{"id":11880,"date":"2017-09-12T19:46:24","date_gmt":"2017-09-12T19:46:24","guid":{"rendered":"http:\/\/inthemine.com.br\/site\/?p=11880"},"modified":"2017-09-12T20:19:49","modified_gmt":"2017-09-12T20:19:49","slug":"carajas-50-anos-entrevista-com-o-geologo-breno-augusto-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/carajas-50-anos-entrevista-com-o-geologo-breno-augusto-dos-santos\/","title":{"rendered":"CARAJ\u00c1S 50 ANOS: ENTREVISTA COM O GE\u00d3LOGO BRENO AUGUSTO DOS SANTOS"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_11881\" aria-describedby=\"caption-attachment-11881\" style=\"width: 253px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/breno2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11881 size-medium\" src=\"http:\/\/inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/breno2-253x300.jpg\" alt=\"\" width=\"253\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/breno2-253x300.jpg 253w, https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/breno2.jpg 746w\" sizes=\"auto, (max-width: 253px) 100vw, 253px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-11881\" class=\"wp-caption-text\">Breno Augusto dos Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por T\u00e9bis Oliveira<\/strong><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 imposs\u00edvel dissociar Caraj\u00e1s, no Sudeste do Par\u00e1 (PA), da Vale. E, no entanto, h\u00e1 meio s\u00e9culo &#8211; uma insignific\u00e2ncia em termos de tempo geol\u00f3gico &#8211; essa associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o existia. Em maio de 1967, a US Steel, poderosa sider\u00fargica americana, chegou \u00e0 regi\u00e3o atrav\u00e9s da Companhia Meridional de Minera\u00e7\u00e3o, seguindo os passos da CODIN, subsidi\u00e1ria da concorrente Union Carbide, que j\u00e1 havia descoberto as jazidas de mangan\u00eas da Serra do Sereno, pr\u00f3ximas ao ent\u00e3o futuro garimpo de Serra Pelada. O objetivo da Meridional, com seu programa de explora\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica (BEP, na sigla em ingl\u00eas), o primeiro de grande amplitude no Pa\u00eds, tamb\u00e9m era a busca de mangan\u00eas eletrol\u00edtico, para a fabrica\u00e7\u00e3o de pilhas e baterias.<\/p>\n<p>Um nome central nessa hist\u00f3ria \u00e9 Breno Augusto dos Santos, na \u00e9poca rec\u00e9m demitido da ICOMI, produtora de mangan\u00eas na Serra do Navio (AP), que foi chamado por Gene Tolbert, coordenador do BEP e seu professor no curso de Geologia Econ\u00f4mica na USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), para chefiar a equipe de campo em Caraj\u00e1s. Em voos de helic\u00f3ptero, um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico para a \u00e9poca, e atrav\u00e9s de fotografias a\u00e9reas do DNPM (Departamento Nacional de Pesquisa Mineral), imensas clareiras em meio \u00e0 floresta amaz\u00f4nica chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos ge\u00f3logos da expedi\u00e7\u00e3o. Num pouso para\u00a0 reabastecimento do helic\u00f3ptero em uma dessas clareiras, Breno vislumbrou a possibilidade de que houvesse ali um imenso dep\u00f3sito de min\u00e9rio de ferro. Era o dia 31 de julho de 1967 e come\u00e7ava ent\u00e3o a descoberta de Caraj\u00e1s.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, Breno fala desses 50 anos e de como a geologia e, com ela, a pr\u00f3pria minera\u00e7\u00e3o evolu\u00edram no Brasil. Gra\u00e7as aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, mas sem prescindir nunca do martelo, da lupa e da b\u00fassola dos ge\u00f3logos. Ainda assim, diz ele, o pa\u00eds est\u00e1 bastante aqu\u00e9m de seu potencial mineral, poucas empresas do setor investem em pesquisa e a atividade de minera\u00e7\u00e3o continua sendo tratada como vil\u00e3 da devasta\u00e7\u00e3o e da polui\u00e7\u00e3o ambiental pela sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Breno explica ainda que, at\u00e9 por raz\u00f5es geol\u00f3gicas, a RENCA &#8211; Reserva Nacional do Cobre e Associados &#8211; jamais poderia se tornar uma nova Serra Pelada. Prev\u00ea tamb\u00e9m que existam 40 Bt de itabirito magn\u00e9tico e outras 500 Mt de hematitito em clareiras ainda n\u00e3o avaliadas, que ser\u00e3o as futuras minas de Caraj\u00e1s. Por fim, confere aos jovens ge\u00f3logos a responsabilidade de\u00a0 encontrar novos caminhos na constru\u00e7\u00e3o do Brasil, que passa por um momento cr\u00edtico de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>ITM: <\/strong>Quais eram os maiores desafios para realizar uma expedi\u00e7\u00e3o como a da US Steel, na floresta amaz\u00f4nica, em 1967?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Breno: <\/strong>Havia muitos desafios, entre eles o fato de enfrentar o desconhecido, em uma regi\u00e3o com raras informa\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas e sem qualquer infraestrutura. Em n\u00edvel pessoal havia muitos medos: de voar em prec\u00e1rios helic\u00f3pteros e do encontro com \u00edndios arredios e animais ferozes. T\u00ednhamos uma forma\u00e7\u00e3o urbana e a Amaz\u00f4nia daquele tempo ainda era vista como o \u201cInferno Verde\u201d. Os moradores do Xingu, com quem mantivemos contato logo no in\u00edcio, relatavam conflitos ocorridos com os caiap\u00f3s e os assurin\u00eds, poucos anos antes de nossa chegada. Com o entusiasmo do trabalho, pelo desconhecido e pelas descobertas, esses medos se dissiparam.