UM GEÓLOGO QUE SE TORNOU LIDERANÇA NO SETOR MINERAL

UM GEÓLOGO QUE SE TORNOU LIDERANÇA NO SETOR MINERAL

Ele rejeita absolutamente a designação de influencer. Ao brincar que a diferença começa pela distância entre a sua conta bancária e a dessas celebridades, explica que a postulação, ainda que a quisesse, seria impossível: “Não tenho Facebook nem Instagram. Apenas LinkedIn, mesmo assim, após convencido, não facilmente, da necessidade de ter um perfil nessa rede social”. No entanto, o menino que saiu da roça, filho de uma família de agricultores e neto de avós que vieram da Alemanha e da Itália para o Brasil em 1912, se tornou, ao longo de seus 35 anos de carreira, uma das lideranças mais consideradas do setor de mineração.

Jones Aparecido Belther, geólogo de formação, é hoje vice-presidente sênior de Serviços Técnicos e Desenvolvimento de Negócios da Nexa, onde ingressou há 21 anos, ainda no tempo da Votorantim Metais. Antes, esteve na Rio Tinto, seu primeiro emprego, na então canadense Golden Star Resources, na Phelps Dodge e na Vale, residindo quase sempre fora do Brasil, em países como o Suriname, a Guiana Francesa, o Chile e o Peru.

Nesta entrevista exclusiva à In the Mine, Belther fala das operações de mineração e refino da Nexa no Brasil e no Peru; da vida útil das minas e trabalhos de exploração mineral; dos projetos greenfield; e do uso da Inteligência Artificial (IA) para criar uma “Inteligência Geológica”. Fala também da adoção de outras tecnologias para monitoramento on line, criação de uma infraestrutura digital, operação remota de equipamentos e rastreamento de máquinas e pessoas nas minas subterrâneas. Trata, ainda, das metas ambientais e sociais da empresa e do incremento de seu programa de segurança, em especial após os acidentes fatais registrados em 2024.

Perguntado sobre a estratégia da Nexa para minerais críticos diz que, após um estudo amplo, a empresa seguirá apenas com seu zinco e cobre, também fundamentais à transição energética, como explica. Destaca a importância da estabilidade regulatória e legal para a mineração e avalia que o licenciamento ambiental de projetos poderia ser mais eficiente e ágil. E que os governos devem evitar a invenção de “pérolas” como a de um marco regulatório para minerais críticos e a fixação das TFRM (Taxa de Controle, Monitoramento e Fiscalização de Recursos Minerais) pelos estados. Diz que sua maior realização na vida foi ter se formado e seguido carreira na Geologia e aos jovens estudantes do curso recomenda: “Estejam sempre abertos a aprender e trabalhem muito, com paixão, prazer e dedicação. E sem pressa.”

ITM: Para situar nossos leitores, o senhor pode descrever as operações atuais da Nexa, incluindo ativos não operacionais?

Belther:  A Nexa é a quinta maior produtora mundial de zinco. Hoje atuamos em dois países, Brasil e Peru, onde possuímos tanto operações minerais quanto refinarias. Aqui no Brasil, temos a mina subterrânea de Vazante (MG), que produz basicamente zinco e, como subproduto, concentrado de chumbo e prata. Temos, ainda, a mina de Aripuanã (MT), também subterrânea, recentemente construída e nos últimos meses da fase de ramp up, caminhando para uma operação totalmente estável. Entre as refinarias, temos a de Três Marias, totalmente integrada à mina de Vazante, e a de Juiz de Fora, também em Minas Gerais, que consome parte do concentrado de Aripuanã e parte do concentrado importado. Com Aripuanã entrando em capacidade plena de produção, a refinaria de Juiz de Fora será inteiramente suprida por concentrado nacional.

ITM: E no Peru?

