Por Gil Ribeiro e Wanderson Silvério Silva*
A Samarco tem dedicado esforços, estudos e investimentos para aperfeiçoar a destinação do rejeito gerado em seu processo produtivo. Com foco na prática contínua de uma mineração sustentável, o aproveitamento e a disposição dos rejeitos gerados são pautas constantes na empresa, envolvendo conhecimentos multidisciplinares que resultam em um projeto inovador de adição de lama ao material empilhado, com estimativa de redução de cerca de 30% da massa de lama enviada para uma cava de mineração, contabilizando também ganhos operacionais e ambientais.
A empresa retomou suas atividades operacionais em dezembro de 2020, sem o uso de barragem de rejeito. Cerca de 80% de todo rejeito, predominantemente arenoso, é filtrado e disposto pelo método de empilhamento a seco, dry stacking em inglês. Os 20% restantes, que apresentam uma granulometria mais fina, são dispostos em cava da própria mineração.
Entre as iniciativas implementadas, a Samarco conduz um programa de inovação com foco em aproveitamento de rejeitos, com destaque para o uso do material arenoso na pavimentação de estradas vicinais e para a aplicação de cerca de 18 milhões de toneladas de rejeito arenoso nas obras de descaracterização de barragens. Essa estratégia, além de reduzir a necessidade de estruturas tradicionais de disposição, imprime mais circularidade ao processo produtivo e contribui para maior estabilidade das áreas em recuperação.

A empresa também está desenvolvendo um projeto para viabilizar o empilhamento de uma parcela da lama atualmente disposta em cava. Esse esforço busca aumentar a vida útil da cava e reduzir a necessidades de novas estruturas de disposição. O pouco conhecimento disponível sobre a disposição em pilhas de materiais similares à mistura de rejeito arenoso e lama, em escala de geração de dezenas de milhões de toneladas por ano e em uma condição de relevo e clima semelhantes aos observados na Samarco, faz com que a prática seja inovadora e uma contribuição para a geotecnia aplicada à disposição de rejeitos da mineração.
Por se tratar de um projeto de pesquisa e desenvolvimento, a gestão foi feita utilizando um modelo híbrido, combinando ferramentas de gestão mais tradicionais e ferramentas da metodologia ágil. Esse desenvolvimento tecnológico é fruto de um trabalho feito em parceria com empresas de tecnologia, laboratórios e empresas projetistas e orquestrado pela Samarco, por meio de uma governança responsável e com transparência.
Desafios tecnológicos
Assim como o projeto, os desafios tecnológicos são também multidisciplinares. São necessárias atividades de pesquisa e desenvolvimento nas áreas relacionadas ao processo de filtragem, ao transporte e manuseio por longas distâncias e às etapas de disposição do rejeito filtrado em pilhas com volumes de dezenas de milhões de metros cúbicos.
Um bom exemplo é relacionado à filtragem. A literatura e conhecimento técnico da equipe já apontavam para uma tendência de queda no desempenho da filtragem, mesmo com uma baixa participação de lama na mistura. Por meio de testes de laboratório, em 2022 e 2023, foi determinado qual era o impacto e definida uma solução para minimizá-lo. Com o desenvolvimento e aplicação de auxiliares de filtragem foi possível aproximar o resultado daquele obtido sem a adição de lama.
Em 2024, foram feitos também testes de filtragem em escala industrial, com duração de até 24h, validando os resultados obtidos em escala laboratorial. Os testes industriais realizados avaliaram misturas de rejeito arenoso e lama em proporções de 5% a 15% em massa de lama. Da mesma forma que em bancada, foi feita a dosagem de auxiliares de filtragem, permitindo otimizar o desempenho, mesmo em condições adversas. A instalação de subtelas em 50% dos filtros trouxe ganhos de produtividade, reforçando o compromisso com a melhoria contínua desde a etapa de pesquisa e desenvolvimento.
As propriedades geotécnicas das misturas de rejeito filtradas também foram avaliadas por meio de ensaios laboratoriais e em aterros experimentais. Nos aterros, foi possível avaliar o comportamento das misturas (milhares de toneladas) em relação à trafegabilidade e trabalhabilidade, utilizando equipamentos de terraplenagem convencionais e expostos ao clima local.
