{"id":32511,"date":"2026-10-29T20:37:47","date_gmt":"2026-10-29T23:37:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/?p=32511"},"modified":"2026-10-29T20:37:47","modified_gmt":"2026-10-29T23:37:47","slug":"uma-pioneira-da-geometalurgia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/uma-pioneira-da-geometalurgia-no-brasil\/","title":{"rendered":"UMA PIONEIRA DA GEOMETALURGIA NO BRASIL"},"content":{"rendered":"<p>Mesmo nos corredores apinhados da Exposibram 2026, congresso e feira de minera\u00e7\u00e3o realizados no final de agosto em Belo Horizonte (MG), sua passagem n\u00e3o passou despercebida. A caminhada era interrompida a cada poucos passos por amigos, colegas e principalmente muitos profissionais do setor que foram seus alunos no curso de Geologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) entre os anos de 1994 e 2007.<\/p>\n<p>Os 13 anos de doc\u00eancia acad\u00eamica foram um per\u00edodo intermedi\u00e1rio entre sua atua\u00e7\u00e3o na iniciativa privada e no poder p\u00fablico. Neste \u00faltimo, com destaque para o ent\u00e3o DNPM \u2013 Departamento Nacional de Produ\u00e7\u00e3o Mineral -, atual Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM), para o Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil (SGB), ent\u00e3o CPRM (Cia. de Pesquisa de Recursos Minerais) e, desde 2024, para a diretoria de Minera\u00e7\u00e3o na Subsecretaria de Energia e Minera\u00e7\u00e3o da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Log\u00edstica (SEMIL) do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>J\u00e1 na cerim\u00f4nia de abertura da Exposibram, em 24 de agosto, Lilia Mascarenhas Sant&#8217;Agostino fora homenageada por sua contribui\u00e7\u00e3o em pol\u00edticas p\u00fablicas e gest\u00e3o governamental, como parte das comemora\u00e7\u00f5es dos 50 anos do IBRAM (Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o). Por contribui\u00e7\u00e3o entenda-se contribui\u00e7\u00f5es \u2013 v\u00e1rias e de significativo impacto no impulso ao desenvolvimento mineral. Para ficar somente em tr\u00eas exemplos, a ge\u00f3loga e mestre em Recursos Minerais participou, ainda no DNPM, da elabora\u00e7\u00e3o das Medidas Provis\u00f3rias (MPs) que trataram da reorganiza\u00e7\u00e3o das normas da CEFEM (Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o de Recursos Minerais), da transforma\u00e7\u00e3o do DNPM em ANM e da nova regulamenta\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o, esta \u00faltima vetada \u00e0 \u00e9poca e aprovada a partir de uma nova proposta, em 2018.<\/p>\n<p>Mas, muito antes, ainda como estudante, Lilia iniciaria o percurso rumo ao que considera uma de suas maiores realiza\u00e7\u00f5es profissionais at\u00e9 hoje: a introdu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da \u00e1rea de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de min\u00e9rios no Brasil. A metodologia constru\u00edda a partir da influ\u00eancia de um professor de Geoci\u00eancias, durante o decurso de uma bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, foi maturada depois no trabalho junto \u00e0 lend\u00e1ria consultoria Paulo Abib Engenharia e ganhou forma e ades\u00e3o, consolidando-se como prim\u00f3rdio do que se conhece hoje por Geometalurgia.<\/p>\n<p>Nesta entrevista exclusiva \u00e0 <strong>In the Mine<\/strong>, Lilia retoma sua trajet\u00f3ria e surpreende com a atualidade e dinamismo de suas ideias. Incans\u00e1vel, reafirma, como projeto, o de continuar a transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o conhecimento adquirido, em agradecimento \u00e0s oportunidades que teve ao longo da vida. A jovens ge\u00f3logos recomenda que \u201csejam arautos de divulga\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia das ci\u00eancias da Terra, em especial quanto aos recursos minerais, base da nossa civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O que a motivou a escolher a Geologia em uma \u00e9poca com poucas mulheres no setor e porque se especializou em recursos minerais?