Belther: No Peru, operamos três minas. A principal e também a maior mina subterrânea da Nexa e do Peru e, hoje, a terceira maior da América Latina – já foi segunda maior durante muito tempo – é Cerro Lindo. É uma mina bastante importante para nós. Temos o Complexo de Pasco, formando por duas minas – El Porvenir, subterrânea, e Atacocha, open pit, que também tinha uma operação subterrânea, suspensa desde 2020. Essa operação deve ser retomada após a conclusão do projeto de integração entre as duas minas, que são separadas por cerca de 2 km de distância e passarão a ser uma única mina. Por fim, temos Cajamarquilla, nossa maior refinaria e a maior de toda a América.

ITM: Qual é a vida útil dessas minas e quais trabalhos de exploração mineral têm sido desenvolvidos para expandir sua operação?

Belther: As minas subterrâneas não possuem uma vida útil como as minas a céu aberto, onde é feita toda a sondagem do depósito que está na superfície ou bem próximo dela e definida uma longa vida de operação. Nas minas subterrâneas, o aprofundamento da lavra é gradual, com a sondagem contínua do subsolo, para manter ou estender gradativamente sua vida útil. Atualmente, Vazante tem 8 anos de vida útil, assim como Cerro Lindo, Aripuanã tem 13 anos e as duas minas do Complexo de Pasco têm 10 anos, considerando apenas as reservas provadas e prováveis. Se incluirmos os recursos minerais, prolongamos essa vida útil em muitos mais anos. Mas, por regulação do mercado, há restrições para a divulgação da vida útil baseada em recursos minerais, que precisam ser convertidos em reservas, o que depende do valor da commodity e de vários outros fatores econômicos, que variam ao longo do tempo. Mas sabemos que nossas minas terão vidas úteis muito mais extensas que as consideradas hoje em dia.

ITM: E quanto à exploração mineral?

Belther: Estamos sondando o que chamamos de extremo norte e também o extremo sul de Vazante, além da área Sucuri, que é praticamente a integração entre a mina atual e o extremo norte, agregando recursos minerais que certamente estenderão a operação atual. No caso de Cerro Lindo, temos trabalhado na extensão dos corpos existentes e também buscado novas áreas para exploração, de forma a repor, ano a ano, o que temos lavrado. Em Pasco, na região entre as duas minas, descobrimos um novo corpo de minério, que chamamos de corpo de integração, com resultados bastante relevantes em termos de teores, melhores até que o minério lavrado hoje, e muito rico em prata e chumbo, o que também traz uma grande agregação de valor.

ITM: Quais os resultados desses trabalhos em termos de aumento de reservas?

Belther: Nas nossas operações, a agregação de reservas varia cerca de um ano. Mas temos sempre que olhar para um período mais longo, que dê consistência ao trabalho que vimos realizando. Se consideramos um período de 12 anos, entre 2012 e 2024 por exemplo, nossos trabalhos de exploração brownfield aumentaram nossas reservas provadas e prováveis em 85%, o que é um resultado relevante e bastante positivo. Esse trabalho terá seguimento para agregar e repor nossas reservas continuamente, dentro, é claro, do horizonte finito do recurso mineral.

ITM: E quanto aos teores?

Belther: Apesar da grande variação, estamos operando atualmente com teores muito bons, da ordem de 9%. Lógico que eles já foram muito mais altos no passado, de cerca de 21% ou 17%. Mas Vazante, por exemplo, operada desde 1968, já não é uma mina nova e os teores tendem naturalmente a cair ao longo do tempo, o que demanda ajustes na operação e processamento para manter nossa produção e atender à capacidade de Três Marias. Já Aripuanã é diferente por ser uma operação polimetálica, que possui zinco, chumbo, cobre, e ouro e prata como subprodutos. Lá, temos teores em torno de 5% de zinco, 1.5% a 1.6% de chumbo, 25.3% de cobre, 0.25% de ouro e 2 onças de prata. Se transformamos esses produtos em zinco equivalente, os teores se tornam bastante atrativos, entre 7% e 9%. Em Cerro Lindo, também uma operação polimetálica, os teores são baixos, mas como o volume de produção é muito alto, temos ganhos de competitividade. Os teores de zinco são da ordem de 2%, 7% de cobre e 1% a 1.5% de chumbo, além de um pouco de prata. O Complexo de Pasco, também polimetálico, possui cerca de 5% de teores de zinco, 1% a 1,5% de chumbo, 2 onças ou mais de prata e um pouco de cobre, tendo também uma boa atratividade econômica.