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O uso de helic\u00f3pteros para o reconhecimento de \u00e1reas foi in\u00e9dito?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Um ano antes, em 1966, o engenheiro Francisco Say\u00e3o Lobato, com a participa\u00e7\u00e3o do ge\u00f3logo Jo\u00e3o E.Ritter, utilizara um helic\u00f3ptero no mapeamento da Prov\u00edncia Estan\u00edfera de Rond\u00f4nia. As primeiras empresas de t\u00e1xi-a\u00e9reo, com helic\u00f3pteros, surgiram para dar apoio \u00e0 Petrobras, principalmente nos trabalhos iniciais da plataforma continental, e para a antiga Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear, que atuava basicamente no sudeste do Brasil. Na Amaz\u00f4nia, a Petrobras j\u00e1 utilizava helic\u00f3pteros no transporte de equipes para as pra\u00e7as de sondagem. Mas, como equipamento rotineiro em trabalhos de explora\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica, foi a primeira vez. E tudo estava para ser inventado e desenvolvido.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Quais eram as principais limita\u00e7\u00f5es desses helic\u00f3pteros?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Os equipamentos que t\u00ednhamos eram bem rudimentares. Estavam entre os primeiros modelos fabricados pela Bell Helicopter, com motor a combust\u00e3o tradicional. At\u00e9 a gasolina que utilizavam, de 80 octanas, j\u00e1 n\u00e3o estava dispon\u00edvel no mercado e era necess\u00e1rio usar um aditivo para adaptar a gasolina comercial de 100 octanas. A principal limita\u00e7\u00e3o era a autonomia e a necessidade de locais para pouso. Por serem monomotores, n\u00e3o eram adequados para voos sobre a floresta. Dependendo da pane, um helic\u00f3ptero consegue aterrissar com relativa seguran\u00e7a, desde que haja onde pousar. Tivemos v\u00e1rios incidentes desse tipo. Um deles, infelizmente, foi fatal, com a morte do ge\u00f3logo Roque e do piloto Talma, da Votec.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como essas limita\u00e7\u00f5es foram resolvidas?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>No in\u00edcio, pensou-se em utilizar a t\u00e9cnica de rapel como metodologia de acesso. Mas a ideia foi abandonada pela seguran\u00e7a das equipes. Alguns anos depois, essa t\u00e9cnica chegou a ser usada com frequ\u00eancia pelo Projeto RADAM, no excepcional mapeamento realizado na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, quanto \u00e0 autonomia, passamos a transportar combust\u00edvel adicional no bagageiro da aeronave, como foi feito no voo pioneiro, entre a ilha de S\u00e3o Francisco do Xingu e o Castanhal do Cinzento, que propiciou o pouso na Serra Arqueada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>E quanto aos locais de pouso?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Essa necessidade foi superada com a abertura de malhas regulares de helipontos. Para isso, partia-se de um local de acesso &#8211; um igarap\u00e9, um brejo, uma capoeira ou uma clareira natural &#8211; e iniciava-se a malha por onde seriam realizados os trabalhos de reconhecimento geol\u00f3gico. Por essa raz\u00e3o, as clareiras identificadas nas fotos a\u00e9reas, antes do interesse geol\u00f3gico, despertaram a nossa aten\u00e7\u00e3o como pontos de apoio para os voos com helic\u00f3ptero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Antes dos helic\u00f3pteros, como era feito o trabalho geol\u00f3gico na regi\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>O pioneirismo dos primeiros exploradores da geologia da regi\u00e3o foi muito mais arrojado que o nosso. Em 1922, o ge\u00f3logo Avelino Ign\u00e1cio de Oliveira, partiu de Altamira e subiu o Xingu at\u00e9 o rio Fresco. E, em 1933, o engenheiro Luiz Flores de Moraes Rego, partiu de Marab\u00e1, subindo o rio Itacai\u00fanas at\u00e9 a conflu\u00eancia com o rio Pium. Ambos navegaram com relativa proximidade \u00e0s clareiras com dep\u00f3sitos de min\u00e9rio de ferro. Avelino, dos dep\u00f3sitos de S\u00e3o F\u00e9lix; Moraes Rego, da fabulosa clareira S11 de Caraj\u00e1s, e registrou ter visto \u201cmorros de topo plano onde se encontram campos geraes\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Mas n\u00e3o desembarcaram em terra?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>N\u00e3o. Assim como os ge\u00f3logos do Projeto Araguaia, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, t\u00e9cnicas ou financeiras, eles limitaram os trabalhos de reconhecimento geol\u00f3gico \u00e0 calha dos grandes rios, sem acesso \u00e0s forma\u00e7\u00f5es sedimentares e vulc\u00e2nicas mineralizadas. O mangan\u00eas de Buritirama poderia at\u00e9 ter sido descoberto ent\u00e3o, pois h\u00e1 blocos de min\u00e9rio nas proximidades das margens do rio Itacai\u00fanas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O que voc\u00ea acha dos drones, que t\u00eam sido cada vez mais utilizados na prospec\u00e7\u00e3o mineral?