Muito por ser de Currais Novos, centro da mineração de tungstênio no país, como define a cidade, e não menos por influência do pai que viveu da atividade, ele se formou em 1980 como técnico em Geologia, indo trabalhar em uma empresa da De Beers, na Amazônia. Saiu para outras mineradoras e voltou à produtora de diamantes no final da década de 1990, já como geólogo formado pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), onde também cursaria, alguns anos depois, o mestrado em Geociências e o doutorado em Geodinâmica e Geofísica.
Em 2003 assumiu, como concursado, o cargo de geólogo da então Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais (CPRM), atual Serviço Geológico do Brasil (SGB), onde construiria sua carreira, hoje de 22 anos e contando. Na estatal, que conhece tão bem quanto as inúmeras áreas geológicas que mapeou em campo e descreveu em relatórios, foi chefe do Departamento de Recursos Minerais, entre 2010 e 2016, e desde 2023, é o titular da Diretoria de Geologia e Recursos Minerais (DGM).
Francisco Valdir Silveira é capaz de discorrer por dias sobre a diversidade de bens minerais do Brasil, não só dos conhecidos, como daqueles por descobrir, mapear e cubar. Jamais usando os complicados termos da Geologia, mas em linguagem fluida, clara e articulada, modulada pelo cativante sotaque potiguar, que mantém incólume. E assim se passaram mais cerca de duas horas nesta entrevista exclusiva à In the Mine.
Nela, Valdir, como prefere ser chamado, fala das atribuições da DGM, de seus principais trabalhos realizados e em curso, das prioridades em mapeamentos e levantamentos, da cobertura atual do território brasileiro, incluindo sua plataforma continental, e dos entraves internos para sua expansão – de mão de obra, recursos e infraestrutura. Fala ainda da retomada dos levantamentos aerogeofísicos após 10 anos, dos minerais críticos e estratégicos, com destaque, como expert no assunto que é, para as terras raras. Também trata da famosa Elevação Rio Grande, além de vários outros temas. Finaliza dizendo da necessidade de autocrítica pela mineração em sua forma de comunicar-se, para que o setor aprenda a falar para o mundo e não apenas para si mesmo. Aos jovens geólogos assegura que têm a melhor profissão do mundo, mas que é preciso dedicar-se a ela, estudá-la e abraçá-la com muito afinco e foco.
ITM: Quais são as atribuições da Divisão de Geologia e Recursos Minerais (DGM) do SGB?
Silveira: A DGM é responsável pelo mapeamento geológico do Brasil e pela pesquisa de todos os recursos minerais do país. É a instituição que tem obrigação de gerar conhecimento em geologia básica e em recursos minerais, na forma de dados de qualidade e disponíveis de forma pública para toda a sociedade. São duas áreas complementares porque os recursos minerais se apropriam do conhecimento da geologia básica.
ITM: Entre os trabalhos mais recentes da diretoria, quais o senhor destacaria?
Silveira: Temos vários projetos importantes de mapeamento geológico realizados nos últimos anos, além das folhas cartográficas, em escala 1:100.000, e acabamos de lançar uma série de mapas regionais, além da atualização do mapa geológico do Brasil e da participação recente na elaboração do mapa da América do Sul. São produtos extremamente relevantes para construir o alicerce do conhecimento geológico. Além disso, temos os projetos de recursos minerais focados em áreas onde há indícios de ocorrências minerais de urânio, grafite, lítio e terras raras. Esse trabalho, iniciado em 2011, quando eu era chefe do Departamento de Recursos Minerais e estávamos lançando o Plano Nacional de Mineração (PNM) 2030, já contemplava minerais hoje em voga, como o Lítio Brasil e o Terras Raras Brasil. Tivemos também o projeto Diamante Brasil, estratégico para sondagens na indústria petrolífera.
ITM: Como são definidas as substâncias estudadas?
Silveira: Apesar do valor do ouro e do minério de ferro, por exemplo, o SGB prioriza as commodities de interesse nacional, embora todas as que vierem para nossa cesta sejam estudadas, porque esse é o nosso papel. É uma cesta potencial porque um mineral pode ter sua importância revelada apenas daqui a cinco ou 10 anos. Parafraseando o presidente Lula, que costuma dizer que é um “cara de sorte”, eu diria que o Brasil é um país de muita sorte por ter todos os ambientes geológicos propícios à produção de mais de 90 bens minerais. Posso dizer que não há um estado brasileiro que não tenha potencial mineral. Ocorre apenas que esse potencial ainda não foi descoberto. Minas Gerais e Bahia são hoje grandes players da mineração, o que não significa que o Acre ou o Amazonas não o sejam quando forem conhecidos.