ITM: Atualmente, a Nexa possui projetos greenfield?

Belther: Há algumas iniciativas nesse sentido. Hoje, nossa estratégia de crescimento se divide em duas áreas: zinco e cobre. A maioria do investimento greenfield é dedicada a cobre. Claro que manteremos nossa relevância em zinco. Somos um grande produtor e vamos seguir assim, inclusive considerando novas oportunidades, quando surgirem. Mas o cobre se tornou extremamente atrativo pela demanda em função da transição energética. No entanto, nossas iniciativas de cobre ainda se encontram em estágios muito iniciais e preferimos divulgar seus resultados quando já tivermos consolidado os recursos minerais, para não criar expectativas que possam frustrar o mercado. Temos, por exemplo, o projeto Magistral, no Peru, que já teve seu Estudo de Viabilidade concluído, mostrando que ele é economicamente atrativo, e atualmente passa por uma revisão técnica. Isso porque sempre avaliamos se vamos desenvolver um projeto próprio ou adquirir uma operação que já está produzindo. Temos também outros dois projetos de zinco no Peru: o Hilarión, polimetálico e com grandes recursos minerais de zinco, que será uma provável mina no futuro, e o Florida Canyon, um pouco menor, mas com teores elevados, da ordem de 10% a 11%.

ITM: Voltando às operações, quais principais inovações tecnológicas foram ou estão sendo introduzidas no planejamento de mina e na lavra mineral?

Belther: Hoje, a inovação é mandatória para qualquer empresa que queira se manter competitiva e tirar o melhor resultado dos seus ativos. E a Nexa tem buscado mapear e explorar oportunidades de inovação em diversas frentes. Temos trabalhado bastante com IA, por exemplo, para criar o que chamamos de “Inteligência Geológica”, trabalhando com os dados e informações que obtemos dos testemunhos de sondagem. Assim, conseguimos, entender melhor os depósitos minerais e a distribuição dos metais dentro deles e a presença de elementos que, por vezes, são deletérios para o processo de beneficiamento. A ideia é fazer algumas predições para que se possa blendar o minério, de forma a não afetar ou instabilizar a performance da planta. É claro que somos uma empresa de mineração e não de tecnologia. Mas a IA e o Machine Learning conseguem processar um volume de dados muito maior que o cérebro humano e trabalhar com muito mais variáveis ao mesmo tempo. Por essa razão temos ido ao mercado através de nossa plataforma de inovação aberta, o Mining Lab.

ITM: O Mining Lab tem trabalhado com muitas startups, certo?

Belther: Exato e, ao longo dos anos, temos trazido soluções para o planejamento e sequenciamento de lavra, digitalização e automação de processos e para modelamento geológico. Temos iniciativas para monitoramento em tempo real do despacho em mina subterrânea, com amostragem, o que nos permite ajustar a planta de beneficiamento conforme os teores do minério que está sendo alimentado. Nem sempre e nem em todas as operações temos blendagem e homogeneização prévia dos teores. Temos isso em Vazante. Mas as outras minas precisam desse monitoramento on line. Também temos melhorado nossa infraestrutura digital no subsolo para transmitir os dados da operação ao nosso Centro de Controle, agilizando a tomada de decisões, e para possibilitar o rastreamento de equipamentos e pessoas, incrementando a segurança. Em quase todas as minas, ainda, os funcionários possuem uma tag no uniforme, sinalizando sua presença e forçando a parada automática de qualquer equipamento que se aproxime.

ITM: Voltando à questão de segurança, a Nexa tem investido em novas tecnologias para ventilação, um fator crítico em minas subterrâneas?

