Em 2020, a Arcadis Brasil iniciava um trabalho de consultoria junto à AngloGold Ashanti para a construção de uma estratégia de uso futuro das áreas das minas Velha e Grande, em Nova Lima, Minas Gerais. Já naquele momento, a empresa demonstrava seu interesse em integrar essas áreas à dinâmica urbana do município, propondo novos usos que valorizassem o território.
“A partir dessa diretriz, aplicamos nossa metodologia de proposição de uso futuro para áreas mineradas, com foco em gerar valor compartilhado com a comunidade e preservar os patrimônios históricos, culturais e ambientais da região”, explica Fernanda Gomes Corrêa Laham, gerente de Portfólio e head de Adaptação Climática da Arcadis Brasil. Segundo ela, o projeto tem potencial de impulsionar a revitalização do centro de Nova Lima, transformando-se em um modelo de legado socioambiental da mineração.

A Arcadis é uma multinacional holandesa, fundada em 1888, que atua há 60 anos no Brasil, com sede em São Paulo (SP) e filiais no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Maranhão. O portfólio da empresa inclui mais de 30 Planos Ambientais de Fechamento de Mina (PAFEM) e 13 estudos de uso futuro de áreas mineradas. Sua atuação se estende também à estruturação de investimentos sociais em comunidades próximas à atividade mineral, elaboração de Planos de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBMs) e de Planos de Descarbonização para operações minerais, adaptação climática de ativos e territórios, gerenciamento de obras de fechamento e estudos técnicos para minerais críticos e seus riscos.
Projeto
O PAFEM das minas Velha e Grande foi desenvolvido com uma abordagem estratégica e integrada, contemplando aspectos físicos, bióticos, socioeconômicos e geotécnicos, com foco na reabilitação ambiental das áreas, mitigação de riscos e diretrizes para usos sustentáveis futuros. Entre as medidas previstas estão a reabilitação da cava a céu aberto, a desativação e manutenção segura de estruturas subterrâneas, o controle de passivos ambientais e a implementação de programas contínuos de monitoramento geotécnico, hídrico e ecológico durante o período pós-fechamento.

A antiga cava a céu aberto da mina Velha possui formato ovalado, profundidade aproximada de 120 m e ocupa uma área de cerca de 7 hectares. “A cava passará por obras preparatórias para estabilização dos taludes, adequação do sistema de drenagem superficial e implantação de acessos seguros, antes do processo de fechamento propriamente dito, com seu preenchimento (backfilling) com material inerte, proveniente da própria unidade ou de áreas previamente identificadas, com características compatíveis para garantir a estabilidade da estrutura”, diz Fernanda. A quantidade exata do material inerte não foi estimada no PAFEM.
Após o fechamento, a área será revegetada com espécies nativas ou adaptadas, favorecendo a regeneração natural já observada em algumas partes do terreno. O monitoramento será contínuo e abrangerá aspectos geotécnicos (como a estabilidade dos taludes), hídricos (qualidade da água e escoamento superficial) e biológicos (revegetação e biodiversidade), assegurando a sustentabilidade do projeto no longo prazo.

Já a antiga operação subterrânea da mina Velha inclui galerias extensas, poços de ventilação, rampas de acesso e um shaft principal. Conforme o plano de fechamento, todos os acessos ao subsolo serão definitivamente bloqueados para garantir a segurança e a estabilidade geotécnica da área. Segundo Fernanda, em razão das restrições técnicas, riscos envolvidos e complexidade ambiental dos trabalhos de recuperação, não foi contemplada a possibilidade de destinação turística para o subsolo da mina.
Todos os edifícios tombados serão restaurados e terão sua utilização definida de forma a permitir sua funcionalidade e o acesso da população. Considerado um dos maiores conjuntos de patrimônio industrial histórico do Brasil, a destinação de cada edificação será integrada ao plano geral de transformação da área das minas Velha e Grande, respeitando seu valor cultural e arquitetônico. “O espaço contará ainda com uma Operação Urbana Consorciada – OUC Nova Vila -, para viabilizar um modelo legal e operacional que permita a atração de investimentos e a dinamização da transformação urbana, estruturando a atuação dos diversos agentes envolvidos e tornando o projeto um catalisador de desenvolvimento para Nova Lima”, conclui Fernanda.
A OUC Nova Vila prevê a construção de uma área não residencial, com centro cultural, equipamentos de ensino e centros de cultura, eventos, gastronômico, de comércio e serviços. A área residencial e de uso misto contará com edificações multifamiliares verticais e horizontais e mercado distrital e será criada uma área de preservação ambiental. Também será construída uma nova via pública com 2 km de extensão e uma ciclovia na área central do município para melhorar a circulação viária local.
A implantação do PAFEM será executada pela AngloGold até 2032, data prevista para a finalização das ações de monitoramento pós-encerramento, com custo estimado de cerca de R$ 20,4 milhões, valor que não inclui a construção da OUC Nova Vila.

Configuração
Segundo informações do PAFEM, que integra o processo de fechamento de mina apresentado à FEAM (Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais) em janeiro de 2023, a Unidade Minero-Metalúrgica Mina Velha é a junção de duas minas subterrâneas – Velha e Grande -, da cava a céu aberto da mina Velha, da antiga planta industrial e de um sistema de tratamento de água. Sua operação foi iniciada em 1725, com a lavra a céu aberto dos corpos de minério Bahú, Gambá e Cachoeira, seguida da lavra subterrânea, a partir de 1834, que chegou a 2.453 m de profundidade no século XX.

Atualmente, a mina subterrânea possui 600 m de profundidade, sendo composta por 16 níveis e 3 interníveis de lavra, acessados por duas rampas principais e quadro poços. O último nível subterrâneo da mina Velha é o primeiro nível da mina Grande. No entanto, em razão da existência de duas entradas – uma para a mina Velha, por um túnel localizado próximo à antiga cava a céu aberto, e outra para a mina Grande, situada na área industrial – e ao contexto histórico local de abertura, as minas eram tratadas distintamente. Durante a operação, a lavra e saída de minério ocorriam simultaneamente em ambas as entradas. A entrada pela cava da mina Velha foi usada até sua desativação, em 2003.
Já a planta industrial do complexo possui cerca de 26,10 ha, sendo composta de pátios, prédios, depósitos e áreas de deposição, respondendo, durante toda a operação, pelo beneficiamento do minério extraído nas duas minas. Um túnel, que ligava essa área industrial à cava a céu aberto da mina Velha, foi bloqueado em 2017 devido a problemas de estabilidade. A planta industrial foi descomissionada pela AngloGold entre 1998 e 2003 através do projeto Clean Up, com a construção de um sistema de tratamento de efluentes; desmontagem, demolição e remoção das estruturas metálicas e de madeira e das instalações industriais; tratamento dos materiais removidos; terraplenagem; e recuperação ambiental da área degradada. Por sua relevância histórica, arqueológica e antropológica para o município de Nova Lima, o projeto manteve diversas edificações que serão revitalizadas e destinadas a novo uso pela OUC Vila Nova.

A Unidade Minero-Metalúrgica Mina Velha foi tombada pelo município de Nova Lima em 2019 como “Conjunto Histórico Industrial de Morro Velho”, englobando a Casa Grande, o Cemitério dos Ingleses e o Cruzeiro da Boa Vista, além do antigo complexo industrial. O complexo também é protegido em âmbito federal como sítio arqueológico.