ITM: Estatais como a CBPM (Cia.Baiana de Pesquisa Mineral) tiveram um grande papel na expansão desse conhecimento.
Silveira: Exatamente. Sempre junto com o SGB, assim como a Metamig (Metais de Minas Gerais). Infelizmente, a maioria das estatais de pesquisa mineral foi sucateada ou extinta. Sem pensar, mataram a galinha dos ovos de ouro. Para mim foi um crime de lesa-pátria ou lesa-estado, porque o acervo técnico gigantesco dessas empresas foi perdido sem ser repassado a outros órgãos ou instituições que pudessem mantê-lo. Ou seja, muitos milhões de reais foram jogados fora.
ITM: Voltando aos trabalhos realizados pela DGM, quais resultaram em novos projetos de mineração?
Silveira: Um case de sucesso é o Projeto Lítio, no Vale do Jequitinhonha, iniciado por um colega de Minas Gerais, em 2012, com um orçamento de menos de R$ 2 milhões. Apesar de já termos a CBL (Cia.Brasileira de Lítio), havia somente cerca de 280 alvarás de pesquisa na região. Com o lançamento do projeto, em 2016, foram solicitados entre 3 mil e 4 mil alvarás, sendo que a ANM (Agência Nacional de Mineração) arrecadou em torno de R$ 42 milhões só em leilões de áreas, muito mais que o que gastamos. Essa é a dimensão do retorno que o SGB pode trazer ao país. Outro exemplo é o Projeto Borborema, no Nordeste do Brasil, que lançamos em 2021 e que também foi objeto de um volume enorme de processos.
ITM: Atualmente, quais os principais trabalhos em curso?
Silveira: Quando assumi a diretoria do DGM, o ministro (de Minas e Energia) Alexandre Silveira me disse que precisava ter uma radiografia do setor mineral no Brasil. Essa tarefa, realizada por nossa equipe, acabou resultando no PlanGeo, que é o Plano Decenal de Mapeamento Geológico do SGB, com todos os trabalhos que executamos disponíveis para download, além dos planos anuais que estão em desenvolvimento. Nesse caso, com dados sobre a data de início dos projetos, equipe envolvida, localização, escopo, custo e prazo de conclusão, entre outros. Também projetamos o cenário para os próximos 10 anos. Tudo ao alcance de um clique.
ITM: E quais são os principais projetos?
Silveira: Hoje, temos uma carteira de projetos voltada à transição energética e à segurança alimentar. No primeiro caso, em domínios geológicos cujo potencial já conhecemos. Falamos de urânio na Bahia, Tocantins, Pará e Goiás; terras raras em Rondônia, sul da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e na borda da Bacia do Parnaíba, no Piauí; e grafite no sul da Bahia e norte do Tocantins. No segundo caso, estão o fosfato e potássio, principalmente nas bacias sedimentares do país onde as chances de ocorrência são maiores. Além disso, hoje, tanto a corrida espacial quanto a armamentista dependem de minerais. É aí que entra o nosso tungstênio, o berílio, o tântalo, o nióbio, o ferro, o manganês, o cobre e o alumínio, característicos não apenas do Brasil, mas de toda a América do Sul. Para aproveitar esses bens minerais precisamos investir em pesquisa e, principalmente, no desenvolvimento de processos para a cadeia produtiva, o que se faz investindo em universidades e institutos de pesquisa.
ITM: Qual é a taxa de cobertura do mapeamento geológico do Brasil?
Silveira: O Brasil tem cobertura nas escalas 1:250.000 e 1:100.000. Para os 8,5 milhões km2 continentais do Brasil, nossa cobertura, na escala 1:250.000, está em torno de 51%, um aumento de 2% em relação a 2024, e chega aos 30% na escala 1:100.000, um aumento de 3%. Mas existe um fator extremamente relevante a ser considerado, que é a divisão do país em dois grandes domínios geológicos: o das rochas cristalinas e o das rochas sedimentares.
ITM: E qual o reflexo dessa divisão nos mapeamentos?