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Breno: <\/strong>Acredito que os drones v\u00e3o ter, na fotografia e nos levantamentos a\u00e9reos, e at\u00e9 nos transportes, o mesmo significado que a Internet passou a ter nas comunica\u00e7\u00f5es. Ainda n\u00e3o conhe\u00e7o empresa no Brasil que os esteja utilizando, como apoio, para os reconhecimentos e mapeamentos geol\u00f3gicos. Algumas minas, sim. Se estivesse na ativa, j\u00e1 os estaria usando. Qualquer conhecimento cient\u00edfico avan\u00e7a com novas hip\u00f3teses de trabalho e novas tecnologias, que interagem entre si. A explora\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica n\u00e3o foge desse princ\u00edpio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Foi assim em Caraj\u00e1s?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Sim. As descobertas em Caraj\u00e1s sempre dependeram dos objetivos, das ideias e da tecnologia utilizada. Nos tempos pioneiros, o helic\u00f3ptero foi o grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, pois buscavam-se dep\u00f3sitos minerais aflorantes, de mangan\u00eas, ferro ou n\u00edquel, que seriam descobertos por quem primeiro chegasse. As serras do Cinzento e do Salobo, onde est\u00e1 a principal mina de cobre do Brasil, foram prospectadas pela Meridional em 1968, com o apoio do helic\u00f3ptero, mas buscando apenas ocorr\u00eancias de blocos de \u00f3xidos de mangan\u00eas, com o aux\u00edlio do martelo e da b\u00fassola. Se fosse usada a tecnologia de amostragem de sedimentos de corrente, esses dep\u00f3sitos de cobre e ouro teriam sido descobertos bem antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Quando ocorreram novos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos na geologia?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Para avan\u00e7armos no segundo ciclo de descobertas, a partir da d\u00e9cada de 70, houve necessidade de novas ideias e novas tecnologias, mas nunca abandonando as pr\u00e1ticas anteriores. A grande inova\u00e7\u00e3o foi uso sistem\u00e1tico da amostragem geoqu\u00edmica de sedimentos de corrente. Assim surgiram as primeiras descobertas de dep\u00f3sitos de cobre e ouro de Caraj\u00e1s, com destaque para o Salobo, Pojuca e Gameleira.<\/p>\n<p>O terceiro ciclo, a partir da d\u00e9cada de 90, foi marcado pelo apoio de softwares espec\u00edficos no tratamento dos dados geol\u00f3gicos, integrando v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es, e pelo uso sistem\u00e1tico da geof\u00edsica a\u00e9rea. Com isso surgiram novos dep\u00f3sitos de cobre e ouro, destacando-se o do Sossego, do Cristalino e do Alem\u00e3o, que foi a primeira descoberta de dep\u00f3sito n\u00e3o aflorante de Caraj\u00e1s.<\/p>\n<p>O novo ciclo de descobertas est\u00e1 na depend\u00eancia de hip\u00f3teses inovadoras de trabalho, bem como de tecnologias geof\u00edsicas mais atualizadas, que permitam a descoberta de dep\u00f3sitos n\u00e3o aflorantes. O preceito b\u00e1sico ser\u00e1 sempre a criatividade e uma mente aberta para novas ideias e tecnologias, que possibilitem o avan\u00e7o do conhecimento geol\u00f3gico, mas sempre sem esquecer que a b\u00fassola, a lupa e o martelo devem continuar como companheiros do ge\u00f3logo de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como surgiu a pr\u00e1tica de documentar todos os trabalhos de campo?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Nasci em uma fam\u00edlia que tinha o costume de documentar momentos com a fotografia, desde os tempos da \u201cc\u00e2mera caix\u00e3o\u201d. Assim, a fotografia passou a ser parte da minha rotina de vida, nos passeios e nas viagens.<\/p>\n<p>No final da adolesc\u00eancia, consegui a primeira c\u00e2mera 35 mil\u00edmetros, uma Assahi Flex. Nos tempos do curso de Geologia na USP, na Alameda Glete, j\u00e1 era um dos principais fot\u00f3grafos, que documentava as excurs\u00f5es da turma. Mas os filmes eram relativamente caros e sempre ficavam restritos aos preto e branco, rebobinados. O amor e a pr\u00e1tica da fotografia foram levados para a o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o. Na ICOMI, adquiri de um estagi\u00e1rio japon\u00eas, a minha primeira Canon. Passei, ent\u00e3o, para os slides coloridos, bem mais caros, que julgava fossem eternos. Infelizmente, no nosso clima tropical, a maioria deteriorou-se com fungos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O que foi feito desse acervo?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Em 1980, resolvi criar uma fototeca, com o apoio da bibliotec\u00e1ria Ana Margarida, da Docegeo, em Bel\u00e9m (PA), passando para o papel todas as imagens da Meridional e da Docegeo, e adotando essa pr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o aos demais ge\u00f3logos e t\u00e9cnicos da empresa. Foram criados grandes \u00e1lbuns, com todas as fotos, acompanhados por memorais descritivos.Hoje, apenas uma pequena parte da duplicata dessa cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 comigo e tenho tentado, aos poucos, transform\u00e1-la em um acervo digital, com cuidadosa recupera\u00e7\u00e3o das imagens danificadas. A cole\u00e7\u00e3o completa encontra-se com a Vale, que em v\u00e1rias ocasi\u00f5es prometeu digitaliz\u00e1-la. Nessa cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 um conte\u00fado significativo da hist\u00f3ria da geologia de Caraj\u00e1s, e tamb\u00e9m de parte da Amaz\u00f4nia, desde 1967 at\u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o da empresa, em 1997.