Belther: Praticamente todas as nossas minas subterrâneas já contam com sistema de ventilação sob demanda, que aciona somente os aparelhos dos ambientes onde há funcionários trabalhando, mantendo desligados aqueles instalados em áreas sem operação. Além do ganho energético com a redução do número de ventiladores em funcionamento, há uma maior eficiência da ventilação, já que essa canalização do fluxo de ar permite a saída do ar poluído para fora da mina e a entrada de ar fresco.

ITM: No caso da automação, há ações voltadas para os equipamentos de lavra e transporte?

Belther: Ainda não temos equipamentos autônomos no subsolo, onde a operação é relativamente mais complexa que na superfície. Ela exige que a mina seja extremamente bem mapeada e digitalizada e tenha uma infraestrutura de transmissão de dados muito eficiente em tempo real para orientar o tráfego desses veículos nas galerias de transporte. Já temos a operação remota, com o operador ainda no subterrâneo, mas em uma cabine posicionada a uma distância segura da máquina. Estamos estudando a possiblidade de realizar essa operação a partir da superfície e temos visitado empresas que já atuam dessa forma.

ITM: A área de beneficiamento também tem sido objeto de inovações tecnológicas?

Belther: Temos trabalhado bastante na questão de imageamento. Um exemplo são as câmeras instaladas nas correias transportadoras para medir a granulometria do minério, identificando blocos maiores que podem causar problemas no britador primário e permitindo um fluxo mais efetivo no sistema. Também temos câmeras nas flotações, para medir o tamanho e a homogeneidade das bolhas, que implica na velocidade com que se vai flotar o material. Então, a partir das imagens, conseguimos corrigir a adição de reagentes para obter uma maior eficiência do processo. Isso é feito através do chamado APC, sistema avançado de controle de processo, que analisa diversas variáveis ao mesmo tempo, com auxílio de Machine Learning ou IA. Assim, é possível corrigir o volume de adição de reagentes e medir, lá na frente, o teor do concentrado que está sendo produzido, realizando ajustes automáticos. E temos também iniciativas relacionadas à manutenção preventiva, efluentes e rejeitos.

ITM: Quais são essas iniciativas?

Belther: No caso da manutenção preventiva temos utilizado plantas gêmeas digitais, para simular condições ideais de operação da planta real, em função de fatores como a dureza do minério, e também para indicar as necessidades de intervenção diante do desgaste de peças ou componentes dos equipamentos. Já em Cerro Lindo, principalmente, através do Mining Lab, buscamos soluções para melhorar os efluentes industriais empregando reagentes que não comprometem a qualidade da água de processo, contribuindo para aumentar sua recirculação. Outra preocupação é o volume de rejeitos gerados e, também junto a startups, temos incentivado a transformação desse material em produtos. Fizemos isso no Complexo de Morro Agudo (MG) e passamos a produzir um corretivo de solo agrícola que, agora, é o negócio da empresa que adquiriu essa operação. São todas iniciativas sustentáveis e que trazem ganhos, seja em recuperação de metais, seja na redução do consumo de água e energia, seja na diminuição de paradas não previstas da planta. Nesse último caso, também em Cerro Lindo, fomos a primeira empresa do Ocidente a utilizar um forro magnético em moinhos. É uma tecnologia que trouxemos da China, há cerca de cinco anos, e que praticamente dobrou a durabilidade do revestimento.

ITM: Falando em Morro Agudo, a venda do complexo para a Casa Verde Holding, em 2024, implicou em alguma obrigação da Nexa em relação ao descomissionamento de instalações de beneficiamento de minério e armazenamento de rejeitos e de recuperação ambiental?

Belther: Não. Todas as responsabilidades para descomissionamento da operação foram transferidas para a Casa Verde Holding, até porque eles pretendem operar por muitos anos as minas subterrâneas, produzindo concentrado de zinco e calcário.

ITM: Por que a venda não incluiu o projeto Bom Sucesso?