Silveira: No caso das bacias sedimentares, a pesquisa mineral era prerrogativa da ANP (Agência Nacional de Petróleo). Se excluímos essas áreas, considerando apenas as áreas cristalinas, que são as de maior interesse mineral, temos cerca de 70% de cobertura na escala 1:250.000 e de 45% na escala 1:100.000. Mas, como agora também cuidamos das bacias sedimentares, ainda temos 70% do país a ser conhecido em escala 1:100.000. que é a mais utilizada pela indústria. Assim sendo, com a mesma força de trabalho e recursos atuais, o SGB levaria cerca de 110 anos para mapear o Brasil, na escala 1:100.000. A não ser que tenhamos uma política de estado focada nesse objetivo.
ITM: E no caso dos mapeamentos mais detalhados, de 1:50.000?
Silveira: Por falta de força de trabalho e recursos, o mapeamento nessa escala não é um objetivo do SGB. Cada folha 1:100.000 é dividida em 4 partes na escala 1:50.000, devido ao aumento da resolução e do maior volume de informações sobre a área. Então, os mesmos dois geólogos que trabalham em uma folha 1:100.00 durante 2 anos, serão necessários para uma folha 1:50.000 no mesmo período. Já fizemos alguns trabalhos nessa escala e na de 1:25.000, mas foram projetos muito pontuais, em distritos mineiros e em províncias minerais, que representam menos de 1% do país. Aliás, essas escalas não estão entre os objetivos de nenhum serviço geológico do mundo. Mesmo os EUA e o Canadá estão focados na escala 1:100.000, com projetos isolados ou muito localizados em escalas menores.
ITM: Quais são as áreas consideradas nessas escalas menores?
Silveira: Nós definimos prioridades no PlanGeo, obedecendo ao PPA, o plano plurianual de trabalho do governo federal, para áreas onde sabemos haver potencial mineral. Como a expansão do Quadrilátero Ferrífero (MG) e da província mineral de Carajás (PA), Borborema, Tocantins, Bahia, Vale do Ribeira (SP/PR), Mato Grosso e Rondônia. Dessa forma, buscamos pincelar as famosas ARIMs (Áreas de Relevante Interesse Mineral), sem esquecer o que chamamos de novas fronteiras, onde há potencial, mas não há conhecimento. É o caso da região do Crato (CE), Amazonas e do Escudo das Guianas, nas regiões de Roraima e do Amapá.
ITM: E quanto ao conhecimento da plataforma continental?
Silveira: Esse é um outro país gigantesco, com 5,7 milhões km2, onde estamos trabalhando na escala 1:1.000.000 e sobre o qual possuímos baixíssimo conhecimento. Nesse caso, também temos alguns projetos focados como o Projeto Fosforita, na costa de Santa Catarina, e o Projeto ERG (Elevação do Rio Grande), a 1.300 km da costa do Rio Grande do Sul. No caso da ERG, participamos de várias expedições, somando mais de 500 dias de mar, e coletamos mais de 17 t de amostras, que estão em nossa litoteca. Entre elas, um contêiner refrigerado com amostras de seres vivos. O maior acervo de dados primários da plataforma continental do Brasil é o nosso. O pesquisador, Eugênio Frazão, que chamo de nosso “aquanauta”, por exemplo, mergulhou a 4,2 mil m de profundidade, em 2013, com apoio do submersível Shinkai 6500, em uma parceria com a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec), para pesquisar a ERG. Aliás, um dos primeiros trabalhos de geologia marinha no Brasil foi feito pelo SGB, junto com o antigo DNPM (atual ANM) e a Petrobras, em 1976, na margem equatorial, onde hoje temos um trabalho sistemático.
ITM: Onde ocorre esse trabalho na margem equatorial?
Silveira: No ano passado percorremos a costa do Rio Grande do Norte até o Ceará e estivemos nas bacias do Maranhão e do Amazonas. Trabalhamos em toda a Costa Leste, em projetos na plataforma oceânica profunda, como os de sulfetos metálicos da Cordilheira Mesoceânica. Na própria cordilheira, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo (PE), temos feito levantamentos em
áreas aonde se supõe a presença de corais. No entanto, temos constatado a morte desses corais, efeito da última glaciação, há cerca de 10 mil anos. Também estivemos na Foz do Rio Jequitinhonha (MG/BA) para estabelecer a relação dessa área com os depósitos diamantíferos do Rio Orange, na Costa Oeste da África. Nessas expedições marinhas já treinamos mais de 30 pesquisadores internacionais e já tivemos mais de 100 estudantes e professores brasileiros embarcados. Na última campanha, inclusive, com pesquisadores de Biomedicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI), para a coleta de amostras de seres vivos visando o desenvolvimento de vacinas contra o câncer.