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Realmente, eu me formei em Geologia numa \u00e9poca em que a presen\u00e7a feminina chegava a 2% de toda a equipe da Universidade. Quando fui docente, na mesma USP, esse percentual j\u00e1 estava entre 50 e 55%, o que demonstra um progresso muito grande da busca feminina por essa carreira. Claro que houve vozes contr\u00e1rias \u00e0 minha escolha, de familiares e amigos, no sentido de ser uma op\u00e7\u00e3o pouco atrativa para mulheres. Mas eu projetava um sonho de crian\u00e7a, de estudar a ci\u00eancia que cuidava das \u201cpedrinhas\u201d e, em algum momento, eu soube que essa ci\u00eancia era a Geologia. J\u00e1 na adolesc\u00eancia, quando tive de optar por um curso de gradua\u00e7\u00e3o, apesar de todos os desincentivos, resolvi seguir minha primeira aspira\u00e7\u00e3o. Quanto \u00e0 raz\u00e3o de me dedicar \u00e0 \u00e1rea de recursos minerais, ela surge ainda no primeiro ano de faculdade, ao conseguir uma bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com professores que atuavam com prospec\u00e7\u00e3o e pesquisa mineral. Fui, ent\u00e3o, introduzida nessa especialidade e mergulhei nela com muita disposi\u00e7\u00e3o e motiva\u00e7\u00e3o, a ponto de definir minha trilha profissional.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Qual foi o impacto de sua atua\u00e7\u00e3o em prospec\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na an\u00e1lise da viabilidade real de dep\u00f3sitos minerais?<\/p>\n<p><strong>Lilia:<\/strong> O desenvolvimento do processo de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mineral, pioneiro no Brasil, me levou a trabalhar na Paulo Abib Engenharia. Ela n\u00e3o s\u00f3 foi uma grande escola para mim, mas sobretudo uma escola de integra\u00e7\u00e3o, agregando o aprendizado sobre as caracter\u00edsticas do min\u00e9rio que iria para o beneficiamento, especialidade da empresa. Essa visualiza\u00e7\u00e3o mais ampla e sist\u00eamica de toda a cadeia, obtida gra\u00e7as a um trabalho grande em equipe, nos permitia um entendimento abrangente da qualidade do min\u00e9rio, das reservas e de sua viabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Mesmo em uma \u00e9poca com recursos tecnol\u00f3gicos mais limitados, certo?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Sem d\u00favida. Mesmo assim, conseguimos consolidar a implanta\u00e7\u00e3o do conceito de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de min\u00e9rios, que representou os prim\u00f3rdios do que hoje chamamos Geometalurgia. V\u00e1rios projetos passaram ent\u00e3o a monitorar a qualidade de seu min\u00e9rio, fazendo a modelagem da reserva em fun\u00e7\u00e3o disso para orientar a pr\u00f3pria lavra, uma metodologia hoje bastante comum.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>A doc\u00eancia na USP veio na sequ\u00eancia desse trabalho?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>N\u00e3o. Depois da Paulo Abib ainda atuei em empresas de minera\u00e7\u00e3o e s\u00f3 ent\u00e3o fui para a doc\u00eancia na USP, onde permaneci de 1994 a 2007, um per\u00edodo longo, mas tamb\u00e9m muito rico por conta dos alunos, da possibilidade de formar pessoas, muitas das quais seguiram no setor de recursos minerais. Tamb\u00e9m prestei consultoria a mineradoras, contribu\u00ed para a implanta\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e ministrei treinamentos nessa \u00e1rea. Foi nessa jornada que recebi um convite para ocupar um cargo no MME, \u00f3rg\u00e3o que eu n\u00e3o conhecia em detalhes. Aceitei o convite porque gosto de desafios e fui para a \u00e1rea de outorgas de t\u00edtulos miner\u00e1rios, numa vers\u00e3o bem distante da realidade atual.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Distante como?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Nada era digital. Os processos em papel, sa\u00edam da regional do ent\u00e3o DNPM (atual ANM) para a sede, em Bras\u00edlia (DF), seguiam para o MME, para assinatura do despacho, e faziam todo o caminho de volta, sob um r\u00edgido esquema de seguran\u00e7a. Nesse contexto, conhecer mais a fundo a legisla\u00e7\u00e3o mineral, a atua\u00e7\u00e3o do DNPM e o mecanismo de outorga me possibilitou fazer uma an\u00e1lise cr\u00edtica desse sistema. Participei, ent\u00e3o, da equipe que elaborou um programa de revitaliza\u00e7\u00e3o do setor mineral por meio de tr\u00eas Medidas Provis\u00f3rias (MPs).