Resultados alcançados
O projeto demonstrou a viabilidade de filtrar e dispor misturas com até 6% de lama para a configuração atual das plantas industriais da Samarco. Os indicadores de processo são compatíveis com os melhores resultados do mercado. A execução dos testes contou com metodologias rigorosas e consolidadas de caracterização e monitoramento em tempo real das condições de mistura e adição de lama. Todo esse aparato técnico garantiu a rastreabilidade e confiabilidade dos dados e proporcionou subsídios sólidos para decisões estratégicas.
A mistura com participação de 6% de lama apresentou boa trafegabilidade e capacidade de suporte aos equipamentos em todas as condições testadas. Com esses resultados, é possível afirmar que a mistura apresentou desempenho operacional satisfatório para disposição em pilha com controle de compactação.
E como a solução deve ser integrada e multidisciplinar, o estudo contemplou a avaliação do comportamento da mistura de rejeito em correias transportadoras por longas distancias e também em pontos de transferência. Em parceria com empresa de tecnologia e instituto de pesquisa no exterior foi possível aprofundar o entendimento e determinar as melhores condições para o transporte da mistura de rejeito.

Gestão sustentável
Em termos de desenho e implementação, a prática se diferencia pela integração de tecnologias de suporte, como sistemas de dosagem automatizada, instrumentação de campo e modelagem de desempenho e execução em ambiente real de produção, com foco na escalabilidade da solução. Esse conjunto de ações posiciona o projeto como referência no setor mineral para práticas que unem inovação, eficiência operacional e sustentabilidade, promovendo avanços concretos na gestão responsável de rejeitos, alinhada aos princípios de ESG.
A incorporação de 6% da lama ao rejeito arenoso a ser filtrado e disposto em pilha implica em uma redução de 30% de lama a ser depositada nas cavas. Além de maximizar a utilização dessas estruturas de disposição, a solução aumentará o tempo de operação da empresa.
A filtragem é capaz de produzir uma mistura de rejeito com 6% de lama, dentro da faixa de umidade adequada para a disposição em pilha, reduzindo não só o consumo de água para a compactação em, aproximadamente, 800 mil m3/ano, como as emissões de gases de efeito estufa pelos equipamentos móveis e de particulados. Entre os resultados obtidos destacam-se, ainda, a otimização no uso de cavas para disposição de rejeitos e a disposição do rejeito filtrado em pilhas, técnica alinhada às melhores práticas globais, além de viabilizar uma operação sem a utilização de novas barragens para a disposição de rejeitos.
O projeto também impulsionou novas linhas de pesquisa aplicadas ao setor mineral, com potencial de geração de propriedade intelectual, especialmente no que se refere ao comportamento geotécnico dos empilhamentos filtrados/drenados e ao uso de auxiliares de filtragem em condições específicas de rejeitos. Para os testes em escala industrial, diversas áreas operacionais tiveram participação efetiva, do planejamento até a análise do resultado dos testes. Além do corpo técnico da Samarco, participaram responsáveis técnicos pelos projetos das pilhas de rejeito e das obras de descaracterização das barragens.
Conhecimento compartilhado
A solução estudada pela Samarco pode ser replicada por outras empresas, desde que sejam consideradas as especificidades relativas à característica do material, condições climáticas e escala, sendo recomendável a realização de testes para validação da solução para cada situação.
Os resultados da adoção do empilhamento a seco do rejeito arenoso desde 2020 e, a partir de 2025, da mistura de rejeito arenoso e lama, aliados ao fortalecimento dos pilares ambientais, sociais e de governança (ESG), têm se refletido de maneira clara no desempenho da Samarco. As práticas implementadas impulsionaram avanços consistentes em diversas frentes, reforçando um modelo operacional mais seguro.
Além de inovador em sua concepção técnica, esse projeto tem potencial para gerar resultados sociais e ambientais significativos. A partir de uma abordagem baseada em escuta ativa com as comunidades, a empresa poderá impulsionar ainda mais o desenvolvimento local e promover transformações sociais relevantes, por meio da geração de empregos e tributos, uma vez que o projeto aumenta o tempo de vida do negócio. Afinal, a sustentabilidade só é possível quando pessoas e meio ambiente são considerados de forma integrada e estratégica.
A prática desenvolvida, ao combinar inovação tecnológica, segurança operacional e responsabilidade socioambiental, aponta para um modelo de mineração que responde de forma concreta às demandas da sociedade contemporânea cada vez mais atenta às responsabilidades das empresas, de forma a promover impactos duradouros e transformadores.
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