ITM: Quais são os principais entraves que inviabilizam a ampliação da cobertura geológica do Brasil pela DGM?
Silveira: Somos um país de 14,2 milhões km2, entre território e plataforma continental, com uma enorme diversidade geológica que produz desafios regionais. Há muita diferença em trabalhar ao longo do litoral e na Amazônia. Apesar da enorme cobrança para realizarmos esse trabalho gigantesco, ela não se reflete em aumento de pessoal e de recursos, simultaneamente.
ITM: Essas são as demandas então?
Silveira: Não só. Também precisamos de infraestrutura, de ferramentas adicionais. A Aerogeofísica, a Geoquímica e o Sensoriamento Remoto, por exemplo, reduziram o tempo de elaboração dos mapas de 1:100.000 de oito para apenas dois anos. Outro exemplo é que, embora o mapeamento geológico continue sendo uma atividade muito artesanal, que demanda um geólogo em campo para quebrar a rocha, trazer a amostra e fazer sua descrição, já é possível contar com um drone para filmar os afloramentos. O SGB deve ser tratado como instituição de estado e não de governo, por ser extremamente relevante para um país que se tornou o centro das atenções do planeta, no que diz respeito a seus recursos naturais e clima, como disse recentemente Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA. Precisamos de geólogos, de recursos contingenciados e de mais parcerias com estados que ainda têm serviços geológicos ou assemelhados, com academias e com os institutos federais que formam técnicos em mineração.
ITM: A questão da infraestrutura envolve apenas novas tecnologias?
Silveira: Não. Precisamos também de infraestrutura laboratorial e logística. Na Amazônia, precisamos de helicóptero, barcos e carros, além de drones, por exemplo. Nossos interlocutores parecem não entender a dimensão de nosso trabalho e a necessidade de toda essa parafernália para fazer um mapa geológico.
ITM: O regime do SGB é de servidores concursados ou há uma parcela que pode ser contratada?
Silveira: Nosso regimento dispõe que os profissionais do quadro efetivo sejam concursados. Mas podemos ter um percentual de Funções Gratificadas, que admite contratações sem concurso para coordenação executiva e assessoria dos diretores, o que não resolve nosso problema. Na DGM, hoje, tenho três profissionais técnicos bastante qualificados ocupando essas funções. Em breve, também devemos ter um concurso com 120 vagas, mas apenas 20 delas são para nossa diretoria, porque a divisão foi equânime entre todas as áreas do SGB, sem considerar a importância de uma em relação às outras. De toda forma, preciso muito dessas vagas e terei um quadro reserva de 10 concursados para cada uma. Então, vou apostar que terei mais 200 geólogos. Hoje eu tenho 277 geólogos e um orçamento de R$ 50 milhões para o ano. Também tenho um contrato de serviços de Aerogeofísica para cobrir 1 milhão km lineares já licitado, no valor de cerca de R$ 700 milhões.
ITM: Onde esses serviços serão aplicados?
Silveira: Vamos começar pelo Tocantins, voando cerca de 20 mil km. Será o primeiro levantamento aerogeofísico do Brasil em uma década. O último foi realizado em 2015, após um período exitoso que começou em 2008, quando quase cobrimos o país inteiro, principalmente nas áreas de bacias sedimentares. Agora, pretendemos terminar a cobertura dessas bacias e completar a das áreas cristalinas, em torno de 8%. É um programa que nos permitirá avançar muito em termos de recursos minerais, mesmo em áreas ainda não mapeadas.
ITM: Qual prioridade tem sido dada a minerais críticos e estratégicos?
Silveira: Antes de mais nada, eu gostaria de deixar claro que, para o Brasil, todos os minerais são estratégicos. Nossa criticidade está no fosfato e no potássio. Com o objetivo de atender o agronegócio, temos buscado indicativos desses minerais e também de rochas enriquecidas em potássio para rochagem na recomposição de áreas degradadas. Outra linha é a dos minerais portadores de futuro ou minerais da alta tecnologia como grafita, lítio, tântalo e terras raras. Há também aqueles com grandes depósitos e reservas, que asseguram vantagens econômicas para o Brasil e impactam nossa balança comercial como o ferro, o ouro e o nióbio. Inclusive, podemos inserir os minerais portadores de futuro no grupo de minerais com vantagens econômicas porque temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo e a sexta maior de lítio.