<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>E quais foram essas MPs?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Uma tratava da reorganiza\u00e7\u00e3o das normas da CEFEM. A outra transformava o DNPM em ANM, uma aspira\u00e7\u00e3o antiga. A terceira propunha uma nova regulamenta\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o, justamente para melhorar a ambi\u00eancia de tramita\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos e dinamizar o setor, tornando-o mais atrativo a investidores. Dessas tr\u00eas MPs, foram aprovadas a da CEFEM e a da cria\u00e7\u00e3o da ANM &#8211; esta \u00faltima com dificuldades de implementa\u00e7\u00e3o posteriores, como a falta de equipara\u00e7\u00e3o salarial e necessidade de concursos. Mesmo com toda a evolu\u00e7\u00e3o, a ag\u00eancia ainda n\u00e3o tem a atua\u00e7\u00e3o que poderia ter.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>E quanto ao regulamento do C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Como essa MP n\u00e3o foi aprovada pelo Congresso, formulamos uma nova proposta em um trabalho conjunto entre o MME, a SGM e a ANM, que saiu em 2018. Esse regulamento trouxe modernidade, especialmente na digitaliza\u00e7\u00e3o dos processos e descentraliza\u00e7\u00e3o de outorgas, como as de concess\u00e3o de lavra para materiais de base para constru\u00e7\u00e3o civil, que passaram a ser emitidas pelas regionais da ANM e n\u00e3o mais em Bras\u00edlia, gerando agilidade. O regulamento recebeu mais de 300 contribui\u00e7\u00f5es e, por flexibilizar regras, foi naturalmente criticado por quem preferia a postura anterior do fiscalizador, mas a reforma total defendida por alguns traria uma inseguran\u00e7a jur\u00eddica enorme. O regramento atual continua firme, robusto e cumpre suas atribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Quais ajustes a senhora destacaria como necess\u00e1rios no regulamento atual?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Creio que seriam ajustes para dar ainda maior dinamismo aos t\u00edtulos, o que exigiria o fortalecimento da ANM. Por exemplo, temos a disponibilidade dos leil\u00f5es de \u00e1reas desoneradas, considerado um grande ganho pelo setor. No entanto, o que temos visto \u00e9 que a ag\u00eancia n\u00e3o conseguiu dar continuidade ao fluxo esperado para esses leil\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Voltando \u00e0 transi\u00e7\u00e3o do setor privado para o p\u00fablico, como foi essa mudan\u00e7a para a senhora?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Foi um susto. Embora a academia tenha sua pr\u00f3pria burocracia e resist\u00eancias internas que formam quase um inconsciente coletivo contr\u00e1rio a mudan\u00e7as, no servi\u00e7o p\u00fablico o problema \u00e9 mais complexo, em especial em um ambiente que responde pela regula\u00e7\u00e3o de um setor. Mas foi um aprendizado muito rico e tive um grande suporte de uma equipe fant\u00e1stica para diminuir a burocracia, buscando a\u00e7\u00f5es que dinamizassem os procedimentos, busca essa, ali\u00e1s, que fa\u00e7o at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>ITM: Qual foi o significado pessoal e profissional de sua elei\u00e7\u00e3o para o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do SGB em 2019?