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Voltando aos helic\u00f3pteros, o ponto de partida para a descoberta de Caraj\u00e1s foi o pouso em uma clareira na Serra Arqueada?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A confirma\u00e7\u00e3o da natureza hemat\u00edtica das clareiras de Caraj\u00e1s passou por etapas sucessivas. A partir do pouso na Serra Arqueada, no dia 31 de julho de 1967, quando a correla\u00e7\u00e3o com as demais clareiras ainda parecia um sonho absurdo, dif\u00edcil de acreditar. Na comunica\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, no dia 2 de agosto, atrav\u00e9s de uma cabine da Radional, em Bel\u00e9m, quando acidentalmente foi batizada a Serra Arqueada, houve um certo desalento, pois Gene Tolbert, meu chefe na Meridional, n\u00e3o se mostrou entusiasmado com a possibilidade das clareiras corresponderem a imensos dep\u00f3sitos de min\u00e9rio de ferro, e determinou que a busca de mangan\u00eas continuava o objetivo da expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O que aconteceu ent\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A curiosidade geol\u00f3gica persistia e havia o risco de que as grandes clareiras fossem o resultado da exist\u00eancia de outro tipo de rocha, como por exemplo plat\u00f4s est\u00e9reis de arenito. Assim, em 9 de agosto, contando com a habilidade do saudoso piloto Ad\u00e3o Coelho de Barros, com seu pequeno Cessna 170, realizei voos rasantes sobre as clareiras da Serra Norte confirmando a sua semelhan\u00e7a com a cobertura de canga da Serra Arqueada.<\/p>\n<p>Tolbert, por sua vez, com uma atitude ousada, conseguiu deslocar um DC3 da LASA, que fazia levantamento magnetom\u00e9trico para a Petrobras, no Maranh\u00e3o, para voos em Caraj\u00e1s e no Amap\u00e1, entre 18 e 20 de agosto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Para realizar o mesmo tipo de levantamento?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Sim. Nosso objetivo era verificar se havia algum n\u00edvel magn\u00e9tico, associado aos dep\u00f3sitos de Serra do Navio e do Sereno, que pudesse servir de guia para a prospec\u00e7\u00e3o de novas ocorr\u00eancias de mangan\u00eas. \u00a0Embora o ferro n\u00e3o fosse o objetivo, quando as linhas de voo passavam sobre as clareiras de Caraj\u00e1s, a agulha do magnet\u00f4metro sa\u00eda da escala, tal o valor da anomalia. Mais uma prova da possibilidade de grandes dep\u00f3sitos de min\u00e9rio de ferro. No final de agosto, os tr\u00eas ge\u00f3logos da equipe fizeram o reconhecimento das clareiras da Serra Norte e da Clareira S11, na Serra Sul, confirmando o que era esperado: a aus\u00eancia da floresta era devida \u00e0 cobertura com canga hemat\u00edtica.<\/p>\n<p>A prova final foi obtida no in\u00edcio de 1968, com a abertura de uma galeria de pesquisa sob a canga, no anfiteatro da clareira N1. Foi atravessado hematitito de alto teor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Voc\u00ea j\u00e1 chegou a dizer que Serra Arqueada \u00e9 o maior dep\u00f3sito de itabirito de Caraj\u00e1s? Porqu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A pesquisa inicial, realizada pela Amaz\u00f4nia Minera\u00e7\u00e3o (Vale e USS) determinou recursos totais de 18 bilh\u00f5es de toneladas, de min\u00e9rio hemat\u00edtico de alto teor, nas serras Norte, Sul, Leste e de S\u00e3o F\u00e9lix. N\u00e3o houve estimativa sobre o protomin\u00e9rio jaspel\u00edtico e nem das ocorr\u00eancias de itabirito. Na Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s apenas algumas das in\u00fameras ocorr\u00eancias de itabirito magnet\u00edtico foram avaliadas.\u00a0 A principal \u00e9 a pr\u00f3pria Serra Arqueada, com cerca de 85 km de extens\u00e3o, desde as cabeceiras do igarap\u00e9 Carapan\u00e3 at\u00e9 o rio Pium, nos morrotes dos Tr\u00eas Irm\u00e3os. Percorri v\u00e1rias vezes essa \u00e1rea, a maior parte dela pertencente \u00e0 Reserva Ind\u00edgena do Catet\u00e9, em voos de helic\u00f3ptero, verificando os afloramentos de itabirito e, em alguns locais, clareiras e dep\u00f3sitos de hematitito. Por sua extens\u00e3o, pode-se estimar um potencial da ordem 40 Bt de itabirito magnet\u00edtico e 500 Mt de hematitito. No pr\u00f3ximo s\u00e9culo, desde que o min\u00e9rio de ferro continue sendo utilizado, os itabiritos ser\u00e3o os recursos de Caraj\u00e1s, onde estar\u00e3o as suas principais minas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Saindo da Meridional, como foi sua experi\u00eancia na Docegeo, que se tornou a maior empresa de pesquisa mineral do Brasil?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Quando a Docegeo foi criada, em 1971, todas as grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o possu\u00edam organiza\u00e7\u00f5es menores, dedicadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica. Essa pr\u00e1tica era adotada para que houvesse maior flexibilidade administrativa e operacional, em um trabalho n\u00e3o rotineiro como o de uma grande mineradora, e que na maioria dos casos exige r\u00e1pidas decis\u00f5es. N\u00e3o resta d\u00favida que o que mais marcou foi a qualidade da equipe da Amaz\u00f4nia. Dificilmente poder\u00e1 haver outro ambiente de trabalho t\u00e3o bom como aquele, particularmente nos anos 70, e com tantas realiza\u00e7\u00f5es. Era f\u00e1cil achar dep\u00f3sitos minerais com aquela equipe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Quais dessas realiza\u00e7\u00f5es voc\u00ea destacaria?