DE TRANSFORMAÇÃO

ESTABILIDADE À VISTA, COM HORIZONTE DE TRANSFORMAÇÃO

Por Júlio Nery, diretor de Assuntos Minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM)

O ano de 2026 tende a ser de estabilidade para a mineração brasileira. Após um ciclo de incertezas econômicas globais e pressões geopolíticas sobre o comércio de commodities, o setor deve manter níveis semelhantes de produção e de preços em relação a 2025. No curto prazo, a previsão, portanto, é de moderação.

Mesmo com a entrada em produção de projetos de minério de ferro, inclusive fora do país, não deverá haver impacto significativo em termos de mercado no próximo ano; a produção nacional tende a se manter próxima aos volumes atuais. Pequenas variações podem ocorrer, mas sem impacto estrutural relevante.

Essa estabilidade, no entanto, não é sinal de estagnação. Ela é a base sobre a qual o Brasil pode construir seu papel de protagonista na mais importante corrida global deste século: a transição para uma economia de baixo carbono, que exigirá volumes crescentes de minerais para fazer frente às mudanças climáticas.

A verdadeira revolução da indústria mineral está na explosão da demanda por minerais críticos e estratégicos, que agregam, inclusive, os minérios ditos tradicionais, como o próprio ferro, a bauxita e o cobre, entre outros. Esses elementos são os ‘tijolos de alta tecnologia’ que constroem o futuro. São essenciais para baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e redes inteligentes. Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que a demanda por alguns desses minerais pode se multiplicar por seis até 2040, se forem efetivadas as metas para emissões zero.

O mundo sinaliza fortemente o interesse em desenvolver uma economia de baixo carbono. O Brasil, com sua matriz elétrica 90% renovável e vasto potencial mineral, participa desse movimento com uma vantagem singular: possui a única “fábrica” capaz de produzir esses tijolos utilizando energia limpa.

Estudos do IBRAM mostram que, se o Brasil converter parte de seu potencial geológico em minas ativas, o impacto econômico desses investimentos pode variar entre R$ 115 bilhões e R$ 186 bilhões, o que representaria de 20% a 30% do Produto Interno Bruto mineral projetado para 2050. Para isso, o país precisará acelerar a exploração e a produção de minerais críticos, superando gargalos regulatórios e ampliando o acesso a financiamento.

O governo federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criaram um Fundo de Investimento em Participações de R$ 1 bilhão destinado a projetos de minerais voltados à transição energética. O BNDES aportará até R$ 250 milhões, equivalentes a 25% do total, com o restante proveniente de investidores nacionais e internacionais. Projeções indicam que o valor inicial poderá dobrar. O fundo deverá investir em até 20 empresas com projetos de pesquisa, desenvolvimento e implantação de novas minas de minerais críticos no Brasil. Além disso, o Comitê Interministerial de Análise de Projetos de Minerais Estratégicos já habilitou 19 projetos que somam R$ 68 bilhões em investimentos, incluindo empreendimentos de ferro, potássio, cobre e terras raras.

Contudo, esse potencial não se concretiza por acaso. A jornada para transformar reservas em riqueza exige superar desafios históricos: desburocratizar o licenciamento, estimular um ambiente de negócios estável, atrair capital de risco para as empresas de médio porte, que são o motor da exploração mineral global, e criar instrumentos financeiros adequados ao risco da atividade.

Assim, enxergar 2026 apenas pela lente da estabilidade de produção mineral ou de preços das commodities é perder o essencial. Estamos diante de uma janela histórica de oportunidade. A transição energética global é nosso trunfo. Nela, o Brasil não é mero fornecedor de matérias-primas, mas um sócio estratégico. A estabilidade de 2026, repito, é o porto seguro de onde devemos zarpar para conquistar esse futuro.

Foto: IBRAM/Glenio Campregher

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