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Foi um momento importante para entender a institui\u00e7\u00e3o. O SGB estava consolidando sua posi\u00e7\u00e3o como Institui\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (ICT), ampliando sua base de dados georreferenciados e estruturando seus laborat\u00f3rios. Mesmo que apenas 25 a 30% dos assuntos tratados no Conselho sejam t\u00e9cnicos \u2013 o restante era administrativo &#8211; foi muito interessante, no sentido de uma porta que se abriu e, ali tamb\u00e9m, busquei contribuir para vencer burocracias em um servi\u00e7o com cerca de 1.500 funcion\u00e1rios e atua\u00e7\u00e3o nacional. Essa experi\u00eancia fechou meu ciclo de forma\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> Como essa trajet\u00f3ria se alinha com a crescente ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de lideran\u00e7a por mulheres na minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Cito o exemplo de uma funcion\u00e1ria al\u00e7ada a uma diretoria do SGB na minha gest\u00e3o que disse que a nomea\u00e7\u00e3o decorria do movimento de inclus\u00e3o das mulheres na minera\u00e7\u00e3o. Respondi que ela n\u00e3o foi designada por ser mulher, mas por compet\u00eancia. Estamos t\u00e3o descrentes da meritocracia que creditamos as oportunidades ao movimento de inclus\u00e3o, quando se trata de m\u00e9rito, perseveran\u00e7a e resili\u00eancia. As mulheres que permanecem no setor mineral gostam muito do que fazem e isso lhes d\u00e1 um diferencial de empenho e dedica\u00e7\u00e3o para vencer obst\u00e1culos e se aperfei\u00e7oar. Hoje temos muitas mulheres na minera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tanto em cargos de dire\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, mas em cargos de ger\u00eancia, coordena\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> Qual a sua vis\u00e3o sobre iniciativas como o Women in Mining Brasil e as pol\u00edticas de cotas no setor?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>\u00c9 um movimento v\u00e1lido. Mas o caminho n\u00e3o \u00e9 almejar que mulheres ocupem cargos somente por serem mulheres. N\u00e3o se trata de uma cota. Agir assim pode levar \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias profissionais. Ap\u00f3s v\u00e1rios anos de vida profissional, nunca encontrei barreiras por ser mulher. Fui trabalhar em campo, atr\u00e1s de um britador, em um local dominado por homens, e fui contratada antes de me formar. As oportunidades sempre se abriram por meritocracia e sempre fui tratada com respeito. Me pergunto se a difus\u00e3o da inclus\u00e3o n\u00e3o pode levar a crer que mulheres competentes n\u00e3o mereceram as vagas por si mesmas, pois a verdadeira inclus\u00e3o passa pela oferta da mesma oportunidade a todas.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como \u00e9 esse contexto na SEMIL?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Temos 60% dos cargos ocupados por mulheres. Na Subsecretaria de Energia e Minera\u00e7\u00e3o s\u00e3o 75%. Todas por absoluta compet\u00eancia. Esse deveria ser o Norte nessa quest\u00e3o. O restante \u00e9 fogo de palha. E queima.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> Quais estrat\u00e9gias federais integradas ao SGB foram fundamentais para expandir o conhecimento geol\u00f3gico e atrair novos investimentos?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>No programa de revitaliza\u00e7\u00e3o em 2017 definiu-se que todos os dados do SGB seriam p\u00fablicos, um marco que liberou o acesso a esse conhecimento. Fui para o Conselho dois anos depois, quando se discutia a infraestrutura de inform\u00e1tica para movimentar esse volume de informa\u00e7\u00f5es e fortalecimento laboratorial para estudos mais aprofundados de dep\u00f3sitos minerais, com data\u00e7\u00f5es, por exemplo. Um problema que perdura, infelizmente, \u00e9 a estrutura governamental de aporte de recursos. O SGB at\u00e9 recebe verbas, mas sempre sujeitas a contingenciamento em mar\u00e7o, o que compromete o planejamento e execu\u00e7\u00e3o de seu programa de campo. Quando liberadas, em agosto ou setembro, n\u00e3o h\u00e1 como continuar os trabalhos devido \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de chuvas em muitas regi\u00f5es do pa\u00eds. Essa estrutura or\u00e7ament\u00e1ria deveria ser fixada como pol\u00edtica de Estado e n\u00e3o de governo.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel contornar essa restri\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria de alguma forma?