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Sem d\u00favida, a descoberta dos dep\u00f3sitos de cobre e ouro de Caraj\u00e1s e dos dep\u00f3sitos de bauxita de Paragominas e Almeirim, introduzindo uma cultura na empresa, que contribuiu para que a Vale chegasse a ser tamb\u00e9m uma produtora de cobre, ouro, alumina e alum\u00ednio. A descoberta do ouro de Andorinhas e do Igarap\u00e9 Bahia, tamb\u00e9m foram marcos importantes. Al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o do garimpo de Serra Pelada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>A CPRM (Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil) pode ter sua atua\u00e7\u00e3o comparada \u00e0 da Docegeo?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Breno: <\/strong>As atribui\u00e7\u00f5es de um Servi\u00e7o Geol\u00f3gico, como a CPRM, s\u00e3o bem diferentes e mais abrangentes que as de uma empresa de explora\u00e7\u00e3o e pesquisa geol\u00f3gica. A sua fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica n\u00e3o \u00e9 a descoberta e avalia\u00e7\u00e3o de dep\u00f3sitos minerais, mas sim a de executar mapeamentos geol\u00f3gicos e levantamentos b\u00e1sicos, geoqu\u00edmicos e geof\u00edsicos, fornecendo instrumentos que facilitem a busca de dep\u00f3sitos minerais pelas empresas, mas que tamb\u00e9m atendam a outros setores da sociedade, como planejamento da ocupa\u00e7\u00e3o do solo, gest\u00e3o da \u00e1gua, constru\u00e7\u00e3o de estradas, planejamento urbano, etc. Nos \u00faltimos anos a CPRM tem tentado atingir essas metas, embora o Brasil ainda tenha um grande atraso em rela\u00e7\u00e3o aos levantamentos geol\u00f3gicos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Qual foi o papel da Docegeo no garimpo de Serra Pelada?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A Docegeo da Amaz\u00f4nia, da qual era o gerente, tinha a responsabilidade de fazer a pesquisa do dep\u00f3sito, por estar na \u00e1rea do Decreto de Lavra de Serra Leste e, ao mesmo tempo, comprar, fundir, transportar, analisar e encaminhar \u00e0 Caixa Econ\u00f4mica Federal, em Bel\u00e9m, o ouro adquirido dos garimpeiros, em nome do Banco Central. Al\u00e9m disso, era respons\u00e1vel por toda a infraestrutura dentro do garimpo, como energia el\u00e9trica, telefonia, estradas e pista de pouso, com recursos reembolsados pelo Banco Central. Essa atividade era integralmente acompanhada pela Ag\u00eancia Central do SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es), em Bras\u00edlia (DF), ligada ao presidente Jo\u00e3o Figueiredo, e tinha como seu representante no garimpo, nos primeiros anos, o ent\u00e3o major Sebasti\u00e3o Curi\u00f3, um dos principais agentes que combateram a Guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>O final do garimpo estava previsto?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Tudo havia sido acertado para que quando o garimpo acabasse naturalmente, a Vale implantaria a sua minera\u00e7\u00e3o. Para isso, est\u00e1vamos fazendo a pesquisa geol\u00f3gica e a Vale iniciando os estudos de planejamento da lavra. Era sabido que os garimpeiros abandonavam as ocorr\u00eancias minerais quando a atividade manual se tornava imposs\u00edvel. Isso de fato aconteceu no final de 1981, quando a cava foi inundada pelo len\u00e7ol fre\u00e1tico. Ainda assim, no in\u00edcio de 1982, recebi um telefonema de um coronel do SNI determinando, por ordem do presidente Figueiredo, que a Docegeo contratasse uma empresa de terraplanagem para rebaixar o garimpo, preparando uma cava para a lavra, construir uma estrada de acesso e nova pista de pouso. At\u00e9 ent\u00e3o, o garimpo havia sido tratado como um col\u00e9gio militar, com muita disciplina, hasteamento di\u00e1rio da bandeira, ao som do hino nacional e uma certa harmonia social no tratamento dos garimpeiros. Inclusive, s\u00f3 podiam permanecer no garimpo os que l\u00e1 estavam por ocasi\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o do SNI, em maio de 1980, ao redor de 15 mil pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Em 1982, esse quadro mudou?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Sim. O garimpo perdeu a sua virgindade e transformou-se em um curral eleitoral, na tentativa de eleger Sebasti\u00e3o Curi\u00f3 como deputado federal, e conseguir votos para o candidato da Arena (partido de apoio ao governo militar), Oziel Carneiro como governador do Par\u00e1. Foi, ent\u00e3o, liberada a entrada de novos garimpeiros, que chegaram a cerca de 60 mil, para ampliar o n\u00famero de eleitores. Como consequ\u00eancia, Curi\u00f3 foi eleito, mas o candidato do MDB (partido de oposi\u00e7\u00e3o) a governador, Jader Barbalho, venceu as elei\u00e7\u00f5es. Com a amplia\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, aumentaram os conflitos entre os garimpeiros e a Docegeo e v\u00e1rios adiamentos do t\u00e9rmino do garimpo foram conseguidos sob press\u00e3o, com Curi\u00f3 atuando como deputado federal. Em maio de 1984, a situa\u00e7\u00e3o tornou-se insustent\u00e1vel e solicitei ao SNI refor\u00e7o para a seguran\u00e7a. Ante a negativa, com os dois helic\u00f3pteros da empresa, em apenas um dia, retirei toda equipe, passando a compra do ouro a ser feita diretamente por funcion\u00e1rios da Caixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Os garimpeiros permaneceram l\u00e1?