Belther: A Nexa decidiu manter Bom Sucesso em seu portfólio, por ser um projeto viável de mina de zinco, como demonstrado pelo Estudo de Pré-Viabilidade. É claro que ele fazia muito mais sentido quando tínhamos a operação de Morro Agudo, à qual poderia ser integrado. Mas nossa prioridade, no momento, é Aripuanã, uma mina maior com capacidade para atender às nossas refinarias no Brasil. Já Bom Sucesso precisa ser melhor estudado para ganhar uma escala relevante de produção ou, no futuro, ser objeto de um desinvestimento.

ITM: Quais são as metas ambientais da Nexa e seu cronograma de cumprimento?

Belther: Estamos focados em duas frentes: a redução de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) e o uso eficiente de recursos naturais, principalmente água. Até 2030, nossa meta é reduzir em 20% as emissões de GEE e manter uma matriz energética renovável, buscando a neutralidade em 2040 e atingindo o chamado Net Zero em 2050. Em 2024, nossas emissões de CO2 caíram de 253 mil t para 227 mil t, uma redução de 10% em relação à base equivalente de 2020. Ou seja, já alcançamos metade da nossa meta, o que demonstra que estamos evoluindo bem. Ainda assim é uma meta desafiadora, até porque 98,6% de nossa matriz energética hoje já é renovável.

ITM: E no caso do consumo de água?

Belther: Definimos que em nossas operações, tanto nas minas quanto nas refinarias, devemos reduzir em 10% o consumo específico de água para cada tonelada de metal que produzimos. Novamente em relação a 2020, passamos de um consumo de 24 m³/t de minério para 20,6 m³/t nas refinarias, o que equivale a uma redução de quase 20% ou de quase o dobro da meta. Já na área de mineração não tivemos a mesma evolução. Muito em função de Aripuanã que, por não estar ainda em sua capacidade plena, utiliza muita água para uma produção menor que a projetada. Essa defasagem deve ser corrigida neste semestre com a estabilização da operação. De toda forma, atualmente, nossa média geral de recirculação de água é da ordem de 80%. Em Cerro Lindo, por exemplo, que utiliza água do mar dessalinizada, chega a mais de 90% e só não chega a 100% porque o restante fica no rejeito que, apesar de empilhado a seco, mantém uma certa umidade que perde depois, por evaporação.

ITM: E quanto às metas sociais?

Belther: Sob esse aspecto também temos duas frentes principais: a segurança e a diversidade. A segurança é uma jornada contínua, que requer uma disciplina diária, que nunca termina. Costumo dizer que é como empurrar uma pedra redonda morro acima. Se soltar, ela desce de novo e perde-se todo o trabalho que foi feito. Então, o nível de alerta tem que estar sempre alto. Em termos de diversidade, nossa meta é contar com 30% de mulheres na força de trabalho e outros 30% na liderança. Em agosto passado (2025) tínhamos 18,2% de mulheres na força de trabalho, ainda distante da meta. Por outro lado, já estamos com 25,3% de mulheres na liderança da empresa, o que é bastante relevante.

ITM: Em 2024, a Nexa registrou três acidentes fatais: um na mina de Vazante, no Brasil, e dois no Peru, em El Porvenir e Cerro Lindo. Quais foram os reflexos desses acidentes na revisão dos protocolos de segurança da empresa?

Belther: Sim. Foram acontecimentos terríveis e perdas profundas para nós. Uma situação totalmente fora do aceitável e que não pode nunca ser normalizada, mas sim despertar o inconformismo. Eu sou particularmente inconformado. Após as ocorrências, fizemos uma reestruturação gigantesca na área de segurança de todas as operações. Um programa que já vínhamos realizando desde 2022, mas que foi ainda mais reforçado, o GMIRM – Global Minerals Industry Risk Management, desenvolvido pela Universidade de Queensland, da Austrália. Para implementar esse programa, fizemos uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, e com o Instituto de Mineração Sustentável – Centro Internacional de Excelência do Chile (SMI-ICE-Chile), que faz parte da Universidade de Queensland, para as operações no Peru.

