TIME-TO-MINE: COMO ACELERAR A JORNADA DA DESCOBERTA À MINA?

Glaucia

“Desenvolvimento responsável e acelerado”. Foi com essa mensagem de abertura que Mark Noppé, CEO da JKTech, empresa de transferência tecnológica da Universidade de Queensland e do Sustainable Minerals Institute, inaugurou sua palestra no Colloquium CRIRSCO 2025. O evento aconteceu no último mês de setembro em Perth, Austrália, na semana da realização do Critical Minerals Conference AusIMM e da Annual General Meeting CRIRSCO.

Diante do turbulento contexto geopolítico, o debate sobre a oferta de minerais essenciais para atender às demandas urgentes da transição energética e da descarbonização ganhou força sem precedentes e o Brasil está muito bem localizado nesta discussão.

Dessa forma, segundo Noppé, acelerar o desenvolvimento de projetos minerais não é apenas uma questão técnica ou de gestão de prazos. A velocidade com que uma mina chega à produção impacta diretamente a confiança dos investidores, dos financiadores e das autoridades, além de influenciar a percepção pública sobre a capacidade da indústria de atuar de forma responsável. A pressa, quando dissociada de boas práticas, amplifica riscos já conhecidos — sociais, ambientais, técnicos e reputacionais —, podendo comprometer a obtenção de licenças, a aceitação comunitária e, em última instância, a viabilidade econômica do projeto.

Descobertas de novos depósitos minerais tornaram-se menos frequentes, sobretudo os de classe mundial. Os depósitos identificados situam-se, em geral, a maiores profundidades e apresentam teores mais baixos e de menor qualidade, em locais mais remotos e com menor infraestrutura disponível, em fronteiras menos exploradas e incertas, o que eleva a complexidade técnica e aumenta significativamente os custos de exploração e produção.

Dados da consultoria S&P indicam que o número de descobertas significativas de cobre e ouro caiu nos últimos 15 anos. Entre 2010 e 2016 houve 22 descobertas relevantes de cobre e 36 de ouro. Entre 2017 e 2023, esses números caíram para sete, no caso do cobre, e 11, no caso do ouro.

A obtenção de aprovações regulatórias para projetos de exploração está se tornando mais difícil em muitos lugares, à medida que comunidades locais, grupos ambientais e outros stakeholders exigem práticas mais sustentáveis.

Ainda segundo a S&P, o tempo médio para que uma mina entre em operação quase triplicou: passou de 6,4 anos (1990-1999) para 17,8 anos (2020-2024), conforme observado na Figura 1.  A projeção para os próximos períodos é de clara tendência de aumento desse tempo, devido a inúmeros fatores, que serão mais bem discutidos a seguir.

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Figura 1 – Evolução do tempo médio para a mina entrar em produção

Em 2023, a S&P divulgou um estudo sobre 136 minas, de diversos países e commodities, analisando o tempo médio entre a descoberta do ativo e sua entrada em operação. Em 2024, esse estudo foi ampliado para 214 minas (Figura 2).

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Figura 2 – Tempo médio para a mina entrar em produção, por país

Entre as commodities, o níquel tem o ciclo mais longo, de 18,6 anos, enquanto o ouro apresenta o mais curto, de 14,2 anos. No Brasil, o tempo médio para que uma mina entre em operação caiu de 20,2 para 17,2 anos, alinhando-se à tendência global de redução, que passou de 16,3 para 15,5 anos entre a descoberta do depósito e o início da produção.

Por que os projetos atrasam?

Toby Whincup e Jacco Kroon, da consultoria ERM, publicaram em setembro de 2025 uma análise de 226 projetos de mineração que revela pontos críticos e estratégias que as empresas de mineração podem adotar para reduzir drasticamente o tempo entre a descoberta de um ativo econômico e a entrada em operação de uma mina.

O estudo, apresentado em 2023 para 162 projetos de minerais críticos em desenvolvimento desde 2015, foi ampliado, em 2025, em mais 144 projetos de ouro. Dos 306 projetos, 226 tinham informações relacionadas ao cronograma: 96 de ouro e 132 de minerais críticos – cobalto, cobre, grafite, lítio, manganês, níquel, terras raras e lantanídeos e zinco.

Para cada projeto, a ERM analisou declarações de empresas, relatórios de auditoria, notícias e outras fontes para avaliar se os projetos sofreram atrasos e, em caso afirmativo, em que medida e por quais motivos. Com base nessa análise, verificou-se que os atrasos são generalizados, concentrando-se sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento:

  • 64% dos projetos relataram atrasos na fase de pré-produção; e
  • quase 50% de todos os atrasos ocorreram antes da conclusão da fase de viabilidade.