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Sim. O SGB tem recorrido a conv\u00eanios, como o firmado com o governo de Santa Catarina para estudos locais. Aqui na SEMIL, desenvolvemos uma parceria semelhante com o SGB, ainda em n\u00edvel embrion\u00e1rio, envolvendo tr\u00eas grandes linhas: amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento geol\u00f3gico b\u00e1sico do territ\u00f3rio, gest\u00e3o de riscos e estudos relacionados a \u00e1gua mineral, fundamentais para\u00a0 atrair investimentos. Ainda precisamos realizar algumas adequa\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e prevemos uma conclus\u00e3o desse processo para 2027.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> Como a SEMIL equilibra a expans\u00e3o urbana de S\u00e3o Paulo com a prote\u00e7\u00e3o ambiental e o licenciamento das jazidas de agregados vizinhas \u00e0s cidades?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>O licenciamento ambiental \u00e9 feito de forma aut\u00f4noma pela CETESB, companhia ambiental do estado com a qual mantemos um di\u00e1logo permanente. J\u00e1 a proximidade das jazidas aos n\u00facleos urbanos \u00e9 o grande desafio de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o podemos afastar a produ\u00e7\u00e3o para n\u00e3o encarecer o produtos e, por outro lado, o crescimento urbano invade e esteriliza as jazidas. Por isso estamos muito focados no chamado ordenamento territorial da minera\u00e7\u00e3o, buscando compatibilizar o uso do solo com a atividade mineral que possui rigidez locacional e temporalidade, tratando-se, no caso, de dep\u00f3sitos de minerais para uso imediato. J\u00e1 encaminhamos \u00e0 Alesp (Assembleia Legislativa do estado) um Projeto de Lei propondo uma pol\u00edtica estadual de aproveitamento dos recursos minerais, abordando inclusive a quest\u00e3o do ordenamento territorial.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O IPT (Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas, vinculado \u00e0 USP) tem um trabalho importante sobre ordenamento territorial&#8230;<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Exato. O IPT tem sido acionado n\u00e3o apenas pela SEMIL, como j\u00e1 foi pelas secretarias que a antecederam, para elaborar o Ordenamento Territorial Geomineiro (OTGM), fornecendo estudos t\u00e9cnicos de base que ir\u00e3o subsidiar nossas futuras a\u00e7\u00f5es. J\u00e1 havia estudos realizados em algumas regi\u00f5es e definimos uma programa\u00e7\u00e3o para abranger \u00e1reas regionais, cobrindo tamb\u00e9m as bacias hidrogr\u00e1ficas. Em nossa gest\u00e3o, o IPT j\u00e1 avaliou o Vale do Para\u00edba, Alto Paranapanema e Vale do Para\u00edba Litoral Norte e, no momento, se concentra na Bacia Hidrogr\u00e1fica Tiet\u00ea-Sorocaba. A previs\u00e3o \u00e9 concluir esse trabalho em 2027 e expandi-lo.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> O Plano Estadual de Minera\u00e7\u00e3o 2050 (PEM 2050) tamb\u00e9m contempla essas diretrizes de ordenamento territorial?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Nossa proposta de pol\u00edtica mineral possui dois instrumentos fundamentais: o PEM 2050 e o Ordenamento Territorial da Minera\u00e7\u00e3o. O PEM 2050, ainda na fase de diagn\u00f3stico, \u00e9 coordenado por professores da Escola Polit\u00e9cnica da USP e deve ser conclu\u00eddo entre mar\u00e7o e abril de 2027. Ele est\u00e1 na etapa de diagn\u00f3stico do setor. Esse diagn\u00f3stico ser\u00e1 feito por grandes \u00e1reas do setor mineral a partir de suas empresas e orientado pela sustentabilidade, desde o aproveitamento de todo o min\u00e9rio lavrado, na pr\u00f3pria cadeia ou em outra cadeia produtiva, at\u00e9 o fechamento de mina, a partir da conforma\u00e7\u00e3o da \u00e1rea para uso futuro.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>H\u00e1 algum plano espec\u00edfico para passivos ambientais de minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Todo o estado est\u00e1 constru\u00eddo sobre antigas minera\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o temos passivos desse tipo, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos deixados pela minera\u00e7\u00e3o de chumbo no Vale do Ribeira, mais relacionados a quest\u00f5es de contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica. Quanto a quest\u00f5es de morfologia de terreno, de estruturas, h\u00e1 alguns casos pontuais a serem olhados.