ITM: Como se deu a execução desse programa na Nexa?

Belther: Nós dividimos a capacitação entre quatro níveis hierárquicos, a começar da alta liderança – CEO e VPs -, passando aos gerentes gerais e de áreas, depois supervisores e líderes de equipe e, por fim, equipes operacionais. O programa se fundamenta em três bases: liderança, gestão de risco e disciplina operacional, de forma a criar uma parametrização de controles em situações de risco crítico ou de alto potencial de risco. Assim, todas as decisões que forem tomadas, em qualquer nível, devem sempre levar em consideração as questões de segurança. Para nós, segurança não é uma prioridade, que pode mudar em função de vários fatores como a geração de caixa ou a estabilidade operacional. É um valor permanente. Só neste ano (2025), já fizemos dois treinamentos para cada um dos quatro grupos, além de diálogos de segurança em todas as operações. É um processo de mudança cultural, o que não é simples. Envolve nossos funcionários diretos e também os terceirizados, que são maioria no Peru, com alta rotatividade, o que implica em treinar várias vezes. Já estamos com uma performance melhor e nossa meta é a Fatalidade Zero.

ITM: O senhor citou o cobre como prioridade. Mas qual é o posicionamento geral da Nexa em relação aos chamados minerais críticos para a transição energética?

Belther: Falando de uma forma um pouco mais abrangente, eu acho que o Brasil tem um bom potencial para atender a essa demanda. Daí o grande número de empresas júniores trabalhando em vários estados. Além de ser uma boa oportunidade para o país, é uma boa oportunidade para o setor de mineração, no sentido de se aproximar de uma forma mais positiva da sociedade, Por que demonstra claramente que a transição energética é dependente da produção mineral e não existirá sem ela. Na Nexa, fomos demandados pelo Conselho de Administração a fazer uma análise desse mercado. Realizamos um estudo bastante amplo contemplando uma cesta de minerais críticos. Concluímos que a maior rentabilidade dessa produção está no seu refino, atualmente com dominância de 99,9% da China. Uma concentração que preocupa não só os Estados Unidos (EUA), como o mundo todo. E mais: é preciso fabricar produtos customizados para cada segmento da indústria, em lugar de ter um produto apenas que atenda a vários clientes. Não é nosso pedigree ou nossa vocação. Somos uma empresa de comodities.

ITM: E qual a decisão da Nexa?

Belther: A decisão é que pretendemos seguir como uma empresa de commodities e não entrar no nicho dos minerais críticos. Já temos uma estratégia para o cobre, que é um dos mais críticos, mas o zinco não é menos importante. É um metal que terá uma demanda crescente também em função da transição energética, seja para a fabricação de turbinas eólicas, seja para usinas solares, seja para todo o frame de suporte desse mercado. Então repito: é uma grande oportunidade para o país e uma grande oportunidade para empresas que estão entrando no mercado de mineração, como as juniores. Mas seguiremos com o nosso zinco e o nosso cobre.

ITM: Quais são, em sua opinião, os principais entraves para um maior desenvolvimento da mineração no Brasil?

Belther: O setor mineral é extremamente dependente da previsibilidade regulatória e legal. Até por ser um setor que demanda um volume muito grande de investimentos antes de sua entrada em produção. Em Aripuanã, por exemplo, o projeto foi iniciado em 2004 e só entrou em produção em 2022, o que é muito tempo. Claro que boa parte desse período se deveu à espera pela melhoria da infraestrutura total para poder acessar a mina durante o ano todo. Também há um risco inerente à atividade. Uma mina não é uma fábrica de sapatos, que se encontra em qualquer lugar. Temos o fator da rigidez locacional, que é ainda mais impactado pelas deficiências logísticas e energéticas do país. Além da questão regulatória e jurídica, temos o licenciamento ambiental, que deveria ser mais pragmático e ágil, sem passar por tantas instâncias e entidades. É certo que a sociedade é cada vez mais exigente em relação à mineração. E tem que ser mesmo. Mas, um processo de licenciamento mais lógico, mais eficiente, poderia contribuir para uma comunicação mais transparente e efetiva do setor com as comunidades. E há ainda as “pérolas” que os governos inventam.

