MEDIDAS ESTRUTURADAS E MONITORAMENTO PÓS-OBRAS

MEDIDAS ESTRUTURADAS E MONITORAMENTO PÓS-OBRAS

A AngloGold Ashanti possui 6 barragens de rejeitos inseridas na PNSB em Minas Gerais: Calcinados, construída pelo método linha de centro, Cocuruto e Rapaunha (a jusante), em Nova Lima; Contenção de Finos de CDS I – CF CDS I (a jusante) e Contenção de Rejeitos de CDS II – CR CDS II (linha de centro), em Santa Bárbara; e Contenção de Rejeitos de Cuiabá – CR Cuiabá (a jusante), em Sabará. Em Goiás fica a barragem Serra Grande, a montante, já descaracterizada e em fase de monitoramento ativo pela ANM – Agência Nacional de Mineração (veja Tabela).

Passam por obras de descaracterização as barragens Calcinados, CR CDS II e CR Cuiabá. Calcinados, como o próprio nome diz foi implantada em 1985 para o armazenamento de rejeitos calcinados e operou de 1986 até 2022. Iniciadas em 17/10/2024 e com duração estimada de 98 meses, as obras devem ser concluídas no segundo semestre de 2032. Já a CR Cuiabá foi

foi implantada em 2005, entrou em operação em 2007 e teve suas atividades encerradas em 2022. As obras para sua eliminação foram iniciadas em 22/11/2021, têm prazo estimado de 64 meses e conclusão prevista para o primeiro semestre de 2027. Em ambas as estruturas, o processo de descaracterização contempla a disposição de rejeito filtrado em camadas no interior do reservatório e a execução de canais periféricos de drenagem.

A CR CDS II, por sua vez, foi implantada em 1985, entrou em operação em 1986 e encerrou suas atividades em 2021. Suas obras de descaracterização, iniciadas em 12/04/2024 e com duração prevista de 24 meses (até o primeiro semestre de 2026), estão em fase mais adiantada: aplicação da camada de fechamento em solo no reservatório, finalização dos canais periféricos e preparação da área para início da revegetação por meio de hidrossemeadura.

Segundo Bernardo Zanon, diretor de Geotecnia da AngloGold Ashanti, o investimento da empresa em seu programa de descaracterização totaliza R$ 1.605 bilhão: R$ 360 milhões em Calcinados, R$ 700 milhões na CR Cuiabá, R$ 253 milhões na CR CDS II e R$ 292 milhões em Serra Grande. O contingente de funcionários mobilizados nas obras ainda em curso é de 908 funcionários, considerando equipes multidisciplinares e mão de obra especializada, sendo 114 deles em Calcinados, 484 na CR Cuiabá e 310 na CR CDS II.

Gestão integrada

A descaracterização de barragens utilizadas para a disposição de rejeitos é uma exigência legal estabelecida pela Lei nº 12.334/2010, regulamentada pelas Resoluções ANM nºs 95/2022, 130/2023 e 175/2024, que integram o marco da Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Essas normas definem diretrizes técnicas e administrativas que visam eliminar a função de barramento, mitigar riscos associados às estruturas e promover a readequação ambiental das áreas. Nesse contexto, diz Zanon, o principal desafio não está apenas na execução das obras em si, mas na gestão integrada de todo o processo de descaracterização, assegurando que projeto, obra, monitoramento, controle ambiental e manutenção pós-obra atuem de forma coordenada e em conformidade com a legislação vigente.

Bernardo Zanon
Bernardo Zanon, diretor de Geotecnia da AngloGold Ashanti ( AngloGold Ashanti/Divulgação)

Segundo ele, em 2024, a AngloGold Ashanti investiu R$ 155 milhões na segurança de suas barragens e estruturas associadas, mantendo todas com Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) e Declaração de Condição de Operacionalidade (DCO) e avançando, de forma acelerada, nos processos de descaracterização. “É importante destacar que, desde 2022, as barragens da empresa não recebem mais rejeito em polpa devido à implantação do processo de disposição de rejeito a seco em todas as suas unidades no Brasil. Atualmente, inclusive, todas as nossas barragens encontram-se sem nível de emergência”, acrescenta Zanon.

O diretor explica que a descaracterização de barragens envolve um conjunto de etapas estruturadas, cujo objetivo é eliminar a função de barramento, garantir a estabilidade da estrutura e promover a readequação ambiental da área. Essas etapas incluem a elaboração do projeto técnico, execução das obras civis (como disposição de rejeito filtrado, conformação topográfica, construção de canais de drenagem e instalação de coberturas), controle ambiental durante a intervenção, além do monitoramento pós-obra — dividido em fases ativa e passiva — e a manutenção da estrutura até sua reinserção definitiva no meio físico. Todo esse processo deve atender às diretrizes técnicas estabelecidas pelas resoluções da ANM e demais instrumentos legais que compõem a PNSB.