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> O governo lan\u00e7ou recentemente o Painel Mineral. Poderia explicar o funcionamento e o objetivo dessa ferramenta?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>O painel \u00e9 um aplicativo de f\u00e1cil acesso com mapas e georreferenciamento para que os mun\u00edcipes conhe\u00e7am o potencial mineral local e os agentes p\u00fablicos incluam a minera\u00e7\u00e3o em seus planos diretores municipais, j\u00e1 que o munic\u00edpio define sua organiza\u00e7\u00e3o territorial. Ele foi elaborado a partir de um acordo de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica com o IBRAM e est\u00e1 dispon\u00edvel no sistema DataGeo, plataforma de dados espaciais e ambientais do estado desenvolvida pela SEMIL.<\/p>\n<p><strong>ITM:<\/strong> S\u00e3o Paulo lidera isoladamente a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua mineral no pa\u00eds. De que forma o Selo Fiscal Eletr\u00f4nico e o fim da substitui\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria ajudam a impulsionar esse mercado?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Ambos s\u00e3o conquistas da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria de \u00c1guas Minerais (ABINAM) resultantes de um movimento iniciado e conduzido pela entidade. O selo objetiva combater a concorr\u00eancia desleal, a sonega\u00e7\u00e3o fiscal e a falsifica\u00e7\u00e3o no setor e tem cumprido essas fun\u00e7\u00f5es. Um exemplo \u00e9 a significativa amplia\u00e7\u00e3o do recolhimento da CFEM como decorr\u00eancia dessa regulariza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o combate a opera\u00e7\u00f5es clandestinas e \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o de \u00e1gua mineral tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica. O selo certifica a qualidade do produto desde sua extra\u00e7\u00e3o at\u00e9 a venda, inclusive em termos de menor impacto ambiental. Eu destaco que essa regulariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m atrai outros setores. Temos sido procurados por muitas associa\u00e7\u00f5es de produtores de agregados que querem formalizar sua atividade para se diferenciarem de opera\u00e7\u00f5es clandestinas.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como pequenas e m\u00e9dias mineradoras, que dominam o cen\u00e1rio paulista, podem se adequar \u00e0s exig\u00eancias de governan\u00e7a ambiental na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>\u00c9 um grande desafio levar o conceito ambiental \u00e0s pequenas empresas de minera\u00e7\u00e3o, principalmente. At\u00e9 por quest\u00f5es culturais e falhas na forma\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o ambiental da nossa sociedade, o que acaba se refletindo tamb\u00e9m no setor produtivo. Para chegar a essas empresas temos contado com o apoio de associa\u00e7\u00f5es setoriais, que t\u00eam um trabalho bastante consistente, conhecem profundamente seus associados e funcionam como um canal de interlocu\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Por fim, olhando para sua trajet\u00f3ria, qual a senhora considera ser seu maior legado para a minera\u00e7\u00e3o brasileira?<\/p>\n<p><strong>Lilia: <\/strong>Do ponto de vista t\u00e9cnico, vejo como meu maior legado a introdu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da \u00e1rea de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de min\u00e9rios no Brasil, que acabou incorporada pelo setor. Sob a \u00f3tica da minha carreira profissional, acredito que consegui realizar um trabalho muito bom enquanto docente ao atrair muitos alunos para a \u00e1rea de recursos minerais, onde se tornaram profissionais de grande destaque. Por fim, o fato de ser um bom exemplo de como, por m\u00e9rito, uma mulher pode fazer a diferen\u00e7a no setor mineral.