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Sim e passaram a lutar para transformar Serra Pelada em uma reserva garimpeira, desmembrando-a do Decreto de Lavra da Vale. Com o apoio de Curi\u00f3, que passou a empregar as t\u00e1ticas de guerrilha que antes combatera, fechando estradas e estimulando saques, e provocando uma rebeli\u00e3o na regi\u00e3o, com o enfretamento com a Policia Militar do Par\u00e1 sobre a ponte do rio Parauapebas, ante a tentativa de invas\u00e3o do canteiro de obras do projeto ferro, da Vale. Com o apoio do presidente Figueiredo, o Congresso Nacional aprovou a cria\u00e7\u00e3o da reserva garimpeira at\u00e9 a cota pesquisada pela Docegeo, sendo a Vale indenizada pelo ouro contido, ao redor de 27 toneladas. Foi um bom neg\u00f3cio, pois o custo da lavra foi zero. Hoje, apesar de terem havido outras tentativas de pesquisa e de lavra, inclusive pela pr\u00f3pria Vale, o que resta em Serra Pelada \u00e9 uma cava repleta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como voc\u00ea analisa a extin\u00e7\u00e3o da RENCA?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Toda uma m\u00edstica fantasiosa est\u00e1 sendo desenvolvida pela m\u00eddia e pela opini\u00e3o p\u00fablica a respeito da RENCA. Na realidade, a Reserva Nacional do Cobre e Associados jamais deveria ter sido criada. Ela foi a sa\u00edda pol\u00edtica, encontrada pelo governo da \u00e9poca, para superar o conflito de interesses pelos direitos miner\u00e1rios de pesquisa, entre a antiga BP Minera\u00e7\u00e3o e a Vale, pela resist\u00eancia da gest\u00e3o da Docegeo em renunciar os seus requerimentos de alvar\u00e1 de pesquisa. At\u00e9 a sua denomina\u00e7\u00e3o foi infeliz, pois estabeleceu uma \u201creserva de cobre\u201d onde, at\u00e9 o presente, n\u00e3o foi encontrada sequer uma amostra de min\u00e9rio de cobre. Essa denomina\u00e7\u00e3o cairia melhor na Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s, onde de fato h\u00e1 uma grande fertilidade de ocorr\u00eancias de cobre. O que est\u00e1 sendo revogado, sem afetar os direitos das reservas florestais e ind\u00edgenas, que posteriormente foram criadas no seu interior, \u00e9 o impedimento de se fazer explora\u00e7\u00e3o e pesquisa geol\u00f3gica nas \u00e1reas onde isso \u00e9 poss\u00edvel. Eventual minera\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ocorrer no caso em que alguma das pesquisas geol\u00f3gicas tenha sucesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Voc\u00ea v\u00ea riscos de surgir uma nova Serra Pelada no local?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A possibilidade de que uma nova Serra Pelada ocorra no seu interior \u00e9 bastante remota. Na Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s houve diversas fases de intensa atividade hidrotermal, que foram respons\u00e1veis pelos dep\u00f3sitos de cobre e ouro, bem como pelo ouro de Serra Pelada. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que isso tenha ocorrido nas \u00e1reas da RENCA, e que possam existir os fant\u00e1sticos aglomerados hidrotermais de ouro, denominados como \u201cpepitas\u201d pelos garimpeiros, que provocaram a corrida do ouro de Serra Pelada. Os garimpos que l\u00e1 existem s\u00e3o aluvionares, como ocorrem em quase todas \u00e1reas pr\u00e9-cambrianas da Amaz\u00f4nia. \u00c9 bom que se registre que a exist\u00eancia da RENCA n\u00e3o impediu a atividade garimpeira. O que impede a atividade garimpeira \u00e9 a fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Como voc\u00ea v\u00ea as altera\u00e7\u00f5es ao C\u00f3digo Nacional de Minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>Embora o Brasil tenha um grande potencial para o desenvolvimento mineiro, e a minera\u00e7\u00e3o tenha dado grande contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento regional, assim como para a economia do Pa\u00eds, notadamente no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero e na Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s, a atividade ainda \u00e9 vista pela m\u00eddia e pela opini\u00e3o p\u00fablica, como o \u201cpatinho feio\u201d do desenvolvimento. O retrato \u00e9 o de uma atividade que s\u00f3 deixa buracos, e o apito do trem, e que \u00e9 altamente poluidora. Infelizmente, o tr\u00e1gico acidente da Samarco veio contribuir para essa imagem. Isso n\u00e3o ocorre em pa\u00edses com id\u00eantico potencial mineral, como o Canad\u00e1 e a Austr\u00e1lia, onde a popula\u00e7\u00e3o entende que a minera\u00e7\u00e3o pode ser de fato um dos alicerces do desenvolvimento econ\u00f4mico e social, e com sustentabilidade ambiental. Assim, qualquer iniciativa que venha apoiar o desenvolvimento mineiro, seguindo o modelo dos pa\u00edses com minera\u00e7\u00e3o mais desenvolvida, e dando maiores garantias aos investidores, ser\u00e1 sempre ben\u00e9fica e estimulante para o setor. Inclusive, nos tempos da Secretaria de Minas e Metalurgia, tentei atrair a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro para o modelo canadense de Toronto, visando particularmente o desenvolvimento de empresa juniores de geologia e de minera\u00e7\u00e3o. Dois diretores da Bolsa chegaram a viajar para o Canad\u00e1 e voltaram entusiasmados com a ideia. Infelizmente, e por raz\u00f5es que desconhe\u00e7o, n\u00e3o foi demonstrado grande interesse no contato que tiveram com o IBRAM, e a iniciativa foi abandonada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Em sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os principais obst\u00e1culos \u00e0 pesquisa mineral no Brasil?