ITM: Com o suposto interesse dos EUA em nossas terras raras, o que o senhor acha das declarações do governo à imprensa de que desconhecemos onde estariam esses depósitos?
Silveira: Eu falo de terras raras com muita propriedade por ser autor ou coautor de três bibliografias sobre o tema. Em uma delas, “Avaliação do Potencial de Terras Raras do Brasil”, do qual sou coautor com meus colegas Lucy Takehara, Issao Shintaku e Débora Matos Rabelo, publicada em 2015, já trazíamos entre 12 e 15 depósitos de terras raras conhecidos desde os anos 1970, com reservas cubadas. Aliás, até meados dos anos 1990, o Brasil era uma potência no desenvolvimento da cadeia produtiva desses minerais, inclusive em estágio mais avançado que a China. Mas, na época, eles tinham pouca aplicação e os trabalhos científicos foram descontinuados. O fato é que todas as rochas da Terra contêm Elementos Terras Raras (ETRs), embora em concentrações muito baixas na maioria das vezes. Quando se concentram em algumas situações pelo intemperismo, por exemplo, os teores são mais altos. Infelizmente ainda há um grande desconhecimento sobre o assunto, inclusive pelos EUA. A Serra Verde Pesquisa e Mineração (SPVM), em Minaçu (GO), única produtora de terras raras no Brasil, é controlada por uma empresa norte-americana e vende sua produção para a China.
ITM: No entanto, a questão com os EUA chamou a atenção da sociedade em geral para as terras raras e, por extensão, para a própria mineração, não?
Silveira: Sem qualquer dúvida. O SGB agradece imensamente por terem trazido esse tema para a mesa de negociação. A forma como ele será tratado vai determinar nossa relação, não só com os EUA, como com o mundo inteiro daqui para a frente. Acho, inclusive, que toda a América Latina deveria se unir e usar seus bens minerais como moeda de troca. Aliás, no PDAC (evento global de exploração mineral e mineração realizado anualmente no Canadá), o destaque não foram as terras raras, mas o alumínio e o cobre para a transição energética. A verdade é que não há minerais suficientes para atender a demanda mundial e a economia circular terá um papel importante nesse processo. O SGB tem um projeto com essa finalidade, a partir do estudo de rejeitos de mineração, avaliando o que poderá ser aproveitado tanto em minas ativas quanto em passivos do setor.
ITM: Onde se localizam as principais ocorrências de minerais estratégicos?
Silveira: Minas Gerais, até pelo conhecimento geológico amplo de seu território, é o estado com maior potencial para terras raras, nióbio, lítio, titânio, urânio, diamante etc. A Bahia vem na sequência, seguida do Pará e Goiás. O Tocantins, embora muito desconhecido, é uma janela de oportunidades. A borda da Bacia do Maranhão (MA) também tem um potencial gigantesco, como demonstrado em trabalhos recentes que realizamos, para fosfato, terras raras e urânio.
ITM: Voltando à Elevação Rio Grande, cujo controle está sendo reivindicado pelo governo brasileiro, quais são as substâncias minerais contidas nessa área?
Silveira: As principais são cobalto e níquel, mas existe potencial para terras raras e gás natural. Neste segundo caso, encontramos estruturas gigantescas de escape de gases, tipo crateras, com cerca de 100 km de diâmetro. Toda a massa de dados que produzimos na ERG – levantamentos geofísicos, sonográficos e fotográficos além da coleta de amostras – foi entregue à Marinha do Brasil, que é a responsável pelas áreas marítimas e tem sido uma grande parceira do SGB. O navio de pesquisa Vitório de Oliveira, que utilizamos nesses trabalhos, pertence a 4 instituições – Marinha, Petrobras, MCTI e SGB, que se revezam durante o ano para realizar suas expedições. Além das nossas próprias viagens, por vezes somos convidados para apoiar trabalhos da Petrobras, por exemplo. É dessa forma que vamos continuar a adquirir dados primários de toda a margem continental do país.
ITM: Apenas para deixar claro, a reivindicação da ERG é resultado direto das pesquisas do SGB?