CDS II, em Santa Bárbara, terá obras concluídas em 2026 (Imagem: ALMG)Crédito: ALMG
CDS II, em Santa Bárbara, terá obras concluídas em 2026
(Imagem: ALMG)

Para avaliar a efetividade do projeto técnico e atestar o êxito de sua execução, são estabelecidas estratégias de monitoramento estruturadas em três âmbitos distintos e complementares: ambiental, de dispositivos de drenagem e geotécnico. No aspecto ambiental é feito o acompanhamento da qualidade da água pluvial que entra em contato com a estrutura, da qualidade da água a jusante da estrutura, do sedimento gerado, da qualidade do ar e do solo e da flora e fauna do entorno da região da estrutura.

Para os dispositivos de drenagem, o monitoramento é feito em três momentos: antes do período chuvoso, através de inspeções visuais, de forma a detectar quaisquer sinais de erosão ou irregularidades, e durante e após esse período, quando é avaliada a necessidade de execução de reparos nos sistemas. Por fim, conclui Zanon, o monitoramento geotécnico objetiva garantir as condições de segurança da estrutura durante e após o processo de descaracterização, utilizando a instrumentação existente no barramento, juntamente com a instalação de novos instrumentos antes das obras e após sua conclusão. Esse trabalho é complementado por inspeções visuais, que fornecem informações qualitativas sobre as condições da estrutura.

Parâmetros

Nas obras de descaracterização da barragem Serra Grande, em Crixás (GO), concluídas em 30 de julho de 2025, foram investidos R$ 292 milhões. Durante o processo, lembra Zanon, os principais parâmetros foram os fatores de segurança da estrutura, avaliados quinzenalmente para garantir sua estabilidade geotécnica. O desempenho da estrutura em campo, por sua vez, é acompanhado semanalmente por meio de inspeções visuais e análises técnicas. Os deslocamentos são monitorados em tempo real por meio de instrumentos como prismas, inclinômetros, geofones e tiltímetros, permitindo a detecção imediata de qualquer movimento significativo. Além disso, a poropressão interna da barragem é continuamente aferida através de piezômetros, também em tempo real, o que possibilita a rápida identificação de variações que possam afetar sua estabilidade estrutural.

Barragem Serra Grande, em Crixás, passa por monitoramento ativoCrédito: Lanúzio Vicente
Barragem Serra Grande, em Crixás, passa por monitoramento ativo
Foto: Lanúzio Vicente

 Uma vez finalizadas as obras, seu acompanhamento – ambiental, dos dispositivos de drenagem e geotécnico – tem a finalização condicionada ao cumprimento dos requisitos estabelecidos nas fases de monitoramento ativo e passivo definidas pela ANM. O monitoramento ativo ocorre durante os dois primeiros anos após a conclusão das obras, visando validar a efetividade do projeto técnico, enquanto o monitoramento passivo abrange o período subsequente, confirmando a estabilidade e segurança a longo prazo da estrutura descaracterizada. No caso da Mineração Serra Grande, após a concretização de sua venda e a finalização dos trâmites previstos no processo de transição para a nova proprietária, a Aura Minerals, o monitoramento da barragem continuará a ser feito pela mineradora que opera o empreendimento.

Após a descaracterização, a desconformidade de alguns parâmetros, em relação ao padrão esperado, pode resultar em intervenções nas barragens. Entre eles, Zanon cita deslocamentos que ultrapassem os limites estabelecidos no projeto, a elevação significativa da poropressão interna, a detecção de erosões ou disfunções nos sistemas de drenagem, bem como alterações relevantes nos parâmetros ambientais monitorados. “As intervenções então executadas podem consistir na execução de reparos e manutenção dos sistemas de drenagem, em reforços estruturais pontuais e correções na cobertura vegetal e solo e na implementação de medidas mitigatórias ambientais, em conformidade com as normativas da ANM”, detalha o diretor.

 

Barragens de Rejeitos da AngloGold Ashanti Inscritas na PNSB

Município Nome Método

Construtivo

Risco DPA Emergência Situação

Operacional

Embargo
 

 

Nova Lima

Calcinados Linha de Centro Baixo Alto Não OD* Desembargada
Cocuruto A Jusante Baixo Alto Não Ativa Desembargada
Rapaunha A Jusante Baixo Alto Não Inativa Desembargada
 

Santa Bárbara

CF CDS I A Jusante Baixo Alto Não Ativa Desembargada
CR CDS II Linha de Centro Médio Alto Não OD* Desembargada
Sabará CR Cuiabá A Jusante Baixo Alto Não OD* Desembargada
Crixás/GO Serra Grande A Montante Baixo Alto Não MA** Desembargada

*Em obras de descaracterização. **Em monitoramento ativo – Fonte: SIGBM/ANM

 

Foto em destaque: Barragem Cuiabá, em Sabará, está em fase final de descaracterização (AngloGold Ashanti/Divulgação)

 

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