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Breno: <\/strong>A tentativa desastrada de se tentar mudar o marco regulat\u00f3rio da minera\u00e7\u00e3o, copiando o modelo existente para as bacias de petr\u00f3leo, com as quais a pesquisa mineral n\u00e3o tem qualquer semelhan\u00e7a, causou grande atraso no desenvolvimento do setor, pois as empresas ficaram durante alguns anos impedidas de novos requerimentos de pesquisa, sequer obtendo a renova\u00e7\u00e3o dos alvar\u00e1s existentes. Se \u00e9 verdade que toda legisla\u00e7\u00e3o merece ser constantemente aprimorada, e o C\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o foge dessa realidade, a tentativa de mudan\u00e7a radical causou grande dano ao desenvolvimento da minera\u00e7\u00e3o brasileira. Al\u00e9m da inseguran\u00e7a jur\u00eddica, as rigorosas exig\u00eancias ambientais para os simples programas de pesquisa, tanto por \u00f3rg\u00e3os federais como estaduais, \u00e0s vezes com conota\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, s\u00e3o outros complicadores para o setor. H\u00e1 um constante conflito entre os prazos de vig\u00eancia dos alvar\u00e1s de pesquisa e os da licen\u00e7a ambiental, cuja demora na concess\u00e3o muitas vezes inviabiliza a pesquisa de pequenas e grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o. A sociedade brasileira, atrav\u00e9s de seus representantes, tem que decidir se o potencial mineral do Pa\u00eds deve, ou n\u00e3o, ser utilizado para o seu desenvolvimento econ\u00f4mico e social, com sustentabilidade ambiental, criando uma legisla\u00e7\u00e3o que n\u00e3o impe\u00e7a a evolu\u00e7\u00e3o do seu conhecimento, fundamental e necess\u00e1rio para novos empreendimentos mineiros.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ITM: <\/strong>Qual \u00e9 sua avalia\u00e7\u00e3o do est\u00e1gio atual da minera\u00e7\u00e3o brasileira?<\/p>\n<p><strong>Breno: <\/strong>A minera\u00e7\u00e3o brasileira ainda est\u00e1 aqu\u00e9m da realidade do potencial mineral do Pa\u00eds. Somos grandes produtores de algumas commodities minerais \u2013 ferro, alum\u00ednio, mangan\u00eas, ni\u00f3bio e rochas ornamentais, e estamos come\u00e7ando a nos desenvolver em rela\u00e7\u00e3o ao cobre. Mas temos poucas empresas de minera\u00e7\u00e3o atuando efetivamente na pesquisa mineral. \u00c9 estranho o fato de que pa\u00edses com grande tradi\u00e7\u00e3o mineira e onde o conhecimento de seu subsolo est\u00e1 bem mais evolu\u00eddo, continuem investindo mais que o Brasil.<\/p>\n<p>Creio que isso \u00e9 fruto da aus\u00eancia levantamentos geol\u00f3gicos b\u00e1sicos adequados para atrair investidores, bem como de uma legisla\u00e7\u00e3o que d\u00ea seguran\u00e7a aos investimentos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Perfil:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nasceu em: <\/strong>Ol\u00edmpia (SP), em 01\/07\/1940.<\/p>\n<p><strong>Mora em: <\/strong>Niter\u00f3i (RJ)<\/p>\n<p><strong>Trajet\u00f3ria Acad\u00eamica: <\/strong>Ge\u00f3logo, turma de 1963 da Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><strong>Trajet\u00f3ria Profissional: <\/strong>ICOMI (AP), como ge\u00f3logo (1964) e gerente do Departamento de Minera\u00e7\u00e3o (1964\/67). Cia.Meridional de Minera\u00e7\u00e3o &#8211; United States Steel, (PA), como gerente do Projeto de Pesquisa Sudeste do Par\u00e1 (1967\/69) e gerente regional da Amaz\u00f4nia (1969\/71). Rio Doce Geologia Minera\u00e7\u00e3o &#8211; Docegeo (CVRD, hoje Vale): gerente regional do Distrito Leste na Bahia (1971); gerente regional do Distrito Amaz\u00f4nia &#8211; PA (1972\/74); diretor t\u00e9cnico (1984\/93) e diretor-presidente e vice-presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o (1993\/94 e 1995\/97) &#8211; RJ. Minist\u00e9rio de Minas e Energia &#8211; MME (DF), como secret\u00e1rio de Minas e Metalurgia (1994\/95). Cia.de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) &#8211; RJ, como membro do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o (1996\/2000). Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) &#8211; SP, como consultor para projeto do BNDES relativo a Caraj\u00e1s (2003\/14). Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), como consultor para projeto relativo a Caraj\u00e1s (desde 2015) e MME), como membro do Conselho de Secret\u00e1rios de Geologia, Minera\u00e7\u00e3o e Transforma\u00e7\u00e3o Mineral (desde 2016)<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia: <\/strong>Minha esposa, Yolanda Oliveira dos Santos, 5 filhos (Sandra, T\u00e2nia, M\u00e1rcia, Paulo e Paula) e 6 netas (Let\u00edcia, Camila, Marina, Kime e Laura)<\/p>\n<p><strong>Hobby: <\/strong>Al\u00e9m de Caraj\u00e1s, viagens, fotografia e jardinagem<\/p>\n<p><strong>Um \u00eddolo: <\/strong>Descartando os da inf\u00e2ncia, tive v\u00e1rios gurus na vida profissional: o engenheiro Manoel Rico Campos, meu chefe na ICOMI; o ge\u00f3logo Gene Tolbert, meu professor e chefe na Meridional e na Terraservice (Docegeo); o engenheiro e ge\u00f3logo Acyr \u00c1vila da Luz, grande amigo, e o ge\u00f3grafo Aziz Ab\u2019 Saber, com quem tive a honra de compartilhar alguns momentos<\/p>\n<p><strong>Maior realiza\u00e7\u00e3o: <\/strong>Ter acompanhado o desenvolvimento de Caraj\u00e1s do seu in\u00edcio at\u00e9 hoje. No Brasil, ningu\u00e9m teve essa oportunidade, e raros ge\u00f3logos a tiveram na geologia mundial<\/p>\n<p><strong>Maior decep\u00e7\u00e3o: <\/strong>Ter visto a sociedade brasileira, por incompet\u00eancia pol\u00edtica, educacional, empresarial e tecnol\u00f3gica, desperdi\u00e7ar a oportunidade de um desenvolvimento integrado da Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s, utilizando as facilidades log\u00edsticas criadas pela minera\u00e7\u00e3o. Foi feita uma ocupa\u00e7\u00e3o desordenada, sem zoneamento ambiental e com predom\u00ednio da grilagem<\/p>\n<p><strong>Uma defini\u00e7\u00e3o para a minera\u00e7\u00e3o: <\/strong>Tem sido essencial para o desenvolvimento material da humanidade, assim como a agricultura o foi para sua evolu\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Na nossa Amaz\u00f4nia, a minera\u00e7\u00e3o \u00e9 tratada como a vil\u00e3 da devasta\u00e7\u00e3o e da polui\u00e7\u00e3o. No entanto, uma grande mina, como as de Caraj\u00e1s, ocupa uma \u00e1rea de algumas dezenas de quil\u00f4metros quadrados, enquanto o agroneg\u00f3cio, particularmente a pecu\u00e1ria, j\u00e1 devastou mais de 500 mil km<sup>2<\/sup> da floresta amaz\u00f4nica. Em imagens da Prov\u00edncia Mineral de Caraj\u00e1s, no Google Earth, \u00e9 poss\u00edvel constatar que s\u00f3 restaram as reservas criadas e conservadas pela Vale. Al\u00e9m disso, toda a infraestrutura da regi\u00e3o &#8211; energia, ferrovia e estradas -, foi criada em fun\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Um &#8220;conselho&#8221; a jovens ge\u00f3logos: <\/strong>O sucesso da equipe \u00e9 mais gratificante que o sucesso pessoal. Fujam dos paradigmas: o trabalho sempre pode ser sempre aprimorado, com novas ideias e tecnologias. Acreditem que h\u00e1 muitos dep\u00f3sitos minerais a serem descobertos no Brasil. Nosso n\u00edvel de conhecimento geol\u00f3gico \u00e9 o mesmo em que os pa\u00edses com tradi\u00e7\u00e3o mineira estavam h\u00e1 40 anos. Vivemos hoje um dos momentos mais cr\u00edticos de nossa hist\u00f3ria, com descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e nos valores da Na\u00e7\u00e3o, e de compet\u00eancia duvidosa como sociedade, fruto da decad\u00eancia do nosso sistema educacional nos \u00faltimos 40 anos.Como parte da elite profissional deste Pa\u00eds, voc\u00eas t\u00eam a responsabilidade de encontrar novos caminhos na constru\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o, com sustentabilidade no desenvolvimento socioecon\u00f4mico e ambiental<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Principais Trabalhos Publicados: <\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;AMAZ\u00d4NIA &#8211; Potencial Mineral e Perspectivas de Desenvolvimento&#8221;<\/strong> &#8211; 1981 (&#8220;Pr\u00eamio Jabuti&#8221; da C\u00e2mara Brasileira do Livro, na categoria de Ci\u00eancias Naturais, 1982).<\/p>\n<p><strong>&#8220;Recursos Minerais de Caraj\u00e1s&#8221;<\/strong> &#8211; 1986 (em &#8220;CARAJ\u00c1S&#8221; &#8211; Desafio Pol\u00edtico, Ecologia e Desenvolvimento&#8221;).<\/p>\n<p><strong>&#8220;Caraj\u00e1s, hist\u00f3ria e perspectivas&#8221;<\/strong> &#8211; 1986 (em &#8220;Espa\u00e7o, Ambiente e Planejamento&#8221;).<\/p>\n<p><strong>&#8220;Conhecimento e uso dos recursos minerais da Amaz\u00f4nia&#8221;<\/strong> &#8211; 1986 (em &#8220;Espa\u00e7o, Ambiente e Planejamento&#8221;).<\/p>\n<p><strong>&#8220;Caraj\u00e1s: Patrim\u00f4nio Nacional&#8221;<\/strong> &#8211; 1987 (em &#8220;A Quest\u00e3o Mineral da Amaz\u00f4nia&#8221;)<\/p>\n<p><strong>&#8220;Potencial Mineral da Amaz\u00f4nia para o S\u00e9culo XXI e os Problemas Ambientais Relacionados&#8221;<\/strong>&#8211; 1996 (em &#8220;Uma estrat\u00e9gia latino-americana para a Amaz\u00f4nia&#8221;).<\/p>\n<p><strong>&#8220;The Mineral Resources of Amazonia&#8221;<\/strong> &#8211; 1998 (em &#8220;AMAZONIA &#8211; Heaven of a New World&#8221;).<\/p>\n<p><strong>&#8220;Die Mineralressourcen Amazoniens&#8221;<\/strong> &#8211; 1999 (em &#8220;AMAZONIEN &#8211; Himmel der Neuen Welt&#8221;).<\/p>\n<p><strong>\u201cRecursos Minerais da Amaz\u00f4nia\u201d<\/strong> \u2013 2002 (em \u201cEstudos Avan\u00e7ados 16 (45)).<\/p>\n<p><strong>\u201cContribui\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento da Explora\u00e7\u00e3o Geol\u00f3gica e da Minera\u00e7\u00e3o Brasileiras\u201d<\/strong> \u2013 2007 (em \u201cGEOLOGIA USP \u2013 50 Anos\u201d)<\/p>\n<p><strong>\u201cPelas Pedras do Caminho Mineral<\/strong>\u201d- 2010 \u2013 Editora Signus \u2013 Organizador.<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-11880 gallery-columns-3 gallery-size-medium'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/brenoatual9.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"214\" src=\"https:\/\/www.inthemine.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/brenoatual9-300x214.jpg\" 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