Silveira: Exatamente, porque nas amostras coletadas identificamos a presença de rochas do continente e não de crosta oceânica. O que demonstra que temos ali uma parte do nosso continente que se desprendeu e submergiu quando a América do Sul se separou da África e da Antártica. Nossas pesquisas foram autorizadas pela ISBA (Autoridade Internacional de Fundos Marinhos) e, com base nelas, a Marinha e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) estão reivindicando a área.
ITM: Como estão os leilões públicos de áreas do SGB?
Silveira: Em 2024 realizamos os leilões do Diamante de Santo Inácio (BA), Fosfato de Miriri (PB/PE), Ouro de Natividade (TO) e da Gipsita de Aveiro (PA). Fizemos também o de Caulim do Rio Capim (PA), por duas vezes, mas como não houve interessados, haverá uma nova licitação. Percebemos que os leilões não têm tido tanta atratividade e estudamos mudar o modelo atual, reunindo todas as áreas remanescentes que temos para fazer uma parceria com a B3 (bolsa de valores brasileira) e realizar leilões eletrônicos, no mesmo formato que a ANM adotou para suas áreas. Devemos fazer uma consulta ao TCU para avaliar essa possibilidade.
ITM: Para concluir, eu gostaria de saber, em sua avaliação, se falta reconhecimento e valorização do papel da DGM e do próprio SGB no desenvolvimento da mineração brasileira?
Silveira: Eu tenho refletido muito sobre essa questão. Principalmente após a última reunião da ASGMI (Associação Ibero-Americana de Serviços de Geologia e Mineração), em Cusco, no Peru, em abril deste ano. Um dos temas do encontro foi a comunicação do setor mineral, geralmente feita para o próprio setor. Considerou-se, então, que a mineração deve fazer uma autocrítica desse processo e aprender a dialogar com toda a sociedade. É preciso estar aberto e ter a coragem de defender a mineração em público, de trazer a sua importância para o debate. Não dá, por exemplo, para não discutir com o Ibama (órgão ambiental do governo federal) porque lá só tem ambientalista. Nesse cenário, jornalistas, como formadores de opinião, são muito importantes para dar espaço ao posicionamento da mineração em relação a vários temas da atualidade. Para mim, não existe tema que não possa ser discutido.
Perfil
Nasceu em: 1º de janeiro de 1960, em Cerro Corá, interior do Rio Grande do Norte (RN), “um centro da mineração de tungstênio”
Mora em: Natal (RN)
Formação acadêmica: Técnico em Geologia e Geólogo, com mestrado em Geociências e doutorado em Geodinâmica e Geofísica, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Trajetória profissional: Técnico em Geologia na SOPEMI Pesquisa e Exploração de Minérios, do grupo De Beers (1981-1986), Paulo Abib Engenharia (1987-1988), Jacobina Mineração e Comércio (1989-1990) e Mineração Bodó (1990-1995). Estagiário em Geologia na Petrobras (1995). Geólogo na De Beers (1997-1999). Geólogo concursado no SGB (2003/…). Chefe do Departamento de Recursos Minerais do SGB (2010-2016). Diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB (2023/…)
Família: Sou muito bem casado e tenho 2 filhos: uma filha dentista, que me deu duas netas, e um filho médico, que me deu duas netas e um neto
Time de futebol: Fluminense e o América de Natal, que é do coração
Hobby: Gosto de fazer trilha em montanhas. Já fiz várias nos Andes
Um mestre ou ídolo: Tenho ambos. Meu mestre é meu pai, Francisco Sales
Silveira, que faleceu há dois anos. Era analfabeto e nasceu e viveu na mineração. Disse em minha dissertação de doutorado que “na sabedoria da ignorância, ele me fez estudar”. Meu ídolo é Ayrton Senna
Maior decepção: Os senhores da guerra, que não têm cognição, estão fora do razoável e se encapsulam nesse contexto
Maior realização: Ter tido a oportunidade de estudar. Sou um produto disso
Um projeto de vida ou profissional: Ser ético, justo, comprometido e praticar a arte de lidar com pessoas tirando o melhor delas, independente das diferenças que possamos ter. E, neste momento, “construir” pessoas que sigam em frente no SGB. Estou terminando minha carreira
Um “conselho” a jovens geólogos: A Geologia é a melhor profissão do mundo, mas é preciso ter dedicação, estudar e abraçá-la com muito afinco, muito foco. É ela que possibilita tantas viagens pelo planeta. Sorte de quem é geólogo em país com tal diversidade geológica como o nosso