<\/p>\n<h2><a href=\"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Foto4-2-e1793317057301.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-32513\" src=\"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Foto4-2-e1793317057301.jpg\" alt=\"Lilia Mascarenhas Sant'Agostino\" width=\"800\" height=\"1201\" \/><\/a><\/h2>\n<h2><strong>Perfil<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Nasceu em: <\/strong>18 maio 1948, em S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n<p><strong>Mora em: <\/strong>S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica: <\/strong>Gradua\u00e7\u00e3o em Geologia e doutoramento em Engenharia Mineral pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/p>\n<p><strong>Trajet\u00f3ria profissional: <\/strong>Ge\u00f3loga em empresas de consultoria e especializa\u00e7\u00e3o em estudos de min\u00e9rio, com atua\u00e7\u00e3o em prospec\u00e7\u00e3o e pesquisa mineral, avalia\u00e7\u00e3o de dep\u00f3sitos e jazidas minerais e beneficiamento mineral (1970 a 1985). Ge\u00f3loga em empresas de minera\u00e7\u00e3o integrando equipes de prospec\u00e7\u00e3o, pesquisa e minera\u00e7\u00e3o (1986 a 1991). Docente no Instituto de Geoci\u00eancias (IGc) da USP, com atua\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de prospec\u00e7\u00e3o e pesquisa mineral e de recursos minerais (1994 a 2007). Consultora independente na \u00e1rea de recursos minerais (2008 a 2016). Diretora de Geologia (2016-2018) e Secret\u00e1ria Adjunta (2019 a 2022) da Secretaria de Geologia, Minera\u00e7\u00e3o e Transforma\u00e7\u00e3o Mineral (SGM) do Minist\u00e9rio de Minas e Energia (MME). Diretora de Minera\u00e7\u00e3o na Subsecretaria de Energia e Minera\u00e7\u00e3o da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Log\u00edstica do Estado de S\u00e3o Paulo; (2024\/&#8230;)<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia: <\/strong>Dois filhos e um neto<\/p>\n<p><strong>Um hobby: <\/strong>Piano cl\u00e1ssico<\/p>\n<p><strong>Um mestre: <\/strong>Jorge Bettencourt (ge\u00f3logo, doutor em Geoci\u00eancias pelo IGc-USP (onde foi professor titular e desde 2013 \u00e9 professor em\u00e9rito), com quem trabalhei em v\u00e1rias etapas da minha vida<\/p>\n<p><strong>Maior decep\u00e7\u00e3o: <\/strong>Tenho uma grande capacidade de esquecer as decep\u00e7\u00f5es. N\u00e3o saberia nomear nenhuma delas<\/p>\n<p><strong>Maior realiza\u00e7\u00e3o: <\/strong>Profissionalmente, a introdu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da \u00e1rea de caracteriza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de min\u00e9rios no Brasil. Pessoalmente, ter conseguido o que me propus quando decidi pela forma\u00e7\u00e3o em Geologia: trabalhar na minha profiss\u00e3o. E trabalhar bem<\/p>\n<p><strong>Um projeto: <\/strong>Transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o conhecimento adquirido, em agradecimento \u00e0s oportunidades que tive ao longo da minha trajet\u00f3ria de vida<\/p>\n<p><strong>Um \u201cconselho\u201d a jovens ge\u00f3logos: <\/strong>Que esses jovens que est\u00e3o passando a conhecer as ci\u00eancias da Terra possam encontrar a \u00e1rea de que mais gostam e se dedicar a ela com muita autenticidade, o que seguramente lhes abrir\u00e1 oportunidades. Mas solicito a eles tamb\u00e9m que sejam arautos de divulga\u00e7\u00e3o para todos com quem convivem da import\u00e2ncia dessas ci\u00eancias da Terra na nossa vida, no nosso dia a dia, inclusive no que se refere aos recursos minerais, base da nossa civiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<h5>Fotos: SEMIL\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lilia Mascarenhas Sant&#8217;Agostino, ge\u00f3loga e mestre em Recursos Minerais, retoma sua trajet\u00f3ria e surpreende com a atualidade e dinamismo de suas ideias<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":32512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-32511","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-personalidade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - 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