ITM: Quais “pérolas”?

Belther: Como eu disse, os minerais críticos são uma grande oportunidade de mercado para o Brasil. Mas é realmente necessário criar um marco regulatório específico para minerais críticos? É uma medida muito temerária, além de perigosa, porque hoje o foco são os minerais críticos, amanhã podem ser outros minerais. De toda forma, mais uma vez se rompe a estabilidade regulatória e jurídica. Também acho bastante preocupante a criação das TFRM pelos estados. Talvez a intenção seja até nobre, mas o objetivo é somente arrecadatório, com alíquotas irreais, o que tende a afastar investidores. No Peru, por exemplo, você pode ter um governo de direita ou de esquerda, mas a economia segue crescendo porque a estabilidade jurídica do país é muito sólida. Ali, a maior preocupação é a conjuntura social, a questão das comunidades, o que exige uma proximidade maior das empresas para garantir a continuidade da operação e também a implantação de novos projetos.

ones Belther 4 foto Márcio Neves


Perfil

Nasceu em: Nova Europa, no interior de São Paulo, em 1968

Mora em: São Paulo, há 20 anos

Formação acadêmica: Geólogo e mestre em Exploração Mineral pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro
Trajetória profissional: 35 anos de carreira, quase metade trabalhando fora do Brasil. Iniciei na Rio Tinto, de onde saí para a Golden Star Resources, na época uma produtora canadense de ouro no Suriname. Voltei para a Rio Tinto por um curto período e fui para a Phelps Dodge, no Chile e depois no Brasil, para o depósito de Sossego, no Pará. Passei para a Vale, quando ela adquiriu o projeto e achei que ficaria por aqui. Mas seis meses depois me mandaram para o Peru. Voltei após dois anos e entrei para a Votorantim Metais, atual Nexa, onde estou há 21 anos

Família: Sou casado e não tenho filhos

Time de futebol: Sou são paulino, mas tenho vários corintianos na equipe

Hobby: Embora não tenha muito tempo, gosto de carros antigos. Tenho duas caminhonetes antigas e estou terminando a reforma de uma delas, de 1951

Um mestre ou ídolo: Ninguém em especial. Aprendi muito com várias pessoas da minha vida, com vários professores da universidade, porque sempre estive aberto a aprender, a adquirir novos conhecimentos. Mas, como gosto de esportes, é impossível não falar de Ayrton Senna, um brasileiro notável

Maior decepção: A Copa do Mundo de 1982. Eu era adolescente na época e me frustrei tanto que jurei nunca mais assistir a um jogo da seleção brasileira. Mas assisto, mesmo sem muita empolgação

Maior realização: Ter me formado em Geologia e seguido carreira nessa profissão, que me permitiu pisar em rochas de todos os continentes do planeta e conhecer o mundo não só através de seus pontos turísticos. Para um menino que saiu da roça foi uma evolução muito grande. Por isso, eu acredito na educação. Ela transforma o ser humano.

Um projeto: Deixar sucessores que sejam profissionais e líderes melhores que eu.

Um conselho aos jovens geólogos: Acho que os jovens hoje são muito ansiosos, muito imediatistas. E, para crescer profissionalmente, é preciso ganhar conhecimento, o que requer tempo. Mesmo que esse conhecimento agora esteja disponível de uma forma mais rápida, através da IA (Inteligência Artificial), por exemplo, a capacidade de percepção e de análise só é obtida com o aprendizado ao longo da vida. Então, recomendo que eles estejam sempre abertos a aprender e que trabalhem muito, com paixão, com prazer e com dedicação. E sem pressa que, além de inimiga da perfeição, limita os nossos horizontes

Fotos: Márcio Neves

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