 Os atrasos não são exceção, mas sintoma de um ambiente regulatório, social e técnico cada vez mais complexo. A volatilidade dos preços dos minerais críticos adiciona imprevisibilidade ao planejamento de investimentos. As causas dos atrasos decorrem de uma combinação de fatores interdependentes, que afetam tanto o ritmo quanto a previsibilidade do desenvolvimento. Entre os mais frequentes, destacam-se:

 

Causa do atraso Percentual (%) Principais fatores
Permissões e licenciamento 45 Atrasos ou revogações devidos a questões regulatórias ou pressões de partes interessadas
Questões comerciais 32 Disputas entre parceiros, acesso insuficiente a financiamento ou forças de mercado adversas, disputas com governos e outras partes sobre divisão de receitas (por exemplo, impostos, royalties, investimento social)
Stakeholders 26 Oposição ao desenvolvimento do ativo por parte das comunidades locais, ONGs, ativistas e, em alguns casos, governos
Desafios técnicos 26 Atrasos relacionados à viabilidade técnica do projeto (por exemplo, limitações de projeto, problemas na cadeia de suprimentos, considerações geológicas e acesso à infraestrutura essencial) que aumentam os custos do projeto
Questões ambientais 24 Preocupações quanto aos impactos, como poluição, gestão de resíduos, água e qualidade do ar.
Saúde e segurança 4 Deficiências nos sistemas de gestão de segurança, competência da força de trabalho ou cultura de risco

Whincup & Kroon (2025) destacam que o sucesso no desenvolvimento de minas resilientes depende de um conjunto integrado de ações, que reduzem incertezas e melhoram a previsibilidade dos projetos desde as fases iniciais. Antecipar riscos e coletar dados críticos de forma sistemática permite decisões mais informadas. A liderança transparente, somada à cocriação de soluções, impulsiona a aceitação social, a cooperação entre as partes e a legitimidade da governança, sustentando avanços mesmo em cenários de rápida mudança. Ao transformar dados dispersos em inteligência, novas tecnologias como a IA (Inteligência Artificial) encurtam prazos e fortalecem a robustez socioambiental e econômica dos empreendimentos.

Para que a aceleração seja responsável, Noppé (2025) defende uma mudança de abordagem: é necessário integrar dados de qualidade, governança transparente e engajamento precoce e consistente com as partes interessadas. O objetivo não é apenas reduzir o cronograma entre descoberta e produção, mas fazê-lo de maneira que a credibilidade das decisões técnicas e econômicas seja preservada e que o projeto contribua para o desenvolvimento sustentável.

“O futuro da mineração — especialmente em um contexto de transição energética — dependerá da capacidade de acelerar de forma colaborativa e transparente, com investidores, governos, comunidades e operadores agindo em sintonia”. MARK NOPPÉ (2025).

A partir desta edição, proponho uma nova forma de enfrentar esses desafios: construir, de forma colaborativa, um sistema de inteligência capaz de acelerar cada etapa do desenvolvimento dos projetos, assegurando a oferta de minerais críticos e estratégicos com menor risco, maior previsibilidade e prazos mais curtos — sempre com responsabilidade, transparência e qualidade.

1 Geóloga e Mestre em Recursos Minerais pelo IGc-USP, Doutora em Engenharia Mineral pelo PMI-EPUSP e Diretora Executiva da GeoAnsata Projetos e Serviços em Geologia.

Referências

MANALO, P. Average lead time almost 18 years for mines started in 2020–23. S&P Global Market Intelligence, 10 abr. 2024. Disponível em: https://www.spglobal.com/market-intelligence/en/news-insights/research/average-lead-time-almost-18-years-for-mines-started-in-2020-23. Acesso em: 7 out. 2025.

MANALO, P. Discovery to production averages 15.7 years for 127 mines. S&P Global Market Intelligence, 6 jun. 2023. Disponível em: https://www.spglobal.com/market-intelligence/en/news-insights/research/discovery-to-production-averages-15-7-years-for-127-mines. Acesso em: 7 out. 2025.

NOPPÉ, M.; SAVINOVA, K.; EVANS, T. Responsible Acceleration: Preliminary perspectives on the challenges and opportunities for improving mine project development time frames. CRIRSCO Colloquium, Perth, 5 set. 2025. Disponível em: https://www.crirsco.com/. Acesso em: 7 out. 2025.

WHINCUP, T.; KROON, J. Mission Critical: Building resilient mines for a modern society. Londres: ERM, 2025. Disponível em: https://www.erm.com/insights/mission-critical-resilient-mines-for-a-modern-society/ Acesso em: 7 out. 2025.

 

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