Quem hoje avista do mirante ou percorre as trilhas locais para chegar às margens da Lagoa Azul de Serra do Navio, no Amapá, pode não acreditar nos guias que contam sobre a mineração de manganês que ali se instalou no início da década de 1950. Ainda assim é verdade.
À época, uma conjunção de fatores tinha tudo para que a mina, em plena Floresta Amazônica, uma vez exaurida, deixasse atrás de si um rastro de destruição ambiental. A Icomi – Indústria e Comércio de Minérios -, concessionária da jazida, embora associada à multinacional norte-americana Bethlehem Steel, era uma pequena empresa sediada em Belo Horizonte (MG), fundada pelo engenheiro civil Augusto Trajano de Azevedo Antunes, até então, sem qualquer experiência em mineração.
A operação dava-se no então Território Federal do Amapá, criado alguns anos antes (1943) e ainda sem uma sociedade civil organizada. O Brasil só teria uma legislação ambiental e agências governamentais dedicadas ao tema na década de 1980. A lavra e beneficiamento do minério de manganês não teria como acontecer sem os decorrentes impactos: desmatamento, levando à dispersão da fauna nativa; desmonte de morros – no caso, cerca de 10 morretes com alturas entre 150 e 200 m, parcial ou inteiramente eliminados -; assoreamento de rios, em especial, o Amapari; construção de lagoas de deposição de sedimentos; emissão de gases e particulados; disposição de rejeitos e estéril, entre outros vários.
O desmatamento, no entanto, foi mínimo para um empreendimento que durou mais de 40 anos e extraiu cerca de 60 Mt de minério. Apenas 1.350,50 ha (28,09% da área concedida de 4.800 ha) incluindo, além da mina, áreas para construção da vila operária, estradas, ruas e ferrovias. Além disso, já na década de 1980, a Icomi passou a executar diversos programas de monitoramento ambiental e revegetação de áreas mineradas, embora quase nunca bem-sucedidos.
No início dos anos 1990, Paulo Roberto Neme de Amorim, diretor do Departamento de Meio Ambiente da empresa, orientou sua equipe a cobrir as encostas degradadas com uma grossa camada protetora composta de lixo vegetal coletado nas florestas vizinhas, misturado com terriça (restos de grama e galhos oriundos da manutenção dos gramados, jardins e parques da vila operária) e com sementes de gramíneas regionais, ervas e terra. Uma vez que essa cobertura criasse um estrato estável controlando a erosão, era feito o plantio de espécies nativas de árvores de rápido crescimento, arbustos exóticos e plantas florescentes nativas capazes de atrair insetos noturnos e, através deles, morcegos, conhecidos dispersadores de sementes.
A técnica foi nomeada e patenteada por Amorim como Revecom-BS (Restos de Vegetais, Composto Orgânico e Banco de Sementes). Em cerca de 30 meses foram replantados 218 ha com 253.186 mudas de árvores e arbustos. Alguns capões de floresta nativa, poupados dentro do perímetro de mineração, também serviram como núcleos de recuperação florestal. Em fins de 1995, somente 621,30 ha da área impactada, ainda em lavra, não tinham cobertura vegetal.
Quanto ao manejo de água, alguns pequenos riachos afluentes do rio Amapari desapareceram ou tiveram seus leitos retraçados. Mas o rio foi mantido sob rigoroso monitoramento. Da rede de lagoas de estabilização, as mais antigas assorearam e foram cobertas por vegetação densa, plantada ou espontânea. As mais novas ainda existem. Uma delas é a Lagoa Azul, onde a grande concentração de sulfato e cloro explica a coloração das águas, que oscilam entre azul-turquesa e verde.
Fonte: Artigo de José Augusto Drummond, professor adjunto do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF)
Fotos 1 (Embratur); 2 e 4 (Luis Leal J.S.); 3 (TripAdvisor); 5 (Cetur); 6 (WWF Brasil)






